Winnicott e o cuidado da criança


Donald Winnicott (1896–1971), pediatra e psicanalista infantil inglês, foi um especialista em cuidado parental. Suas ideias inovadoras desafiaram a lógica da criação de crianças que imperava nos anos 1960 e influenciaram pais e mães, pensadores, psicanalistas e filósofos, mudando de forma definitiva o paradigma sobre como entendemos a subjetividade infantil. Muito do novo livro do escritor e filósofo Juliano Garcia Pessanha, publicado pela Ubu, se deve ao encontro com os textos de Winnicott. Em Recusa do não-lugar, Pessanha parte de sua experiência para mostrar alguns efeitos que a falta de aliados (uma mãe “suficientemente boa” em termos winnicottianos) produz. 

Para estender o debate, selecionamos e traduzimos uma apresentação sobre aspectos centrais do pensamento de Winnicott que o filósofo Alain de Botton preparou para o The Book of Life. Para a matéria completa em inglês, acesse aqui.

Lembre-se que seu filho é vulnerável

Winnicott esclarece o quão psicologicamente frágil é um bebê: ele não compreende a si mesmo, não sabe onde está, tem dificuldade em permanecer vivo, não faz ideia de quando será alimentado de novo, não consegue se comunicar consigo ou com os outros – é uma massa de estímulos que competem entre si; uma massa não particularizada nem individualizada. Não é uma pessoa. Consequentemente, seus primeiros meses são de um esforço sem tamanho. O trabalho de Winnicott nunca perde isso de vista e é por isso que ele insiste que são aqueles ao redor da criança que precisam se “adaptar”, interpretando as necessidades da criança sem exigir coisas para as quais não está preparada.

Uma criança que se adapta ao mundo cedo demais, ou sobre a qual recaem exigências inapropriadas, será uma forte candidata a desenvolver problemas psicológicos na medida em que a boa saúde é também resultado de um ambiente que responde apropriadamente às suas demandas e que consegue manter os elementos difíceis da realidade distantes dela até que esteja pronta.

Nos piores casos, uma mãe depressiva pode forçar uma criança a ser “alegre” e a tentar fazer com que as coisas funcionem porque ela, a mãe, não é capaz disso; uma criança com pais muito bravos e instáveis pode ficar assustada demais para expressar qualquer uma de suas emoções mais obscuras; ou uma criança com pais superprotetores pode deixar de desenvolver a capacidade de ficar sozinha.

Deixe que seu filho fique bravo

Winnicott conhecia qual tipo de violência e qual tipo de ódio pode existir em uma criança saudável. Ao se referir ao que acontece quando um dos pais esquece de alimentar a criança, ele alertou: “se você falhar com ela, ela vai se sentir como se sentiria se animais selvagens estivessem prestes a devorá-la”.

Mas, apesar de a criança algumas vezes querer matar e destruir, é vital que os pais deixem que essa raiva se expanda, que não se sintam ameaçados de forma alguma, nem que sejam moralistas quanto ao comportamento “ruim”: “se um bebê chora em estado de raiva e sente que destruiu tudo e todos, mas mesmo assim as pessoas ao seu redor continuam calmas e incólumes, essa experiência fortalece sua capacidade de perceber que o que ele pensa ser verdade não é necessariamente real, que fantasia e fato, apesar de serem ambos importantes, são, todavia, diferentes um do outro”.

Winnicott interpretou os sentimentos violentos contra os pais como um aspecto natural do processo de maturação: “para que uma criança possa crescer e descobrir a parte mais profunda de sua natureza, alguém deve ser desafiado por ela, e até mesmo odiado, sem que haja risco de um rompimento completo da relação”.

É por isso que ele compreendia e advogava pelos adolescentes difíceis, aqueles que gritam com os pais e até arriscam roubar alguma coisa de suas bolsas. Eles podem servir de exemplo de crianças que foram adequadamente amadas e por isso podem ousar desafiar os limites do mundo adulto: “uma criança normal, que confia no pai e na mãe, quebra todas as barreiras. Ao longo dos anos, ela testa seu poder de desestabilizar, destruir, assustar, diminuir, esgotar, manipular e se apropriar. Tudo que ela faz para levar as pessoas aos seus limites (ao hospício, quase) tem seu equivalente normal na infância… Se os pais conseguirem aguentar tudo que a criança faz para desestabilizar seus mundos, as coisas se acalmarão.” (Winnicott, nessa citação, assume um tom que é quase de encorajamento).

Não deixe que seu filho seja muito complacente

Os pais ficam muito felizes quando seus bebês e crianças seguem suas regras. Essas crianças são chamadas de “boazinhas”. Winnicott temia muito pelas crianças “boazinhas”. Ele tinha uma visão mais complexa da infância. A vantagem dos anos iniciais da vida é que neles muitos sentimentos “ruins” podem ser expressos livremente, sem que haja consequências e sem medo de retaliação.

No entanto, há pais que não toleram bem o mau comportamento e exigem obediência muito cedo e muito fortemente. Esse tipo de conduta leva, na formulação de Winnicott, à emergência do “falso self” – uma persona que, por fora, é obediente e boa, mas que suprime seus instintos vitais; que não foi capaz de balancear seu lado social e seu lado destrutivo e que não pode ser capaz de atos de generosidade real ou amor, porque não a permitiram explorar seus sentimentos de egoísmo e ódio.  A criança será capaz de desenvolver um “verdadeiro self” somente por meio de uma criação apropriada e atenta.

