Zé Celso e Os sertões


O diretor de teatro, ator e dramaturgo José Celso Martinez adaptou para o palco Os sertões, de Euclides da Cunha, junto com Tommy Pietra e Flavio Rocha. A peça se dividiu em quatro partes; a primeira estreou em 2005. Reproduzimos, aqui, trechos de um texto que Zé Celso escreveu para a Cadernos de Literatura Brasileira no centenário da obra de Euclides, enquanto ainda preparava a peça. Selecionamos também algumas fotos da montagem.

Na Flip 2019, cujo autor homenageado é Euclides da Cunha, haverá uma montagem de Os sertões com alguns atores do Teatro Oficina.

Glauber me ligou a Lina Bardi, que veio fazer Na selva das cidades e queria muito fazer Os sertões. Tinha trabalhado na Bahia antes do golpe de 64. Me contava que o povo baiano começou a acender velas na estátua do Conselheiro Bom Jesus, que Mario Cravo esculpira como um homem-mandacaru plantado no chão e erguendo os braços-espadas para os céus. Os militares golpistas mandaram recolher a imagem para dentro da Escola de Medicina, temendo uma ressurreição do culto ao Conselheiro. Lina tinha trabalhado nas filmagens de Deus e o Diabo na Terra do Sol em Monte Santo, estava apaixonada como Euclides pelo que lá descobrira e expusera na deslumbrante exposição: A mão do povo brasileiro. Para fazer a arquitetura cênica da peça do jovem Brecht, comentava que a selva das cidades não era a selva, mas os sertões, que estavam nas ruas loucas improvisadas das favelas de barro e embaixo do cimento civilizado: “O sertão é aqui, é só arrancar o cimento da Jaceguay 520”. No jornal-programa trash distribuído ao público, em forma dos então na moda “fascículos culturais”, dentro de um plástico-censura cheio dos escombros dos entulhos do Minhocão em construção, e um perfume verde diamante da Rastro lá perdido, anunciava-se “Oficina anos 70 – Os sertões”. Começamos a arrancar as tábuas do chão do palco ringue de boxe para encontrar a praia dos sertões do Oficina de hoje […].

Fonte: Hemispheric Institute

Cheguei a sonhar o absurdo de levantar produção para filmagem de Os sertões, que fosse ao mesmo tempo um núcleo de guerrilha no interior da Bahia […].

Quem esquadrinha o quadrado de Os sertões ponto a ponto, entra um e sai outro, com a formação de uma universidade.

Queremos o milagre de uma teatralização que traga o mínimo desta experiência. Os construtores da encenação do Oficina aprontam-se há mais de dois anos […].

Não sei se vai dar tempo de voltar muito ao computador, as condições indicam uma dramaturgia criada nos ensaios; ao vivo e na seca mesmo. Por enquanto não veio o que precisávamos, então vamos mais uma vez misturar essa epopeia com a nossa e ir até onde pudermos dentro deste retângulo do Oficina, mais uma vez buscando o desentrincheiramento, abrindo buracos, estivando, estadiando, no estádio de Teat(r)o.

Fonte: site do Teatro Oficina

Fonte do texto: Celso Martinez Corrêa, José. “Começo esta noite…”, in De Franceschi, Antonio Fernando (org.). Euclides da Cunha (Cadernos de Literatura Brasileira, n. 13-14). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002, pp. 129-147.