5 motivos para pensar em Conrad como um escritor polonês


Grande nome da literatura inglesa, Joseph Conrad nasceu na Polônia. Não é reconhecido como um escritor polonês, e em sua obra poucos elementos relacionados à Polônia são aparentes. Aqui, 5 motivos para pensar em Conrad também como um escritor polonês.

Trechos retirados e traduzidos de artigo escrito por Mikołaj Gliński para o site Culture.pl. Na foto de abertura, Joseph Conrad e sua prima Aniela Zagórska, a tradutora responsável por passar a maior parte de sua obra para o polonês.

O nome Konrad

Joseph Conrad nasceu Józef Teodor Konrad Korzeniowski, em 1857, na atual Ucrânia. O nome Konrad é uma referência política a duas obras proeminentes da literatura romântica polonesa. A saber, Konrad Wallenrod e Dziady, ambas de Adam Mickiewicz. Na última, o protagonista passa por uma transformação existencial, de Gustaw a Konrad, um humanitário dedicado à causa de sua nação. Certamente, não foi à toa que, em 1895, ao publicar seu primeiro romance inglês, Józef Korzeniowski assinou como Conrad.

As línguas de Conrad

Apesar de deixar a Polônia aos 16 anos (1874), Conrad manteve contato com a língua polonesa. Durante os muitos anos que passou no mar, sua maior ligação com a Polônia era seu tio Tadeusz Bobrowski, seu guardião legal e mentor desde a morte de seus pais, com quem se correspondia. De acordo com seus amigos e conhecidos poloneses, o polonês de Conrad permaneceu claro e sem sotaque, diferente de seu inglês, que era recheado com um sotaque estrangeiro forte, mesmo após muitas décadas morando na Inglaterra. Conrad se tornou um dos maiores escritores de língua inglesa, sua terceira língua, mas seu inglês deixa ver sua bagagem linguística, composta principalmente de francês (ele, inclusive, considerou escrever em francês) e polonês.

A Polônia na obra

Curiosamente, a literatura de Conrad, em sua maior parte, não conta com temas ou questões poloneses. Possivelmente, isso tem a ver com uma necessidade de se afirmar enquanto escritor britânico. Durante sua longa e prolífera carreira, a menção mais relevante de Conrad à Polônia se deu em Prince Roman (1941). Trata-se da história de um membro da aristocracia polonesa (baseado em Roman Sanguszko) que participa de uma rebelião nacional e, em consequência, é deportado para uma região remota da Rússia. Após muitos anos, ele retorna à sua terra natal. O tema principal dessa história tem a ver com os limites do comprometimento de alguém com seu país. Thomas MacLean comenta que, nesse livro “pela primeira vez o herói de Conrad faz escolhas honradas, e pela primeira vez o herói de Conrad é polonês”. É em Prince Roman que Conrad dá uma das mais curiosas definições da Polônia:

“Aquele país que exige ser amado como nenhum outro jamais o foi, com a afeição triste que sentimos com relação aos mortos de que não nos esquecemos, e com o fogo inextinguível de uma paixão para a qual não há esperança, que só um ideal vivo e quente pode acender em nossos corações, para o nosso orgulho, nosso cansaço, nosso júbilo e nossa ruína”.

A ideia de honra de Conrad

A aparente falta de elementos poloneses no trabalho desse escritor nascido na Polônia fez com que alguns críticos cavassem fundo atrás de aspectos enterrados em sua obra. Alguns comentam do caráter peculiar das questões éticas mais fundamentais a Conrad, como honra, fidelidade, e resiliência. Sua ideia de honra, em particular, é sempre associada à cavalaria, feudal por excelência, e ao conceito de honra presente no ethos da nobreza polonesa, com a qual Conrad se identificava […]. Isso é algo a respeito de que o próprio Conrad já comentou para um jornalista polonês: “Críticos ingleses […], sempre que discutem minha obra, mencionam que ela tem algo de incompreensível, insondável e elusivo. Só você consegue resolver essa indefinição, entender o insondável. É herança polonesa”.

A questão do lar

O crítico Zdzisław Najder acredita que alguns aspectos de Lorde Jim podem ser melhor interpretados se levada em conta a herança polonesa de Conrad. Um exemplo é a relação de lorde Jim com o lar para o qual ele sente que não pode retornar. Najder diz:

“Para um expatriado polonês, sua terra natal, sua ojczyzna, sua pátria é o locus de suas obrigações e seus ideais éticos. No caso de um inglês para quem viver e trabalhar embarcado não apresenta nenhum problema moral, a insistência obsessiva de Jim em romper todos os laços (até o com seu pai), toda a tensão psicológica conectada ao problema de um possível retorno, e a própria elevação do “lar” a um status de autoridade moral suprema e quase mística, me parecem excessivas e artificiais”.

Essa fala é corroborada parcialmente pelo próprio Conrad. Como nota a Lorde Jim, ele afirma que o tema essencial do romance, “a aguda consciência da honra perdida”, seria perfeitamente compreensível pelo menos para o “temperamento latino”.

Para ler o artigo completo, acesse Culture.pl.

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