Desde quando a obediência se tornou sinônimo da boa criação?


A Ubu selecionou e traduziu trechos de um artigo de Annalisa Barbieri publicado no The Guardian questionando o senso comum sobre o controle e a expectativa de criar crianças obedientes, no contexto da educação de crianças inglesas de classe média. O texto abre um pensamento interessante sobre a “desobediência infantil”, mas as descrições nem sempre retratam a diversidade da realidade brasileira nesse campo.

A maioria dos livros para pais são sobre como fazer com que crianças façam as coisas bem. Com “bem” quero dizer “de forma obediente”. Que façam coisas quando e como você – o adulto – quer que elas as façam: comer bem, fazer xixi no penico, dormir bem (esta é a mais difícil), se comportar bem. Porque, de acordo com esses livros, criança obediente = pais bem sucedidos; desobediente = pais fatalmente fracassados. Mas, na verdade, uma criança obediente deve ser causa de preocupação ou alegria? Quanto mais eu pensava sobre isso, mais intrigada ficava. Dizer a alguém que seu filho é obediente é (geralmente) um elogio. Mas um adulto obediente? Não tão atrativo, certo? Temos expressões para esse tipo de adulto, “pau mandado” é uma delas.

Alfie Kohn, autor do livro Unconditional Parenting. Moving from Rewards and Punishments to Love and Reason, diz, “Quando pergunto aos pais, no começo de minhas palestras, quais são suas metas a longo prazo para seus filhos, escuto palavras como ética, compaixão, independência, felicidade, e por aí vai. Nunca ninguém menciona complacência cega”.

Uma criança complacente se torna particularmente preocupante, Kohn admite, quando atinge a adolescência. “Se aceitam ordens de outras pessoas, isso pode incluir pessoas que não aprovamos. Para colocar de outro jeito: as crianças mais sujeitas a sofrer de pressão dos pares são as que aprenderam com os pais a fazer o que os outros mandam.

Alison Roy, psicoterapeuta de crianças e adolescentes no East Sussex CAMHS diz: “Crianças vão testar os limites em relacionamentos mais seguros. Crianças que obtiveram respostas, e foram levadas a crer – de forma saudável – que suas vozes são valorizadas, que tudo o que devem fazer é contestar e algo será feito a respeito, essas crianças vão testar os limites. E isso é um comportamento muito saudável. Crianças complacentes? Estas aprenderam que não há por que discutir, já que suas vozes não são levadas em consideração”.

Muito do que vemos como desobediência em crianças é, na verdade, um comportamento natural, curioso, exploratório, e didático. Ou uma reação – a única que conhecem – a uma situação sobre a qual não têm controle.

“Você poderia ameaçar ou subornar uma criança para que ela seja obediente por um tempo”, explica Kohn, “mas não estaria tendo uma perspectiva ampla e falharia em identificar a  causa subjacente de ela não querer fazer algo, que pode ser espacial – como quando levamos uma criança cansada a um local estranho –, ou psicológica, como quando ela sente medo de algo. Algumas crianças complacentes criam um self falso porque sentem que seus pais só as amarão caso sejam obedientes. A necessidade de autonomia não evapora só porque a criança foi intimidada a seguir ordens”.

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Aparentemente, está na moda domar crianças, e a razão parece ser medo: não é que as pessoas estejam preocupadas com incidentes isolados de desobediência, como quando encontram uma parede rabiscada de giz, é que sentem medo daquilo em que esse comportamento pode descambar, caso não seja reprimido. Como se todas as crianças estivessem esperando para crescer e se tornar sociopatas. […] “Isso não é baseado em evidência empírica”, Kohn argumenta, “é uma visão bastante obscura da natureza humana”.

No topo da minha lista do que faz com que um pai seja ótimo está a coragem de dizer, “eu ainda tenho o que aprender e preciso repensar o que estou fazendo”. […] Kohn aconselha substituir o “fazer para” pelo “trabalhar com”, em se tratando de crianças. Em suma, é necessário conhecer seu filho, escutá-lo. “Fale menos, pergunte mais”.

Clique aqui para ler o texto original.

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