No esquema winnicottiano, adultos que não conseguem ser criativos, que estão, de alguma forma, mortos por dentro, são quase sempre filhos de pais que não foram capazes de tolerar provocações, pais que fizeram com que seus filhos fossem “bonzinhos” bem antes do tempo e, por isso, mataram sua capacidade de ser bons, generosos e bondosos de forma apropriada (porque sua personalidade obediente é, na verdade, só uma versão falsa de um self responsável e generoso).

Deixe seu filho viver

Cada falha do ambiente força a criança a se adaptar de modo prematuro. Por exemplo, se os pais são muito caóticos, a criança começa rapidamente a criar neuras em cima da situação. Suas faculdades racionais ficam hiperestimuladas (a criança pode até vir a se tornar um intelectual em uns anos).

Uma mãe depressiva pode, involuntariamente, forçar a criança a ser alegre demais – não dando tempo para que ela processe seus próprios sentimentos melancólicos. Winnicott previa os perigos que uma criança que tem que “cuidar do temperamento de sua mãe” corre.

Winnicott sentia uma raiva especial contra “pessoas que estão sempre jogando seus bebês para cima e para baixo, tentando fazer com que riam”. Para ele, essa é uma maneira de essas pessoas se livrarem de sua própria tristeza, forçando a risada em um bebê que pode estar pensando coisas muito distantes disso.

O ato primordial do cuidado parental saudável, para Winnicott, é simplesmente ser capaz de se desligar de si mesmo por um tempo a fim de sentir empatia com o jeito de ser e as necessidades de uma pessoas pequena, misteriosa e frágil, cuja alteridade deve ser completamente reconhecida e respeitada.

Perceba a importância do trabalho que você tem em mãos

Muitos pais que Winnicott encontrou durante a vida estavam exaustos por causa de suas funções. Winnicott tentava levantar o moral, relembrando-os da extrema importância do que faziam. Eles eram, de certa maneira, tão significantes à nação quanto o primeiro ministro e o gabinete inteiro: “nos primeiros meses de vida do bebê, o desenvolvimento da saúde de um ser humano está em suas mãos. Pensar nisso deve ajudá-los quando se sentirem estranhos diante da falta de interesse temporária com assuntos do mundo. Não é difícil de entender. Você é responsável por uma parte do desenvolvimento da saúde mental da próxima geração”. Winnicott afirmava que o cuidado parental é “a única base sólida para uma sociedade saudável e o fator determinante de uma tendência democrática no sistema social de um país”.

É claro, erros ocorrerão. Coisas dão errado na infância. E é por isso que a psicanálise existe. Aos olhos de Winnicott, o analista, na vida adulta, age como um pai substituto, um representante “bom o suficiente” que “ocupa a posição de mãe de uma criança”. Uma boa análise tem coisas em comum com os anos iniciais da vida. Nela também, o analista deve ouvir sem forçar o paciente a ficar “melhor” antes do tempo. Ele não deve impor uma cura ao paciente, mas oferecer um espaço seguro onde questões da infância que não foram resolvidas ou deram errado podem ser recriadas e reencenadas. A análise é uma chance de preencher os vazios.

Em suas descrições do que pais deveriam fazer pelos seus filhos, Winnicott estava, de fato, se referindo a um termo que ele raramente mencionava: amor. Comumente, imaginamos o amor como uma conexão mágica e intuitiva com alguém. Mas, nos escritos de Winnicott, encontramos uma imagem diferente, ligada ao abandono do ego, a deixar de lado suas próprias necessidades e suposições a fim de escutar atentamente o outro, cujo mistério é respeitado, e com o qual cria-se o compromisso de não ficar ofendido, não retaliar, quando algo “ruim” acontece, como é comum em relacionamentos íntimos, seja com uma criança ou com um adulto.  

Desde a morte de Winnicott, nós, coletivamente, melhoramos no quesito cuidado parental. Mas só um pouco. Pode ser que passemos mais tempo com nossos filhos, e que saibamos, em tese, que eles importam muito, mas estamos indiscutivelmente falhando na questão que mais importava a Winnicott: a adaptação. Ainda falhamos rotineiramente na hora de suprimir nossas próprias necessidades e abafar nossas próprias exigências quando estamos com uma criança. Ainda estamos aprendendo a amar nossos filhos – e isso, Winnicott diria, é o porquê de o mundo estar repleto de pessoas “mortas-vivas” que carregam sequelas de uma má criação, pessoas cujos “sucesso” e respeitabilidade são superficiais e que não são exatamente “reais” por dentro, infligindo suas questões mal resolvidas nos outros. Temos ainda um caminho a percorrer até que sejamos “suficientemente bons”. Uma tarefa que, Winnicott insistiria, é, a seu próprio modo, tão importante quando curar a malária ou desacelerar o aquecimento global.

_

livros relacionados

Recusa do não-lugar
Juliano Garcia Pessanha

R$42

Untitled-1