Marilyn Strathern no Brasil – Blog da Ubu editora

Marilyn Strathern no Brasil


No Reino Unido, onde essas coisas sA?o levadas muito a sA�rio, Marilyn Strathern A� considerada a “rainha da antropologia”. De fato, ela ocupou o cargo mais prestigioso da universidade mais prestigiosa do reino, no departamento de Antropologia da Universidade de Cambridge. Strathern tem uma relaA�A?o afetiva com o Brasil. Na entrevista abaixo, realizada por 8 antropA?logas(os) em sua terceira visita ao Brasil, ela fala de sua trajetA?ria, dos principais temas de sua obra (gA?nero, relaA�A?o, etnografia), de sua interlocuA�A?o acadA?mica com o antropA?logo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro, e sobre suas pesquisas recentes. A visita ao Brasil teve como principais motivos a conferA?ncia de abertura do XII GraduaA�A?o em Campo, evento organizado pelo LaboratA?rio do NA?cleo de Antropologia Urbana (LabNAU/USP) e o lanA�amento da primeira ediA�A?o deA�O efeito etnogrA?fico e outros ensaios.

Marilyn Strathern em entrevista concedida a pesquisadoras(es) em SA?o Paulo, 25 de agosto de 2014.A�Foto de Kiko Ferrite.

No final da tarde do domingo em que chegou A� cidade, oito antropA?logas(os) e um fotA?grafo reuniram-se para uma entrevista na casa do professor Renato Sztutman (USP), para um proveitoso diA?logo com direito a um chA? da tarde A� moda paulistana, no perA�odo noturno. Sempre atenta e preocupada com o modo como as palavras podem provocar efeitos, e reconhecendo a diferenA�a do falar e do escrever, respondeu, entre longas pausas e comentA?rios jocosos, a nossas perguntas e, certas vezes, preferiu devolvA?-las a nA?s com novas perguntas ou deixando tentA?ssemos respondA?-las ou repensA?-las nA?s mesmas(os).

A entrevista tratou da diversidade da produA�A?o e reflexA?o da antropA?loga: o atual cenA?rio da antropologia britA?nica, e sua relaA�A?o com a sociologia, o surgimento de sua preocupaA�A?o com questA�es de gA?nero e com o feminismo, as diferenA�as e aproximaA�A�es da teoria melanA�sia com o perspectivismo amerA�ndio, a complexidade da categoria a�?relaA�A?oa�?, seus diA?logos com Eduardo Viveiros de Castro e com Bruno Latour, entre outras temA?ticas que os(as) leitores(as) poderA?o apreciar nesta entrevista.

E (Iracema Dulley) a��A�Em sua opiniA?o, existe um domA�nio prA?prio da antropologia atualmente? Quais sA?o as pecularidades da antropologia no que diz respeito a sua forma de compreender os fenA?menos contemporA?neos?

M.S. (Marilyn Strathern) a��A�Acho que a resposta A� muito simples: sim. Afinal, somos o produto de uma histA?ria muito particular, e embora os tipos de temas que abordamos a�� deixando de lado toda a questA?o da interdisciplinaridade, A� claro a�� possam ser estudados a partir de uma grande variedade de A?ngulos e pontos de vista, os antropA?logos chegam a seu tA?pico de estudo com uma histA?ria particular, mas nA?o sA?; chegam tambA�m com um conhecimento comparativo sobre o que acontece no mundo. Os antropA?logos podem abrir um livro de qualquer parte do mundo, e talvez algo ali seja relevante para algum outro lugar. NA?o hA? muitas disciplinas capazes de fazer isso com tanta facilidade. HA? tambA�m outro aspecto. Chris Gregory, em cujoA�Gifts and CommoditiesA�me inspirei em meu trabalho, comeA�ou como economista e converteu-se para a antropologia. E ele sempre me lembra, porque mantemos correspondA?ncia e nos comunicamos muito, de que o que distingue a antropologia A� seu empirismo radical. Em outras palavras, ela se volta para o que estA? ocorrendo aqui e agora, a despeito de quando e o que for esse aqui e agora. Eu costumo dizer esse tipo de coisa… (risos)

Todos(as) a��A�(risos)

E (Iracema Dulley) a��A�Certo. E vocA? diria que o enorme impacto dos imigrantes na Inglaterra exerceu alguma influA?ncia sobre a antropologia britA?nica? E em caso positivo, em quais aspectos?

M.S. a��A�Esta A� uma questA?o fascinante. Pergunto-me se A� uma questA?o que vem do Brasil. Porque nA?o A� uma questA?o na qual eu teria pensado. Ou sobre a qual eu ache que as pessoas pensam. Foi, em grande medida, a sociologia que lidou com isso ao olhar para questA�es e A?reas particulares como justiA�a social, moradia ou o que quer que seja. Seria para ela que nos voltarA�amos se estivA�ssemos A� procura de informaA�A�es sobre os imigrantes. Mas nA?o acho que isso em particular tenha tido impacto na antropologia. Seria interessante pensar por que essa questA?o deveria fazer sentido, e por que ela faz sentido a partir daqui [do Brasil]. NA?o sei.

E (Renato Sztutman) a��A�HA? poucos estudos sobre imigraA�A?o na antropologia?

