Iumna Maria Simon fala de Teoria da vanguarda


Reproduzimos aqui o texto de orelha do livro Teoria da vanguarda, de Peter Bürger, escrito pela professora do departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP Iumna Maria Simon.

Este é um livro datado no bom sentido. Teoria da vanguarda foi escrito sob o signo de mais uma derrota histórica, após o fim dos acontecimentos de maio de 1968 e o fracasso do movimento estudantil no início dos anos 70. Enfeitiçado por Adorno e ao mesmo tempo empenhado em superá-lo, impressiona o obsessivo desacordo de Peter Bürger com a teoria adorniana, da qual as suas formulações dependem, mas à qual contrapõe as teses de Walter Benjamin, Marcuse, Brecht, entre outros, no intuito de discutir a pertinência do conceito de autonomia estética (preservado por Adorno) para a explicação dos movimentos de vanguarda. Interessa-lhe identificar uma relação indissociável de tensão entre duas tradições da modernidade, que antes se definiam convencionalmente uma contra a outra: a estética da autonomia, cujo auge foi alcançado com o esteticismo do final do século XIX, e o impulso vanguardista de superação da autonomia e recondução da arte para a prática da vida. A vanguarda é o ponto de chegada da autocrítica da arte como instituição na sociedade burguesa, núcleo das teses propostas por Bürger, que privilegiam Dadá e o primeiro surrealismo. Daí extrai interpretações notáveis sobre o fracasso das vanguardas e outros resultados que, embora problemáticos, incitam sem parar o debate, seja para a definição da obra não-orgânica, ou para a difícil e interminável querela vanguarda x engajamento, cujas noções vão ficando cada vez mais irreconhecíveis e hoje pedem, mais do que em 1974, reformulação.

Teoria da vanguarda tem gerado viva polêmica desde que apareceu. Mas resistiu à passagem do tempo, instigando a discussão sobre a vanguarda histórica e sobre as práticas artísticas do segundo pós-guerra. De onde vêm as objeções? Dos esteticistas sempre devotados a cultivar a autonomia, com ou sem torre de marfim, dos apóstolos da pós-modernidade, dos vanguardistas eternos. Mais insistentes têm sido as reações contra a crítica enérgica às neovanguardas (a vanguarda no poder e no mercado), tratadas por Bürger como regressivas, por promoverem a reauratização da obra de arte e sua institucionalização.

Para quem estuda vanguarda nas circunstâncias brasileiras, a contribuição de Bürger pode se tornar imprescindível porque desvela um funcionamento estético e político completamente diverso daquele do contexto europeu. Ensina-nos a periodizar, a precisar os conceitos, a articular a sequência histórica de blocos grandes – integrando dialeticamente a ruptura à tradição, a contradição explosiva à rotina do contexto. Desde o tempo do modernismo, o nosso equivalente vanguardista busca a superação do subdesenvolvimento, a modernização e a atualização cultural: esta é a sua fusão arte-vida. A experimentação formal possui aí um sentido nacional e, quase diria, civilizatório, antecipando com otimismo processos técnicos e sociais que não se cumpriram na vida prática. Tudo isso compõe uma feição engajada e construtiva de outro tipo. Até onde já pude verificar, as categorias centrais do livro de Bürger ajudam também a decifrar um fenômeno brasileiro como o das vanguardas poéticas dos anos 1950 (poesia concreta e derivados), que condensam num só impulso esteticismo, vanguarda, engagement e neovanguarda. Ou seja, concentram num bloco híbrido muitas temporalidades, cuja dinâmica de acumulação e superação levou na Europa quase um século para se completar.

Precisamos, portanto, ler e reler Teoria da vanguarda com um espanto um pouquinho bárbaro e muito nosso.

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