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Um estudante na Casa Butantã


Embora tenha sido projetada para o arquiteto e sua família, a Casa Butantã não foi somente habitada pelos Mendes da Rocha. Em 1996, três nomes que se tornariam muito conhecidos no meio arquitetônico viveram ali. Durante três meses, Alvaro Razuk dividiu a casa com Álvaro Puntoni e Milton Braga.
Hoje à frente de seu próprio escritório, Razuk reviveu conosco alguns episódios daquela época, quando ainda era estudante da FAU-USP.

 

© Lito Mendes da Rocha

© Lito Mendes da Rocha

A experiência compartilhada do espaço

A relação entre o que é privado e o que é comum recebe novos contornos na Casa Butantã e os moradores descobrem um outro tipo de convivência. Os quartos ficam no centro da planta e suas paredes não alcançam o teto, subvertendo as regras do morar burguês e propondo uma visão da arquitetura como experiência compartilhada do espaço. “A gente fazia reuniões de condomínio com cada um deitado no seu quarto. Quem vai pagar o jardineiro? E alguém respondia”, se diverte Razuk. A disposição também torna o compartilhamento de certas intimidades inevitável. “Se a gente pensava que tinha conseguido ser discreto quando estava com a namorada, era só ouvir o vizinho virando a página do jornal para se convencer do contrário”.

 

A luz

A luz foi citada por Alvaro como um dos aspectos mais bonitos do projeto. As claraboias nos quartos permitem observar a mudança da luz ao longo do dia e das estações. Na época em que morou na casa, Razuk estava montando uma exposição pela primeira vez, a Antarctica Artes com a Folha. Em uma noite de chuva acordou desesperado, achando que a água iria atingir seu computador, onde estavam todos os arquivos do trabalho. Mas, passado o susto, Alvaro ficou encantado em “poder ver a chuva caindo sem se molhar”.

 

© Lito Mendes da Rocha

Detalhe da claraboia e da janela © Lito Mendes da Rocha

 

A casa do Paulo

Razuk só ouviu falar de Paulo Mendes da Rocha no segundo ano da faculdade. Uma amiga o convidou para uma palestra do então professor da FAU-USP e ele ficou impressionado que havia alguém que “falava como o Artigas”. Desde então, Mendes da Rocha virou referência incontornável para Alvaro.
Quando morava na Casa Butantã, o arquiteto em formação aprendia com os detalhes do projeto, como os caixilhos, cujo desenho elegante esconde um complexo sistema de contrapesos.
Era frequente receber a visita do arquiteto. Uma vez, Paulo chegou de surpresa com Catherine David, diretora artística da Documenta de Kassel na época. Depois de um ciclo de 100 palestras pelo mundo, do qual Paulo Mendes da Rocha havia participado, ela vinha filmar a casa do arquiteto. Desavisado, Alvaro estava de bermuda. “Esse tipo de coisa fazia parte do cotidiano da casa”. Acontecia também de Razuk atender o telefone e o Emanoel Araújo ou a Bia Lessa estarem do outro lado da linha, procurando o Paulo.
“Foi uma grande experiência morar na casa do Paulo. Não é só que ela é moderna, ela é encantadora mesmo. É um desenho muito acertado.”

 

Imagem de capa: desenho técnico original da Casa Butantã, acervo Paulo Mendes da Rocha