M.S. a��A�A� claro que hA? estudos sobre imigraA�A?o. Mas nA?o os vejo como diferentes de nenhum outro tipo de estudo. NA?o vejo como poderiam ter tido um impacto teA?rico ou conceitual em particular. Penso em grandes questA�es como globalizaA�A?o, cosmopolitismo ou o que quer que tenda a ganhar terreno. Mas nA?o hA? nada de extraordinA?rio nisso.

E (Ana LuA�sa SertA?) a��A�Marilyn, como vocA? descreveria a atual configuraA�A?o da antropologia como campo disciplinar na Inglaterra hoje? Quero dizer, quais sA?o suas subdivisA�es acadA?micas e polA�ticas?

M.S. a��A�Como disciplina?

E (Ana LuA�sa SertA?) a��A�Sim, como disciplina hoje na Inglaterra.

M.S. a��A�JA? mencionei a sociologia. E o que A� interessante A� que na Inglaterra, ou na GrA?-Bretanha, diferente dos Estados Unidos, a sociologia foi durante muito tempo a disciplina pioneira radical, enquanto a antropologia era conservadora. Isso ocorreu durante a primeira metade do sA�culo XX. E foi a partir desse conservadorismo que a antropologia, eu diria, pA?de tomar uma certa liberdade para se aventurar.

E (Ana LuA�sa SertA?) a��A�E o que vocA? diria que mudou desde que a antropologia comeA�ou a aparecer como um campo disciplinar atA� hoje na Inglaterra?

M.S. a��A�Sua popularidade aumentou. AliA?s, algo que as pessoas nA?o conseguem entender A� por que o nA?mero de alunos continua crescendo, ou ao menos se mantA�m estA?vel, enquanto em todas as outras disciplinas hA? todo tipo de problemas. Acho que os alunos veem a antropologia como uma porta de entrada para o mundo, por assim dizer. SerA? que entendi o que estA? por trA?s da sua questA?o?

E (Ana LuA�sa SertA?) a��A�Estou pensando que a antropologia comeA�ou como A?rea de estudo em outra conjuntura mundial, na qual a Inglaterra tinha outro papel. Talvez vocA? pudesse falar sobre as subdivisA�es na antropologia hoje, ou os principais temas na Inglaterra.

E (LuA�sa Valentini) a��A�Acho que isso se relaciona A� ideia da formaA�A?o de subdisciplinas.

E (Florencia Ferrari) a��A�Quando estive na Inglaterra pela primeira vez na UCL [University College London] havia uma divisA?o entre antropologia social e cultura material que era completamente estranha para mim. Eu nA?o conseguia entender. Algo nessa linha…

E (Ana LuA�sa SertA?) a��A�Essas subdivisA�es, as subdivisA�es acadA?micas e polA�ticas hoje.

M.S. a��A�NA?o hA? dA?vida alguma de que o que se conhece como antropologia social britA?nica comeA�a sua histA?ria com o que era chamado de impA�rio britA?nico. NinguA�m questiona isso. Mas de certa forma, como tudo era muito declarado, isso teve como consequA?ncia um sentimento de angA?stia. As pessoas tinham esse sentimento em relaA�A?o a uma infinidade de coisas, nA?o foi algo particularmente ligado A� antropologia. E na verdade, de certo modo, isso deu A�s pessoas uma base para realizar outro tipo de crA�tica interna, o que ocorreu rapidamente nos campos da antropologia marxista e da antropologia feminista, nos anos 1970 e 1980. Pode-se imaginar que isso seria um grande trauma, que a perda do impA�rio teria feito com que os antropA?logos se sentissem desorientados como antropA?logos atuantes naquelas partes do mundo. Mas nA?o acho que isso tenha acontecido. Politicamente, a GrA?-Bretanha sempre careceu daquilo que acho que qualquer paA�s com algum potencial intelectual sempre teve: intelectuais pA?blicos. Isso nA?o A� algo que ocorre com muita frequA?ncia na GrA?-Bretanha. A televisA?o transformou isso um pouco, mas sempre sA?o os historiadores, geA?grafos e outros especialistas que tendem a fazer grandes afirmaA�A�es sobre o mundo, e nA?o os antropA?logos.

E (LuA�sa Valentini) a��A�Na verdade, A� muito interessante que vocA? esteja falando sobre o impA�rio britA?nico, pois eu gostaria justamente de perguntar sobre os procedimentos e instrumentos que estA?o por trA?s do texto. Capturar, registrar e lidar com a informaA�A?o que vocA? recolheu, a coleta de dados, construir esses momentos etnogrA?ficos dos quais vocA? fala em a�?O efeito etnogrA?ficoa�?… chamo a isso o laboratA?rio do antropA?logo. Como A� que vocA? trabalha? Pensei em dois focos que talvez pudessem ser mais explorados: houve uma transformaA�A?o em seus procedimentos de coleta de dados apA?s vocA? comeA�ar a revisar sua etnografia no Monte Hagen? E quais sA?o as diferenA�as no treinamento para o trabalho de campo entre a A�poca em que vocA? foi formada como antropA?loga e hoje? Estabeleci uma relaA�A?o com o impA�rio britA?nico porque estou pensando noA�Notes and Queries in Anthropology, por exemplo. E tambA�m vi que na conferA?ncia de amanhA? vocA? fala em pesar batatas doces. (risos) Gostaria muito de ouvi-la sobre como vocA? lida com a informaA�A?o.

