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Resenha: 24/7 – capitalismo tardio e os fins do sono


Por Anthony Rodrigues

Um dos debates mais efervescentes na teoria antropológica contemporânea seria a polêmica referente a linha limítrofe entre natureza-cultura na história das sociedades humanas. Esses dois eixos são geralmente vistos como paradoxais — com algum grau de determinação entre si — mas a priori nunca vistos como duas esferas capazes de colonizar totalmente a outra. Nos debates sobre gênero, por exemplo, as correntes materialistas afirmam que a construção social correlacionada aos papéis sexuais de gênero esbarra num limite material que seria a diferenciação binária dos corpos humanos, remetendo a uma natureza dada e intransigível. Já nos debates sobre meio ambiente e desenvolvimento, vemos correntes afirmando que a humanidade caminha para seu limite de acumulação de capital, já que não haveria mais a possibilidade de explorar terras através de espoliação, causando assim a progressiva desmaterialização da economia global.
Crary entra nessa questão por uma perspectiva totalmente nova: os estudos do sono. Em 24/7 – capitalismo tardio e os fins do sono, o autor faz uma dura crítica a esta etapa do capitalismo — assim conceitualizada por representar a hegemonia da mercantilização e do consumo em massa de bens não-duráveis, consequentemente à emergência da globalização. Jonathan Crary (1951) é um ensaísta e crítico de arte norte-americano, atualmente professor da Universidade de Columbia. Além de 24/7 ele é autor de mais sete obras, onde teria remetido anteriormente a ideia central da economia da atenção. 24/7 é uma obra que transcende diversos campos científicos no objetivo de explicar como as novas tecnologias e seus mecanismos de controle interferem diretamente na ação humana e em nossa sociabilidade.

O termo 24/7 advém de uma modernidade cada vez mais acelerada e hiperconectada, onde as redes de produção, financeirização e comunicação são ininterruptas e dependem cada vez mais de máquinas e suportes eletrônicos. Assim, o capitalismo expande o tempo da atividade humana produtiva até o seu limite, havendo apenas uma barreira a se perfurar: o tempo de sono. Crary argumenta que já está em curso experimentos e torturas militares por todo planeta onde cobaias humanas são obrigadas a ficar dias em vigília no objetivo de se estudar a capacidade de estarmos o máximo de tempo possível em prontidão e com capacidades físicas e mentais de produção e consumo.
Com isso estaria o capitalismo tardio homogeneizando a última das estruturas de diferenciação ao afastar o sono da ideia de necessidade e natureza, sendo potencialmente capaz de ser dominado pelas novas tecnologias neurocientíficas em um processo chamado por ele de “biodesregulamentação” (p. 24).

Porém 24/7 não é só um processo em curso, mas algo que já está em operação vigente há algum tempo. Crary afirma que nós já somos indivíduos que estamos constantemente interagindo, comunicando, reagindo ou processando através de algum meio telemático possível e isso causaria a perda paulatina das referências sensitivas e perceptivas, como a capacidade de concentração e de devaneio (p. 25). Este estado de produção ininterrupta acaba “alargando” o campo de possibilidades e de simultaneidade no funcionamento da consciência, sendo cada vez mais difícil os estados privados do sono/sonho e das relações intra comunicativas. Cria-se assim uma “necessidade” mercadológica, chamada por ele de economia da atenção. A economia da atenção nada mais é que os mecanismos de controle que o monopólio do capital financeiro e tecnológico se utiliza para nos manter acordados (farmacologia) e para atrair cada vez mais nossa atenção como potenciais consumidores (publicidade).

É crucial para o entendimento completo da obra que o autor não está se referindo exclusivamente ao aumento progressivo de tempo em que ficamos acordados, mas sim em como as novas tecnologias e a etapa global de financeirização do capital são determinantes para a transfiguração da nossa relação com o tempo, com nossos próprios corpos e com outros indivíduos. Implicitamente ele se refere a uma reificação completa de todas as esferas da vida social e orgânica, como das normas socialmente compartilhadas. Assim as experiências humanas estão cada vez mais funcionando a revelia da temporalidade dos sistemas 24/7, manifestados através da unidirecional hiperconexão. Este paradigma da modernidade representa um paradoxo em relação ao tempo humano e das experiências socialmente compartilhadas, revelando assim uma dimensão normativa em sua obra.

