“Um encontro entre Xavante e Maori” por Edgar Kanayko Xakriabá


A Ubu tem em seu catálogo o livro Arte e agência, de Alfred Gell, que, entre outras coisas, analisa alguns padrões de tatuagens de povos aborígenes, como os Maori. Em 2015, para participar da primeira edição dos Jogos Mundiais Indígenas, os Maori vieram ao Brasil. Durante o campeonato, Maori e Xavante se desafiaram em um rito de guerra, momento registrado pelo etnofotógrafo Edgar Kanayko Xakriabá, que também escreveu um relato sobre este dia e que aqui publicamos.

 

 

Um encontro entre Xavante e Maori

 

Entre os dias 23 de Outubro e 1° de novembro de 2015 ocorreu a primeira edição dos Jogos Mundiais Indígenas em Palmas, Tocantins. Participaram 1,8 mil atletas de 24 etnias brasileiras e de 23 países. Dentre tanta diversidade de povos indígenas, destaca-se aqui o encontro entre os Xavante, povo Jê do Brasil central, e os Maori, Polinésio da Nova Zelândia.

O povo indígena Xavante, A’uwẽ Uptabi, como se autodenominam, atualmente localizados no estado de Mato Grosso, em Terras Indígenas distintas, fazem parte do tronco linguístico Macro-Jê da Família Jê. No passado eram um só povo juntamente com o povo Xerente (TO) e Xakriabá (MG), e predominavam no Brasil Central.

Os Maori, povo nativo da Nova Zelândia, são Polinésios e compreendem cerca de 14% da população do País. Maoritanga, o idioma nativo, está relacionado aos idiomas Taitiano e Havaiano. Assim como muitos outros povos indígenas/nativos do mundo, os Maori também sofreram com a chegada dos europeus em seus territórios, por volta de 1642.

Os Maori ficaram conhecidos pelas suas pinturas/tatuagens corporais carregadas de motivos e significados e pelo “Haka”, uma dança tradicional do povo Maori, na qual se demonstra a paixão, o vigor e a identificação com o povo. O “Haka” é usado tanto para dar boas vindas a visitantes quanto para “povos inimigos”.

“Atualmente o Haka é conhecido mundialmente pela performance de intimidação no início dos jogos de Rugby da seleção da Nova Zelândia (All Blacks), que costuma antes de seus jogos executar uma haka específica chamada Ka Mate e quanto mais agressivo, feroz e brutal, mais vai incentivar o grupo – e intimidando o adversário”. (Fonte Wikipédia)

Certamente foi um encontro surpreendente entre esses dois povos separados por continentes, línguas, culturas e modos de vida completamente distintos, mas que carregam consigo singularidades no que diz respeito a suas práticas e performances ritualísticas, destacando-se a força entre ambos ao executar seus cantos, danças e gestos com extremo vigor.

Os Xavante começaram entoando freneticamente seus cantos, com uma frequência ora muito alta, ora sussurrada, ao passo que os Maori com suas performance característica do Haka, moviam-se lentamente em direção aos Xavante, como se estivessem prontos para atacar, empunhando lanças e fazendo “caretas” como uma forma de intimidar o “inimigo“. Quanto mais os Maori se aproximavam, com mais intensidade  os Xavante cantavam.

Talvez para o espectador assistindo de fora pareça mais uma “dança de índio”, uma apresentação. Porém, pode-se dizer que ambos estavam expressando literalmente uma “guerra” contra o “outro”, na qual os guerreiros ali, Xavante e Maori, estavam prontos para o confronto. Mas neste dia acabou-se em uma grande festa.