M.S. a��A�Certo. Isso talvez me ajude a desenvolver minha resposta a vocA? [Ana LuA�sa]. Sei que nA?o consegui responder a contento. Comecemos pela A?ltima pergunta, que se refere A�s transformaA�A�es nas convenA�A�es de treinamento. Sim, havia oA�Notes and Queries. E sim, eu sentia que as mediA�A�es seriam muito importantes. Mas nA?o havia treinamento para os pA?s-graduandos. Ao menos na universidade onde eu estava, havia uma certa arrogA?ncia quanto a seus alunos de graduaA�A?o. Supunha-se que os alunos de terceiro ano da universidade eram melhores do que quaisquer mestres ou estudantes de primeiro ano de pA?s-graduaA�A?o em qualquer outra instituiA�A?o. Os alunos da [minha] universidade eram simplesmente mandados para campo logo apA?s concluA�rem a graduaA�A?o. NA?o havia qualquer treinamento. Mandaram-me para uma consulta com um mA�dico da universidade especializado em medicina tropical que me disse: a�?NA?o receba cartas e nA?o aperte a mA?o dos nativosa�?.

Todos(as) a��A�(risos)

M.S. a��A�Isso nA?o ajudou muito… (risos) Desde entA?o, A� claro que hoje… os mestrandos, se forem fazer doutorado, recebem algum tipo de treinamento. Os alunos devem passar certo tempo estudando metodologia, e assim por diante. Mas acho que A� por isso, em comparaA�A?o com os americanos… a antropologia nos Estados Unidos A� muito meticulosa. Os americanos nA?o aceitam simplesmente avir-se com a literatura. Os antropA?logos americanos sA?o treinados em metodologia. Eles se levam muito a sA�rio. Muito ingleses nA?o se levam tA?o a sA�rio. Mas isso em parte esconde uma atitude em relaA�A?o ao mA�todo: A� como se o mA�todo devesse vir depois. E hA? uma ideia de que… meu cA�rebro vai pegando coisas de todos os lugares. Pode-se dizer o mesmo sobre a sociologia. Os sociA?logos [na Inglaterra] sA?o mais parecidos com os antropA?logos americanos, pois hA? uma espA�cie de entrecruzamento. A sociologia americana A� mais parecida com a antropologia social britA?nica e a antropologia americana A� mais como nossa sociologia [britA?nica]. Em termos do que A� visto com rigor, das suposiA�A�es, e assim por diante. Portanto, o que A� curioso sobre a sociologia A� que sua metodologia A� explA�cita. HA? todo tipo de processos de controle que garantem que os dados obtidos jA? venham purificados, de modo que jA? se possa ter certeza de que eles sA?o passA�veis de sistematizaA�A?o etc. Em contrapartida, penso que para muitos antropA?logos, a despeito da formaA�A?o que os estudantes tA?m hoje em dia… nA?o acho que a formaA�A?o seja nem de longe tA?o completa como nos Estados Unidos. A propA?sito, espero que isso nA?o vA? circular no mundo todo. De todo modo, estou sA? dizendo o que se ouve por aA�, jogando conversa fora. Mas em certo sentido, o antropA?logo deve ser simplesmente uma esponja; nA?o se pode ser uma esponja completa, porque nA?o se perceberia coisa alguma. Mas no sentido de que se deve estar aberto para absorver coisas a respeito de cujo estado ainda nA?o se tem certeza; e o trabalho conceitual vem depois. A� quando entram os mA�todos, a teorizaA�A?o, e assim por diante. Talvez este seja um contraste um tanto grosseiro. Mas havia uma certa lA?gica por trA?s da velha suposiA�A?o britA?nica de que nA?o era necessA?rio oferecer treinamento para o trabalho de campo. Contudo, nA?o acho que isso necessariamente nos tenha ajudado em particular. Qual era mesmo a primeira parte da pergunta?

E (LuA�sa Valentini) a��A�A primeira parte era sobre se houve alguma transformaA�A?o em sua forma de coletar dados quando comeA�ou a revisar sua etnografia sobre Monte Hagen.

M.S. a��A�Certo. Em relaA�A?o A� Papua Nova GuinA�, A� claro que no inA�cio nA?o era possA�vel voltar a campo com frequA?ncia. Mas depois houve um perA�odo em que vivemos em Port Moresby, de 1969 a 1975. ResidA�amos na Papua Nova GuinA� e isso colocava a possibilidade de ir e vir constantemente. Foi quase ao contrA?rio. Eu diria que foi a experiA?ncia etnogrA?fica que transformou a forma como eu estava pensando, e nA?oa�� A� claro que o trabalho conceitual coloca mais questA�es e assim por diante. Mas eu nA?o acho que isso tenha mudado radicalmente meu mA�todo. Especialmente no que diz respeito a questA�es de gA?nero, na verdade a etnografia transformou a forma como eu estava pensando. NA?o sei se vocA?s conhecem a histA?ria de como descobri o gA?nero.