Retornando ao binário a priori dicotômico da natureza-cultura como perceptíveis na constituição ontológica do homem, Crary é enfático em afirmar que o dano maior do capitalismo tardio — ou o efeito em última instância — é a homogeneização e redundância dos eixos dualísticos antes vistos como imutáveis pela capacidade sensitiva do ser. O exemplo empírico mais curioso é o experimento soviético de implementação de satélites que simulam a luz solar em regiões onde são comuns os meses de escuridão. A tecnologia poderia ser utilizada como meio de neutralização da passagem do dia para noite, assim homogeneizando e acelerando o tempo de forma racional e controlada. Pode parecer uma ideia absurda, mas ele afirma que na própria emergência da revolução industrial inglesa já podemos perceber uma mudança no paradigma da relação temporal com a transferência da produção material do campo para os grandes aglomerados urbanos (p. 72). Os camponeses que dependem da natureza para os ciclos de fertilização do solo são transferidos para uma lógica totalmente mecanizada e instrumental, onde a produção é artificialmente conduzida por máquinas — e pelas próprias forças produtivas —, tornando assim a temporalidade mais determinada pelo eixo da cultura do pêndulo existencial.

Os aspectos mais interessantes de se observar na reificação das normas socialmente compartilhadas causadas pela hiperconexão são os fenômenos do isolamento social e da reinvenção do sujeito. A dinâmica da vida social se reconfigurou com o advento em massa das redes sociais e dos suportes eletrônicos que nos dão acesso a elas. A dependência dos indivíduos em torno destas redes rapidamente se transformam no padrão ontológico dominante da realidade social (p. 52), tornando-se assim parte de uma rotina programática e dependente dos fluxos virtuais de integração social. Além da atualização constante dos suportes eletrônicos, temos as próprias redes de comunicação virtual como representações da aceleração e fragmentação sistemática do presente.

A velocidade com que as informações chegam até nós cria transtornos psicopatológicos — a ansiedade como maior exemplo — que caracterizam a necessidade de constante atualização e simultaneidade. Crary chega a insistir numa possível violência simbólica que estas atualizações e rotinas programáticas causam num indivíduo considerado antiquado (p. 54-55).

Assim, podemos apresentar três eixos passivos de reificação na modernidade 24/7: tempo, corpo e memória. Os mecanismos de controle dos dispositivos interferem diretamente nestas esferas e as tornam controláveis através de reproduções sistemáticas de comportamento. Sendo o consumo e o tempo de atividade produtiva as finalidades destas ferramentas contemporâneas de regulação capitalista, um ponto nodal nestas características é a sensação de autonomia que os indivíduos possuem diante do que foi produzido por ele próprio, talvez configurando uma nova relação de alienação oriunda intrinsecamente da modernidade. Na essência, essas relações se conformam cada vez mais em uma padronização e sincronização em massa de temporalidade e memória, causando perda de identidade e de singularidades subjetivas (p. 59). A consequência da colonização sistêmica da experiência individual é, nas palavras de Crary, um dano psíquico generalizado na modernidade 24/7 (p. 60).

Mesmo possuindo dimensões normativas e viés político muito forte, a obra de Crary nos ajuda também a pensar problemáticas da teoria social na sociologia contemporânea.

A hiperconexão como parte de uma modernidade voltada para dispositivos e aparelhos eletrônicos pode representar novos modelos de representação do eu diante do palco social (GOFFMAN, 1959) e na estrutura da ação social ao questionar a dupla contingência da comunicação entre ego e alter nas atuais relações virtuais (PARSONS, 1937). No que tange a ideia de homogeneização fenomenológica das experiências sociais e existenciais, 24/7 é uma obra que propõe uma expansão do conceito de reificação oriunda da tradição marxista e da teoria crítica da Escola de Frankfurt (ADORNO; HORKHEIMER, 1985), principalmente ao mencionar a quase completa racionalização e controle destes mecanismos tecnológicos nas esferas subjetivas da vida social, excluindo apenas — pelo menos por enquanto — os momentos de sono e devaneio.

