O que falam de Conrad


A Ubu fez uma seleção de notórios celebrando Joseph Conrad, autor de alguns dos grandes clássicos da literatura inglesa. Transcrições de falas sobre Conrad e sua obra ou de trechos que explicam a influência do autor no trabalho de grandes escritores.

“Porque Conrad tinha um dom, porque era autodidata, e sua obrigação com uma língua estranha e em geral valorizada mais por seus aspectos do latim do que por aqueles do saxão era tamanha que lhe parecia impossível fazer um movimento de caneta que fosse feio ou insignificante. Sua amante – seu estilo – às vezes é um pouco sonolenta, quando em repouso. Mas logo que alguém fala com ela, com que esplendor ela nos arrebata, com que colorido, triunfo e majestade!” – Virginia Woolf

“Lembro de uma observação que Joseph Conrad – um dos meus autores preferidos – fez acho que no prefácio ao A linha da sombra. Ele disse que alguns leitores estavam achando que a história era de fantasia porque o fantasma do capitão interrompe o curso do navio. Ele escreveu – e isso me marcou porque eu escrevo histórias de fantasia – que escrever uma história fantasiosa deliberadamente pressupunha não sentir que o universo inteiro é, em si mesmo, fantástico e misterioso; não que isso queira dizer que falte sensibilidade a uma pessoa que se senta para escrever algo deliberadamente fantasioso. Conrad acreditava que quando alguém escrevia sobre o mundo, mesmo que de maneira realista, esse alguém estaria escrevendo uma história de fantasia porque o mundo é, de fato, fantástico, insondável e misterioso.” – Jorge Luis Borges

Sobre o Coração das trevas: “o mais intenso de todos os relatos já concebidos pela imaginação humana.” – Jorge Luis Borges

“Ele é superpoderoso. Recentemente li uma biografia dele que é interessante, também. E também um romance pequeno e ótimo, que eu não relia desde os meus vinte anos, O negro do Narciso. É uma obra-prima absoluta. Inacreditável. E sobre raça. É brilhante. Tão brilhante. Conrad é rico. Muito rico.” – Philip Roth

“Joseph Conrad custou a ganhar popularidade. Quando ela veio, foi graças ao caráter exótico da sua obra inicial, ao sopro de peripécia e poesia marítima, que reintroduziu em obras da última fase. Mas, embora marinheiro, não se sentia ‘escritor do mar’, nem queria ser considerado autor de livros de aventuras, – pois a sua preocupação foi sempre, e cada vez mais, apresentar uma visão dramática do homem, independente das circunstâncias de lugar […]. A crítica moderna, consciente desse caráter muito mais importante, adotou e desenvolveu o seu ponto de vista, atenuando quanto possível o significado do elemento exótico. Era preciso a todo custo salvá-lo da perigosa companhia dos Karl May.” – Antonio Candido

“Creio que fomos muitos a aproximar-nos de Conrad movidos por um amor recorrente pelos escritores ‘aventurosos’ – mas não aventurosos apenas: aqueles para quem a aventura serve para dizer coisas novas aos homens e as histórias e os países extraordinários servem para marcar com mais evidência sua relação com o mundo. Na minha estante ideal, Conrad tem lugar garantido junto com o aéreo Stevenson, que é quase o seu oposto, como vida e estilo. Contudo, mais de uma vez estive tentado a deslocá-lo para outra prateleira – com acesso mais difícil para mim –, a dos romancistas analíticos, psicológicos, dos James, dos Proust, dos recuperadores incansáveis de cada migalha das sensações vividas; ou até na dos estetas mais ou menos malditos, à maneira de Poe, tomados de amores transpostos; quando também as suas obscuras inquietudes de um universo absurdo não o remetam para a divisória – ainda não bem-ordenada e selecionada – dos ‘escritores da crise’.” – Italo Calvino

“Sem filiação de escola literária, por meditada convicção, [Conrad] foi um simbolista, confessando-se certo de que todas as grandes criações da literatura têm sido simbólicas. A superfície, o enredo serviam para atrair o leitor comum à verdade dos símbolos […]. De todas as narrativas de Conrad, [Coração das trevas] talvez seja a mais imprecisa, a mais simbolista, a mais poética, a que mais usa e abusa duma indefinida gama de significados obscuros que se multiplicam e entrelaçam.” – Paulo Mendes Campos

“André Gide, um amigo próximo de Conrad, tirou a epígrafe da parte V de Lafcadio’s Adventures (1914) de Lorde Jim (1900) […]. O conceito crucial de Gide de acte gratuit […] vem de the schocking senselessness of gratuitous blasphemy [a chocante falta de sentido da blasfêmia gratuita] de Conrad em O agente secreto (1907). Gide dedicou seu Travels in the Congo (1927) à memória de Joseph Conrad e adotou o tema anti-imperalista do autor. Nesse livro, ele admira a arte de Tufão (1902) (que traduziu para o francês), e reitera – ao mesmo tempo – a grandiosidade e o impacto de outro livro: ‘Estou relendo Coração das trevas (1902) pela quarta vez. Só após ter visto o país que percebo como é bom’.” – Jeffrey Meyers

“Thomas Mann, um grande admirador de Conrad, escreveu um ensaio sobre O agente secreto em 1926, o que ajudou a fortalecer a reputação de Conrad na Alemanha. O tom discreto e pedante do narrador deliberadamente imperceptível do Doutor Fausto de Mann, Serenus Zeitblom, é inspirado diretamente pelo professor de línguas que narra Sob os olhos do Ocidente […]. Mann imita de forma clara [o] modelo narrativo [do começo do romance de Conrad] no parágrafo inicial de Doutor Fausto.” – Jeffrey Meyers

“[Herman Melville e Joseph Conrad investigam] os limites em grande parte desconhecidos de seus mundos, fazendo de suas obras mais radicais um verdadeiro desafio à própria identidade estável.” – Edward Said

“Sob a assombração dessa experiência, Coração das trevas propõe uma identificação com o que não queremos ver em nós mesmos. Desafiando o mito dos nacionalismos, sugere uma identificação desestabilizadora entre opostos. Não só somos o contrário do que queremos crer (a ‘causa nobre’ da missão colonialista), mas carregamos em nós o avesso da nossa autodefinição (nossa civilidade é capaz da violência mais selvagem). Somos o outro. A identidade que fabricamos é uma fachada que nos permite fazer tudo o que a contradiz.” – Bernardo Carvalho

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