E (LuA�sa Valentini) a��A�Por favor nos conte.A�(risos)

M.S. a��A�Bem, A� preciso entender que isso ocorreu bem no inA�cio dos anos 1960. E acho que na introduA�A?o ao livro [O efeito etnogrA?fico e outros ensaios] eu digo algo sobre minha mA?e e sobre como ela foi uma feminista precoce, anterior A� emergA?ncia da segunda onda feminista. Na verdade ela nA?o aprovava muito a segunda onda… (risos) Ou talvez isso nA?o seja muito justo. Bem, eu de certa forma presumia que era importante estudar mulheres, embora ache que o fato de ter usado a�?mulheresa�? no tA�tulo de meu primeiro livro fez com que ele nA?o tenha vendido e nA?o tenha sido lido nem resenhado. Isso foi em 1972. Em dois ou trA?s anos as coisas mudaram completamente: use mulheres no tA�tulo! Bem, vA?rios termos eram usados para falar sobre relaA�A�es entre homens e mulheres, antagonismo sexual ou o que quer que seja. Mas a palavra gA?nero nA?o existia. NA?o trazia consigo o sentido que conferimos a ela atualmente para nos referirmos a um domA�nio cultural, a uma ideologia, e assim por diante. Foi assim atA� 1972, o mesmo ano em queA�Women in BetweenA�[Mulheres no meio] foi publicado. Mas o que aconteceu comigo, e A� por isso que digo que transformou minhas ideias… quando fui para Hagen pela primeira vez… vocA?s notarA?o isso na minha fala [conferA?ncia de abertura do XII GraduaA�A?o em Campo] verA?o algumas fotografias de um tribunal. Eram discussA�es que as pessoas locais semiformalizavam em uma imitaA�A?o do governo australiano. Elas imitavam o poder da nova administraA�A?o. E no centro desses tribunais estavam as mulheres. As mulheres eram sempre o problema e o incA?modo. Havia inA?meras ocasiA�es nas quais os homens ficavam conversando uns com os outros e as mulheres estavam presentes, sentadas; as mulheres A� que causavam todos os problemas, e assim por diante. E isso estruturava os casos porque as mulheres estavam entre os homens que eram afins entre si, aliados, e assim por diante. E as mulheres eram acusadas de fugirem do marido, criarem confusA?o nas relaA�A�es ou desejarem o divA?rcio. EntA?o eu pensei: a�?JA? sei sobre o que serA? minha tesea�?. Porque minha orientadora queria que ela tratasse dos efeitos da ordem dosA�siblingsA�sobre as culturas comerciais. Ela era africanista, trabalhava na A?frica Ocidental, e essa era uma questA?o muito relacionada ao oeste africano. Mas as culturas comerciais mal haviam comeA�ado e a ordem dosA�siblingsA�nA?o era uma questA?o nas terras altas, onde eu estava. EntA?o pensei: a�?JA? sei sobre o que serA? minha tese: ela serA? sobre divA?rcioa�?, pois as pessoas falavam muito em divA?rcio. E passei muito tempo, dois ou trA?s meses, coletando taxas de divA?rcio de forma muito sistemA?tica. Talvez eu esteja contando uma histA?ria que vocA?s jA? conheA�am… E eu por acaso havia levado comigo para campo alguns cA?lculos de taxas de divA?rcio realizados por dois dos primeiros antropA?logos que fizeram pesquisa nas terras altas. E os Hagen nA?o eram especialmente interessantes. As taxas nA?o eram nem particularmente altas, nem particularmente baixas em comparaA�A?o; mas A� claro que isso nA?o significava que eu nA?o poderia estudar a questA?o mesmo assim. Contudo, como resultado dessas leituras, percebi que o que eu estivera ouvindo atA� entA?o era precisamenteA�conversaA�sobre divA?rcio… que o que eu estava vendo nesses tribunais era a encenaA�A?o, inA?meras vezes seguidas, de certos valores relacionados a certo tipo de comportamento esperado das mulheres e A�s suposiA�A�es dos homens. Cheguei a um entendimento prA�-gA?nero da ideologia de gA?nero relacionada a isso. Foi essa a minha descoberta.

E (StA�lio Marras)A�a�� Sua concepA�A?o de descriA�A?o etnogrA?fica A� convergente com a de Bruno Latour? De que maneira sua concepA�A?o de etnografia converge com aquela proposta por ele ou diverge dela?

M.S. a��A�Acho que quando Bruno Latour utiliza a descriA�A?o etnogrA?fica, ele o faz em um contexto em que ainda sente que A� importante fazer uma afirmaA�A?o sobre o papel iluminador da observaA�A?o com base em anA?lise… porque ele tem outros alvos em mente. Eu, por outro lado, tendo a pensar… e talvez eu esteja errada no que diz respeito a meu prA?prio uso… mas eu acho que tendo a nA?o usar esse termo; tendo a falar em etnografia, em descriA�A?o. Quando falo em etnografia, acho que utilizo o termo de forma muito geral, apenas para invocar o que tomamos por certo como o tipo de meio atravA�s do qual as coisas que observamos tornam-se o foco da anA?lise. Mas quando utilizo a palavra descriA�A?o, essa A� uma palavra bastante pesada para mim, pois eu consideraria a descriA�A?o como o resultado final daquilo que fazemos, e nA?o o comeA�o. E considero que a descriA�A?o subsume tanto a anA?lise quanto uma suposiA�A?o teA?rica, de modo que A� necessA?rio realizar um trabalho imenso antes que se possa descrever qualquer coisa. Ao passo que utilizo a�?etnogrA?ficoa�? de forma muito… sabe, hA? algumas palavras nas quais nos concentramos; em outras nA?o. NA?o tenho certeza… Talvez vocA? tenha evidA?ncias melhores, das quais possa se lembrar melhor do que eu.

