Prefácio a Poema-piada


Em 2017, a Ubu lançou Poema-piada: breve antologia de poesia engraçada, organizada por Gregório Duvivier. Este é o prefácio do livro, escrito pelo organizador, que fala sobre a relação entre humor e poesia.

 

À primeira vista, o poeta e o humorista pertencem a mundos diversos. O poeta-albatroz vê o mundo como o Google Earth: do alto do satélite ou da torre de marfim. O céu é do poeta — como o chão é do humor.

O humorista, ao contrário, vive na lama — ou na sarjeta. Mendigo, bêbado ou caipira, o humorista tradicional é aquele que enxerga o mundo sem qualquer transcendência ou metafísica. Tudo merece, pra ele, a mesma quantidade de falta de respeito. Entre transcendência e imanência, nuvens e sarjeta, céu e chão, a poesia e a piada não se encontrariam nunca, como duas retas paralelas.

Mas pra isso é preciso entender poesia de uma forma muito estrita – pra não dizer chata. A ideia de que a poesia fala de temas mais nobres que a prosa, ou de que o poeta é um ser iluminado (ou, pra usar um termo atual: diferenciado), acabou junto com a tuberculose. A torre de marfim deu lugar a uma quitinete na praça Roosevelt.

A graça, por sua vez, deixou de ser sinônimo de distração e passou a ser pensada, cada vez mais, como “cosa mentale”, um exercício de inteligência — como as outras artes. Ainda há, claro, quem ache que a poesia humorística é um gênero menor — “sorte a nossa”, dizia o Antonio Candido sobre a crônica, “assim ela fica mais perto da gente”.

Por aqui, nossos maiores poetas nunca tiveram esse preconceito. Sempre trataram a piada como um ofício, e não como uma atividade paralela. Os poemas que você encontra aqui não são o hobby de poetas canônicos — mas o próprio cânone, nossa produção mais celebrada, la crème de la crème do nosso pré-sal. Da minha parte, só tenho a agradecer — se não fosse a piada, nunca teria me interessado pelo poema.

Criança, penava pra ler os romances intermináveis de José de Alencar e achava que poesia era aquilo que escrevia o meu tataravô simbolista: sonetos cheios de palavras como “plenilúnio” e “porciúncula”. Não tinha muito interesse pelo assunto, como é de se imaginar. Tinha uns dez anos de idade quando a Quadrilha do Drummond me deixou perdidinho: “Isso aqui também chama poesia?” perguntei ao professor Miguel. “Então eu gosto”. Percebendo meu apreço pelo gênero, o professor me apresentou aos modernistas e, entre eles, um poeta que tinha sido seu colega de faculdade, o Bith — de quem nunca mais ouvi falar, mas por sorte aprendi alguns poemas de cor: “Não sei se vou ou fico/ tudo o que a vida me dá/ sinuca de bico”.

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Gregório Duvivier (org.)

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