Lorenzato na Ubu


“Lorenzato é um pintor da estatura de Guignard e Volpi. Não é artista regional e não pode ficar restrito a nome conhecido em Minas Gerais. Ele tem categoria internacional. O Brasil não pode se dar ao luxo de ignorar um pintor desse porte”,

– Laymert Garcia dos Santos, sociólogo

Amadeu Luciano Lorenzato (1900–1995) foi um pintor ítalo-brasileiro que nasceu e viveu em Belo Horizonte, onde trabalhou continuamente dos anos 1940 aos anos 1990, deixando uma vasta e múltipla obra que dialoga com diversas vertentes da arte moderna e popular brasileira, sem contudo se fixar a escolas, movimentos ou estilos. Quando jovem, o artista fez uma longa viagem de estudos artísticos pela Europa, onde tomou contato com o modernismo, então em efervescência, e com os mestres do renascimento italiano. De volta o Brasil, Lorenzato trabalhou como pintor de paredes, até que depois de um acidente se aposentou e passou a se dedicar a sua arte.

Lorenzato viveu na Cabana do Pai Tomás, um bairro da periferia, onde manteve durante décadas um modesto ateliê e de onde saía para longas caminhadas nas quais desenhava e coletava os motivos de sua pintura. De maneira sistemática e consciente, Lorenzato registrou o processo de urbanização da capital. Seu ateliê era montado num pequeno quarto onde pintava depois de estudar seu entorno – as favelas e conjuntos habitacionais que modificavam a paisagem natural remanescente. O jardim de sua casa também foi um campo fértil para a coleta de motivos, como nas séries pinturas florísticas ou nas investigações em torno de lesmas e borboletas, que ele observava com interesse poético.

Lorenzato pintou paisagens, naturezas mortas, quadros autobiográficos e se aproximou da abstração – embora suas obras nunca sejam exatamente abstratas. Em algumas paisagens, ele leva a pintura a um jogo de cores e formas muito livre, porém sempre se referindo a motivos específicos e recorrentes – como em seus celebrados céus crepusculares ou paisagens noturnas. Sua técnica de pintura, com suportes e materiais austeros empregados com inventividade, é única. As superfícies texturizadas de suas pinturas são o resultado de técnicas de decoração que aprendeu no ofício de pintor-decorador. Sua maneira abreviada de retratar figuras, como nos retratos de sua esposa, que produziu ao longo de décadas, é também bastante singular e característico de sua produção.

Inicialmente um artista fora do circuito tradicional das artes, fazendo poucas exposições e vendendo quadros apenas esporadicamente, Lorenzato passou a ser cultuado por seus pares – um legítimo fenômeno de artista de artistas, passado de geração em geração em Belo Horizonte. Nos últimos anos, sua obra tem sido estudada, exibida, publicada e colecionada por museus de outras cidades brasileiras. A monografia Lorenzato, da editora Ubu, se soma a essas iniciativas de pesquisa e disseminação de sua obra. Com texto e organização do crítico e curador Rodrigo Moura, a obra vai contar com cerca de 150 reproduções de pinturas a óleo, desenhos, afrescos e guaches do artista, em 272 páginas, compondo a maior monografia disponível sobre sua obra.

Longe da pretensão de fazer uma pintura que respondesse à formação de uma identidade nacional, a obra de Lorenzato acabou refletindo uma série de contradições e impasses de um artista a princípio marginalizado mas cuja obra é um vivo testemunho de uma trajetória independente construída num país periférico. Como o artista mesmo disse, num texto encontrado no verso de uma de suas telas, de 1948:

Amadeo Luciano Lorenzato

Pintor autodidata e

Franco atirador

Não tem escola

Não segue tendências

Não pertence a igrejinhas

Pinta conforme lhe dá na telha

Amém.