E (Silvana Nascimento) –A�Desconstruiu a pergunta.A�(risos)

E (Renato Sztutman) a��A�Se descriA�A?o nA?o A� o mesmo que etnografia, entA?o A� possA�vel dizer que sua abordagem A� muito diferente daquela de Geertz.

M.S. a��A�Bem, diga-me vocA? como vA? essa questA?o entA?o.

E (Florencia Ferrari) a��A�Isso A� importante para os alunos de pA?s-graduaA�A?o, pois eles leem sobre a descriA�A?o densa e podem entender que se trata da mesma coisa quando veem a forma como vocA? define descriA�A?o em seu trabalho, quando na verdade se trata de coisas muito diferentes.

E (Renato Sztutman) a��A�Segundo entendo a questA?o, e posso estar enganado, trata-se de como descrever algo, descrever uma descriA�A?o, e assim por diante.

E (Florencia Ferrari) a��A�E tambA�m se baseia em uma abordagem teA?rica.

E (Renato Sztutman) a��A�Penso, por exemplo, na noA�A?o de ontografia de Martin Holbraad. Trata-se de uma forma de descriA�A?o, mas A� outro tipo de descriA�A?o. E ela se baseia em seu texto, A� um diA?logo com ele, eu acho.

M.S. a��A�Sim, sim.

E (Iracema Dulley) a��A�EmA�Cutting the Network, ao discutir a ideia de Latour sobre a proliferaA�A?o moderna dos hA�bridos, vocA? se baseia no trabalho de Derrida para afirmar que os hA�bridos jA? contA?m em si mesmos a capacidade de proliferaA�A?o. Citarei o trecho para que nossos leitores saibam do que estamos falando: a�?a�?Cortar’ A� uma metA?fora usada por Derrida para o modo como um fenA?meno interrompe o fluxo de outros. Assim, a forA�a de a�?leia�� corta uma extensA?o ilimitada de a�?justiA�a,a�� reduzindo-a e tornando-a exprimA�vel, e criando, no julgamento legal, um objeto de uso manipulA?vel; a justiA�a A� operacionalizada de modo a produzir efeitos sociaisa�?. Fim de citaA�A?o. Isso estA? na pA?gina 300 da traduA�A?o para o portuguA?s [O efeito etnogrA?fico e outros ensaios].A�Assim, quais sA?o as continuidades e descontinuidades que vocA? vA? entre seu trabalho e a diffA�rencee a desconstruA�A?o derrideanas?

M.S. a��A�HA? muitos e muitos anos, apresentei o primeiro capA�tulo de meu livro, a�?Sem natureza, sem culturaa�?a�� nA?o consigo me lembrar onde foi… talvez tenha sido na AustrA?lia. De todo modo, alguA�m que estava no fundo da plateia… e na A�poca era tudo muito novo… disse: a�?Ah, vocA? fez uma anA?lise desconstrutiva!a�? E eu nA?o fazia ideia sobre o que essa pessoa estava falando. Tenho sempre absoluta consciA?ncia de que sou em grande medida o produto de momentos particulares e de pensamentos e teorias particulares que estA?o, em certo sentido, na boca de todos. Alguns dos escritos de Derrida certamente me influenciaram, mas essa citaA�A?o nA?o representa nada muito mais extenso do que… foi algo que permaneceu fixo em minha mente durante muito tempo. Ele estA? falando sobre atos de interpretaA�A?o, o que por sua vez ecoou para mim alguns dos comentA?rios de Edmund Leach sobre o que havia sido oferecido por um certo pensamento estruturalista no sentido de iluminar diferentes categorias, bem como o prA?prio ato de categorizaA�A?o e classificaA�A?o que foi, em certo momento, um grande tema na antropologia nos anos 1960… Essas categorias sempre foram, por assim dizer, arbitrA?rias. As categorias nA?o estavam na natureza; elas eram recortadas daquilo que era de outro modo imaginado como uma extensA?o ilimitada. Pareceu-me que Derrida estava, naquele momento, fazendo um comentA?rio semelhante, e utilizei-o porque ele resumia, para mim, uma observaA�A?o que acho que era aplicA?vel nA?o ao termo em si mas A� forma como ele estava sendo lido pelas pessoas.

