Franco Berardi vê uma epidemia de descortesia: Entrevista


A Ubu publica na coleção Exit o livro Depois do futuro, do filósofo italiano Franco Berardi, mais conhecido como Bifo. Reproduzimos aqui uma entrevista realizada com ele pelo jornal argentino Página 12 em novembro de 2018, e traduzida pelo site Outras Mídias.

  

O filósofo italiano Franco “Bifo” Berardi tem um sorriso fácil. É professor da Universidade de Bolonha há um bom tempo, e, quando mais jovem, participou das revoltas juvenis de 1968, tornou-se amigo de Félix Guattari, se familiarizou com Michel Foucault, e ocupou universidades.

Atualmente, sustenta a tese de que os humanos já não imaginam, não sentem, não fazem silêncio, não refletem ou ficam entediados. Os corpos não se comunicam e, portanto, conhecer o mundo passou a ser um horizonte impossível. Diante de uma realidade atravessada pelo surgimento de regimes fascistas – mascarados com balões, pipoca e dentes brilhantes –, os cidadãos protagonizam uma sociedade violenta, caracterizada por uma “epidemia da descortesia”.

 

Você, com frequência, diz a seguinte frase: “O capitalismo está morto, mas continuamos vivendo dentro do cadáver”. O que quer dizer com isso?

A vitalidade e a energia inovadora que o capitalismo tinha até meados do século XX acabou. Hoje ele se transformou em um sistema essencialmente abstrato; os processos de financeirização da economia dominam a cena e a produção útil foi substituída. Na medida em que não se podia pensar o valor de troca sem antes recair no valor de uso, sempre acreditávamos que o capitalismo era muito ruim, mas promovia o progresso. Hoje, pelo contrário, ele não produz nada de útil, apenas se acumula e acumula valor.

Por que não nos relacionamos mais?

A abstração da comunicação produziu um projeto de troca de sinais financeiros digitais que, naturalmente, não requer a presença de pessoas para acontecer. Os corpos estão isolados: quanto mais conectados, menos em comunicação estamos. Refiro-me a uma crítica ao progresso que já foi discutida tenazmente por Theodor Adorno e Max Horkheimer em Dialética do Iluminismo. Na introdução do livro, eles assinalam que o pensamento crítico e a democracia assinariam sua sentença de morte se não conseguissem entender as consequências sombrias do Iluminismo. Se não entendermos que a maioria da população reage de maneira temerosa a mudança, tudo acabará muito mal.

Em que sentido?

Nós acreditávamos que Adolf Hitler tinha perdido, mas isso não é verdade. Ele perdeu uma batalha, mas ainda ganha suas guerras. Os líderes Rodrigo Duterte (Filipinas), Jair Bolsonaro, Donald Trump, Matteo Salvini (Itália) e Víktor Orbán (Hungria) representam os sinais de um nazismo emergente e triunfante em todo o mundo.

Por que vivemos com tanta violência e agressividade?

Eu posso responder reproduzindo uma frase que li no blog de um jovem de 19 anos: “Desde o meu nascimento tenho interagido com entidades automáticas e nunca com corpos humanos. Agora que estou na minha juventude, a sociedade me diz que tenho que fazer sexo com pessoas que são menos interessantes e muito mais brutais que as entidades virtuais”. Isso quer dizer que ao nos relacionarmos – cada vez mais – com autômatos, perdemos a nossa expertise, a capacidade de lidar com a ambiguidade dos seres humanos, e nos tornamos brutais. Com efeito, olhamos com olhos mais simpáticos as máquinas. A violência sexual é a impossibilidade do sexo de falar. Na verdade, vivemos falando de sexo, mas o sexo não fala. Não conseguimos compreender o prazer do desejo de cortejar, da ironia, da sedução e, nesse sentido, a única coisa que resta quando raspamos o fundo do tacho é a violência, a apropriação brutal do outro”.

Se a capacidade emocional foi perdida e a de raciocinar está desaparecendo, o que nos resta como humanidade?

Não há saída para o nacional-socialismo global. A única coisa que resta é o trauma, a partir da readaptação do cérebro coletivo. O problema fundamental não é político, mas cognitivo: a vitória de Bolsonaro não representa apenas uma desgraça para o povo brasileiro, é também uma declaração de morte para os pulmões da humanidade. Eu digo isso enquanto asmático: a destruição da Amazônia que está sendo preparada implica uma verdadeira catástrofe. O fim de nossos recursos se aproxima, mas a evolução do conhecimento social, às vezes, requer dois ou mais séculos.

Se não conseguimos mais imaginar, será impossível construir um futuro?

É claro, se não imaginamos, não conseguimos agir. A imaginação depende do que sabemos, das nossas trajetórias e experiências e, sobretudo, da nossa percepção empática do entorno e dos corpos dos outros.

Emocionalmente, nós não vivemos mais de maneira solidária. Os jovens de hoje estão sozinhos, muito solitários. Precisamos construir um movimento erótico para curar o cérebro coletivo. Trata-se de reunificar o corpo e o cérebro, a emoção e o entendimento […].

 

Para acessar a matéria original, clique aqui.

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Depois do futuro

Franco “Bifo” Berardi

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