Em suma, no debate sobre a concepção do nível de poder de colonização que a cultura exerce sobre a natureza em suas variadas formas, o ensaísta traz contribuições interessantes ao perceber um movimento específico de coerção cotidiana das práticas sociais mais simples, pretensiosamente atualizando a tese foucaultiana da sociedade de controle. Se para o filósofo francês ainda haviam brechas no espaço-tempo para que o indivíduo respirasse momentos de parcial liberdade, Crary observa que no capitalismo 24/7 essas brechas tendem a desaparecer exponencialmente, já que estaríamos mergulhados numa lógica de financeirização e consumo capaz de interpenetrar no sistema de comportamentos mais banais do ser social (p. 81). A tessitura de rotinização do cotidiano na modernidade regula as experiências reflexivas da consciência até o ponto de metamorfosear a natureza dos hábitos mais individuais e subjetivos.

O livro adquire um caráter político ao mostrar como a hiperconexão leva os indivíduos a uma espécie de comunicação unidirecional e programada. É comum ler nas teorias normativas do conflito — de uma possível sociedade pós-capitalista — como os debates estão centrados em dois pólos argumentativos: àqueles que enxergam no fim da sociedade de classes o pressuposto teleológico da emancipação humana, e aqueles que enxergam o conflito como cerne das relações sociais.

A perspectiva nova implicitamente introduzida por Crary é da possibilidade do fim da política ser visto no horizonte histórico. A fragmentação do agente, aceleração do tempo, homogeneização e padronização dos hábitos levam o indivíduo a um arcabouço de práticas e manifestações de opiniões cada vez mais unidirecionais e simultâneas, evitando-se a necessidade do conflito. As redes sociais e os aparelhos eletrônicos, assim, são “espaços” virtuais que provocam um movimento contrário a seu discurso utilitário hegemônico. No lugar de aproximar indivíduos, apenas afastam.

É evidente que a tese defendida por Crary põe em xeque a ideia de práxis em contradição com a inatividade do sujeito ao demandar pra si mais tempo de autonomia e sono. Mas o ensaísta expõe de forma brilhante como esses momentos de brecha do capitalismo 24/7 são determinantes para a descolonização ontológica do homem. O próprio autor cita o conceito sartriano de prática-inerte como um modelo ideal de definição das práticas narcisísticas e antissociais oriundas do capitalismo tardio (p. 125). Com isto, a dimensão política e normativa em sua obra dá um salto argumentativo ao provocar as teorias da práxis mais focadas na retórica marxiana clássica.

O sonho e o devaneio são vistos aqui como fugas necessárias, inclusive no que tange a ruptura com um presente imposto como axiomático pelo capitalismo financeiro e pela modernidade acelerada. O tempo, sem dúvida alguma, atinge um ponto central nas polêmicas referentes a emancipação humana, reificação, controle social e dominação da cultura sobre a natureza.

 

REFERÊNCIAS

ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 2004.

PARSONS, Talcott. The structure of social action. New York: Free Press, 1967.

 

Este texto foi originalmente publicado na Revista Habitus e pode ser encontrado aqui.

 

Anthony Rodrigues é graduando em Ciências Sociais pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É integrante e bolsista do Centro de Estudos Sociais Aplicados (CESAP/IUPERJ) como auxiliar de pesquisa sob coordenação da professora doutora Maria Isabel Mendes de Almeida. Também desenvolve pesquisas pelo Núcleo de Estudos Comparados e Pensamento Social (NEPS/IFCS), sob orientação do professor doutor Antonio Brasil Jr. Atualmente, interessa-se pelas áreas de pensamento social brasileiro e teoria sociológica.

 

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