E (Florencia Ferrari) a��A�Eduardo Viveiros de Castro afirmou na quarta capa do livro que estamos lanA�ando [O efeito etnogrA?fico e outros ensaios] que seu trabalho A� a mais profunda e revolucionA?ria reflexA?o que a antropologia jA? produziu sobre a ideia de relaA�A?o desde o estruturalismo, ao qual vocA? acrescenta, segundo ele, importantes dimensA�es e implicaA�A�es. Eu gostaria de ouvi-la sobre como vocA? definiria esse conceito em seu trabalho e em que medida ele difere do conceito lA�vi-straussiano. Gostaria tambA�m de perguntar-lhe se se trata de um conceito ou, antes, de um mA�todo.

  • 1A�N.T.: Em inglA?s,A�relateA�pode ser tanto narrar quanto relacionar, no sentido de estabelecer relaA�A�es
  • 2A�N.T.:A�RelativeA�A�, comoA�kinA�ouA�kinsfolk, um termo utilizado para designar parentes em inglA?s.A�SegundA�(…)

M.S. a��A�Acho que Eduardo estA? sendo exageradamente cortA?s.A�(Risos)A�De fato acho. Tudo isso me veio de forma… nA?o despercebida, mas bastante lenta; comecei a perceber que as pessoas me associavam ao relacionismo e A� discussA?o sobre relaA�A�es. E, embora seja muito verdadeiro que eu o tenha feito, na verdade um dos ensaios do livro [O efeito etnogrA?fico e outros ensaios] leva o tA�tulo a�?A relaA�A?oa�? e nA?o havia me associado a ele em particular. Foram outras pessoas que estabeleceram essa conexA?o. E quando nos damos conta disso ou, como posso dizer, A� preciso assumir alguma responsabilidade pelo que as outras pessoas fazem com nosso trabalho. NA?o podemos simplesmente nos encerrar em nA?s mesmos e dizer que a�?esta A� a interpretaA�A?o delesa�?. A� preciso assumir a responsabilidade pelo que escrevemos e pelo que as pessoas fazem com nosso texto; porque isso se torna, de fato, parte do que escrevemos. Foi entA?o que comecei a pensar mais seriamente a respeitoa�� nos dois ensaios que deram tA�tulo ao livro [a�?O efeito etnogrA?ficoa�?] tentei ser um pouco mais sistemA?tica sobre o que eu poderia querer dizer com a noA�A?o de relaA�A�es, embora mesmo eu estivesse entA?o, em vez de enfocar o termo relaA�A?o, mais interessada nas entidades que estavam sendo mobilizadas ao serem pensadas como… ao serem pensadas relacionalmente. Para os cientistas, por exemplo, a relaA�A?o fundamental parece ser entre descoberta e invenA�A?o, na ciA?ncia. Mas desde entA?o passei a me debruA�ar sobre uma das questA�es que estava naquele primeiro ensaio sobre relaA�A?o. Trata-se de uma questA?o bastante obscura, que estA? relacionada ao fato de que na Inglaterra, no sA�culo XVII, o termo relaA�A?o [relation] era um termo utilizado para conectar conceitos, como quando se relata [relate] uma histA?ria, quando se relacionam [relate]1A�ideias diferentes. Na A�poca, era um termo totalmente abstrato, tratado de forma abstrata por vA?rios filA?sofos daquele tempo. Mas ele se tornou um termo para designar parentes [kinsfolk]. E o inglA?s foi a A?nica lA�ngua europeia a fazer isso. A menos que alguA�m queira refutar essa ideia… pois sempre que digo isso ninguA�m discorda. (Risos) Devo continuar dizendo. Assim, os ingleses utilizam o mesmo termo para estabelecer conexA�es abstratas e para designar relaA�A�es entre parentes. Ora, A� claro que sempre se pode ser especA�fico e falar em relaA�A�es entre parentes [relations between kin], mas tambA�m se pode falar sobreA�relationsA�eA�relatives2A�e querer dizer parentes [kinsfolk]. A� esta a peculiaridade. E isso me levou a pensar que talvez haja algo na forma como, e aqui voltamos uma vez mais A� sua pergunta [Ana LuA�sa], que eu nA?o respondi adequadamente, talvez haja algo sobre a antropologia britA?nica e seu investimento nas relaA�A�es [relations], seu prA?prio tipo de antropologia social que se relaciona ao simultA?neo achatamento e adensamento desse termo [relation]. O achatamento ocorre porque, ao usarmos um termo muito abstrato para falar sobre parentes [kinsfolk], na verdade as referA?ncias corpA?reas sA?o suprimidas. Quando se pensa em parentes [kin], pensa-se em pais, em primos especA�ficos ou o que quer que seja; evocam-se imagens concretas de pessoas que nasceram e foram criadas, e assim por diante.A�RelativesA�[o termo que denota ao mesmo tempo relaA�A�es e parentes] A� um termo muito raso, neutro, que na realidade penso ter entrado em circulaA�A?o na A�poca do sistema de classes, quando o sistema de classes sociais estava se desenvolvendo atA� chegar A� forma que assumiu entre os sA�culos XVIII e XIX. Era um sistema em que as pessoas podiam ser reconhecidas e descartadas como conexA�es. Esta A�, portanto, a parte relacionada ao achatamento. A parte do adensamento refere-se ao fato de que temos aqui um termo que passa a ser usado dessas diferentes formas e traz consigo certas conotaA�A�es afetivas. De todo modo, nA?o cheguei a concluir meu pensamento sobre essa questA?o, mas tenho um palpite de que hA? algo na forma como os britA?nicos aferraram-se a esse termo em particular que explica um pouco a antropologia de meados do sA�culo XX e a torna bastante ininteligA�vel para os franceses, por exemplo. Dumont recusou-se a ter seu trabalho traduzido para o inglA?s. Disse que o inglA?s nA?o dava conta de expressar o que ele estava tentando dizer em francA?s, e assim por diante. De fato houve problemas entre os ingleses e os outros antropA?logos. Tenho um palpite de que isso estA? relacionado ao conceito de relaA�A?o [relation].

E (LuA�sa Valentini) a��A�A prA?xima questA?o foi formulada pela terceira tradutora do livro, que estA? vindo de Londres e embarcarA? daqui a pouco. Ela se chama Jamille Pinheiro Dias e a questA?o A� a seguinte: na introduA�A?o de seu livro que acabou de ser publicado no Brasil, vocA? se refere A� noA�A?o de traduA�A?o como equivocaA�A?o controlada de Viveiros de Castro e argumenta que a�?torcer a linguagem de vez em quando, buscando um afastamento dos conceitos que recebemos, tambA�m preserva, ao mesmo tempo, os conceitos em sua forma original (linguisticamente nA?o torcida)a�?. VocA? acha que a ideia de merografia tambA�m nos permitiria vislumbrar uma abordagem da traduA�A?o que leve em conta a natureza parcial das analogias e a autossimilaridade atravA�s das escalas? Nessa linha, poderA�amos concluir que a traduA�A?o necessariamente dA? sentido A�s coisas ao descrevA?-las como parte de outra coisa, e A� portanto merogrA?fica por definiA�A?o?

M.S. a��A�Ah, isso A� muito bom! Sim, gosto dessa ideia.

E (LuA�sa Valentini) a��A�Preciso fazer um comentA?rio a esse respeito. Como tradutoras, tivemos o tempo todo de lidar com isso ao traduzir seu texto: como estabelecer a melhor conexA?o com alguma coisa a partir de termos que sA?o, por exemplo, muito polissA?micos em inglA?s, mas a traduA�A?o nA?o A� tA?o polissA?mica. RelaA�A?o [relation] A� um caso especial, mas tambA�m houve muitos outrosa��

M.S. a��A�Certo. E o que vocA?s fizeram comA�relation?

E (LuA�sa Valentini e Iracema Dulley)A�a�� RelaA�A?o.

E (LuA�sa Valentini) a�� Mas acrescentamos uma nota do tradutor na primeira ocorrA?ncia, na qual mencionamos o conteA?do polissA?mico do termo.

E (Iracema Dulley)A�a�� NA?s utilizamos em portuguA?s um termo que nA?o tem todos esses significados relacionados ao parentesco, pois nA?o havia outra alternativa.

E (LuA�sa Valentini)A�a�� Mas notamos isso imediatamente.

E (Renato Sztutman)A�a�� O termo relaA�A?o, em portuguA?s, A� mais prA?ximo do francA?s.

E (LuA�sa Valentini)A�a�� Foi incrA�vel, ficA?vamos sempre imaginando coisas sobre sua escrita, lidar com tantos sentidos ao mesmo tempo A� muito elegante. NA?s nos pegA?vamos pensando que nA?o dispA?nhamos da ferramente adequada para a tarefa.

M.S. a��A�Mas perceber isso implica um grande domA�nio do inglA?s.

E (LuA�sa Valentini) a��A�AlA�m de inA?meros dicionA?rios.A�(risos)

E (Renato Sztutman) a��A�NA?s gostarA�amos que vocA? falasse um pouco mais sobre a comparaA�A?o entre o perspectivismo amerA�ndio e o perspectivismo melanA�sio. Da forma como costumamos ler, quando vocA? fala em perspectivismo ele vem muito relacionado a gA?nero e a contextos de troca de dA?divas, ao passo que o perspectivismo amerA�ndio A� um pouco mais focado nas relaA�A�es interespecA�ficas ou nas relaA�A�es entre humanos e nA?o humanos. Eu gostaria de pedir a vocA? que falasse um pouco mais sobre essa comparaA�A?o e tambA�m, no que diz respeito A� antropologia melanesista, sobre as relaA�A�es entre humanos e nA?o humanos na etnografia melanA�sia.

M.S. a��A�Eu de fato nA?o tenho certeza quanto a se deverA�amos usar o termo perspectivismo na MelanA�sia.

E – (Renato Sztutman) a��A�Estou pensando em a�?O efeito etnogrA?ficoa�?…

M.S. a��A�Acho que se os melanA�sios tiverem algo como o perspectivismo, ele nA?o diria respeito a relaA�A�es interespecA�ficas, mas a relaA�A�es intra-humanas, gA?nero, a esse tipo de diferenA�as em particular. Portanto, trata-se realmente apenas de um a�?como sea�?. Mas A� claro que eu utilizo o termo a�?perspectivaa�? e tambA�m uso o termo a�?perspectivoa�? [perspectival]. Na troca de dA?divas os doadores e receptores assumem constantemente o ponto de vista um do outro na forma como constroem suas relaA�A�es. Mas isso nA?o faz com que uma cosmologia seja perspectivista.

E (Renato Sztutman) a��A�Certo. VocA? nA?o acha que a MelanA�sia poderia ser descrita como uma cosmologia perspectivista?

M.S. a��A�Tenho tentado pensar sobre como ela se encaixaria na proposta de Descola, em seu esquema em quatro partes. E nA?o acho que ela se encaixe realmente, assim como a de Eduardo tambA�m nA?o se encaixa. Pode haver algumas semelhanA�as. Mas A� um desses conceitos que nos ajuda a pensar outras situaA�A�es, mas isso nA?o necessariamente significa que estejamos fazendo uma suposiA�A?o direta sobre a existA?ncia de qualquer continuidade. No que diz respeito A�s relaA�A�es entre humanos e outros, isso nA?o seria necessariamente interespecA�fico; seria entre humanos e fantasmas, qualquer coisa que nA?o esteja plantada no solo. E nA?o A� algo muito interessante, nA?o produz nada a�� ou ao menos nA?o produziu nos anos 1960.

E (Renato Sztutman) a��A�Muitos antropA?lgos que se inspiram em seu trabalho referem-se atualmente a uma virada ontolA?gica na antropologia. Pessoas como Martin Holbraad ou mesmo Eduardo Viveiros de Castro, que escreveu uma fala sobre isso. Se nA?o estou enganado, vocA? nA?o usa esse termo, ontologia, com muita frequA?ncia em seu prA?prio trabalho.

M.S. a��A�Sim, nA?o uso.

E (Renato Sztutman) a��A�Assim, eu gostaria de perguntar o que vocA? acha da ideia de uma virada ontolA?gica e como vocA? vA? a relaA�A?o entre a antropologia e a filosofia, estudos filosA?ficos, discussA�es filosA?ficas.

M.S. a��A�Virada ontolA?gica… Bem, agora eu vou soar muito arcaica. De tempos em tempos, A� necessA?rio rejuvenescer e regenerar as coisas, conferir um novo senso de realidade A�quilo que fazemos. E acho que as vA?rias escolas sobre as quais tenho conhecimento a�� mencionei a antropologia feminista e a antropologia marxista; houve a antropologia simbA?lica, o interpretativismo, e assim por diante. E entA?o houve a grande virada pA?s-modernaa�� O que isso produza�� as pessoas dizem que sA?o modismos, que sA?o modas passageiras. A� claro que se pode estar na moda com elas, e tambA�m A� possA�vel ser chique com elas, mas acho que hA? uma enorme importA?ncia no sentido de regalvanizar a todos. Apresenta-se uma perspectiva um pouco diferente e as pessoas passam a olhar para as coisas de forma renovada. E a ontologia certamente tem essa funA�A?o. Este A� um argumento muito funcionalista. Em parte a�� e A� esse seu truque a�� porque ela propA�e redescrever o mundo real. A� este seu principal truque. E ele A� astuto. Mas eu de fato penso, falando de forma mais sA�ria, que a ontologia capturou um pouco da reserva das pessoas em relaA�A?o A� representaA�A?o. Lembrem-se a�� A� claro que vocA?s nA?o se lembram a�� que durante anos e anos foi a representaA�A?o, esse tipo de coisa, que esteve em questA?o.

 

Em 25 de agosto de 2014, a antropA?loga britA?nica Marilyn Strathern realizou sua terceira visita ao Brasil. Em 1998, Dame Strathern veio a convite do NA?cleo de Estudos de GA?nero da UNICAMP, ocasiA?o em que visitou tambA�m o Museu Nacional/RJ. Em 2009, participou na Universidade Federal de Minas Gerais de um ciclo de conferA?ncias organizado pelo Instituto de Estudos AvanA�ados Transdisciplinares (IEAT). Em 2014, esteve em SA?o Paulo para proferir a conferA?ncia de abertura do XII GraduaA�A?o em Campo, evento pioneiro organizado pelo LaboratA?rio do NA?cleo de Antropologia Urbana (LabNAU/USP), desde 2002, que tem como objetivo dar visibilidade e promover interlocuA�A�es acadA?micas a partir de pesquisas de graduaA�A?o na A?rea de antropologia. Desse modo, alA�m do lanA�amento de duas publicaA�A�es de seus trabalhos em portuguA?s a��A�Fora de contexto, as ficA�A�es persuasivas da antropologiaA�(Ed. Terceiro Nome) eA�O efeito etnogrA?fico e outros ensaios, o mote de sua visita era o trabalho de campo como prA?tica de conhecimento antropolA?gico.

Marilyn Strathern em ConferA?ncia de Abertura do evento XII GraduaA�A?o em Campo/II SemiNAU, dia 25 de agosto de 2015.A�FotoA�: Acervo do NAU.

 

PlatA�ia da ConferA?ncia de Abertura do evento, dia 25 de agosto de 2014.A�Foto: Acervo do NAU.

 

Eduardo Viveiros de Castro abrindo a conferA?ncia RelaA�A�es de Socialidade e Conhecimento, proferida por Marilyn Strathern. Casa de Cultura Japonesa da FFLCH-USP, 26 de agosto de 2014. Foto: Acervo do NAU.

 

 

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