Por que Argonautas?


Em 1922, quando publicou a obra prima Argonautas do Pacífico ocidental, Bronislaw Malinowski “inventou” a etnografia. Com longos períodos de convívio com os habitantes das Ilhas Trobriand na Melanésia, o antropólogo polonês pôde fazer uma descrição inédita da vivacidade de uma cultura. Um parágrafo clássico da Introdução do livro dá o sabor de sua narrativa:

Capa da primeira edição de Argonautas do Pacífico Ocidental

Capa da primeira edição de Argonautas do Pacífico ocidental

“Imagine-se o leitor sozinho, rodeado apenas de seu equipamento, numa praia tropical próxima a uma aldeia nativa, vendo a lancha ou o barco que o trouxe afastar-se no mar e desaparecer de vista. Tendo encontrado um lugar para morar no alojamento de algum homem branco – negociante ou missionário – você nada tem a fazer a não ser iniciar imediatamente seu trabalho etnográfico.”

Nascido na Cracóvia, em 1884, e professor na London School of Economics em uma época em que o positivismo e o nacionalismo estavam em ascensão, Malinowski dedicou-se a pesquisas sobre populações em contato com o Império Britânico. Quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, viu-se impedido de voltar à Europa e estendeu seu trabalho de campo.

Malinowski discordava da incoerência atribuída pelos ocidentais às sociedades primitivas, argumentando que ela provinha de uma falta de precisão nas observações dos estudiosos, e não do objeto de estudo em si. Sua contribuição para a ciência veio na contramão do etnocentrismo e do evolucionismo vigentes na época. Malinowski inventou as bases do método etnográfico que transformou a antropologia para sempre: a observação participante – a partir da convivência por longos períodos com uma certa população –, focando nas interrelações e nos vários aspectos da sociedade na tentativa de abranger sua complexidade, ao invés de trabalhar à distância compilando fatos. Seu objetivo era compreender “o ponto de vista dos nativos”.

A coleção Argonautas traça uma linhagem do pensamento antropológico que começa com os textos clássicos de Marcel Mauss reunidos em Sociologia e antropologia (cujo Ensaio sobre a dádiva é grande devedor da etnografia de Malinowski), tem como centro de força o estruturalismo de Claude Lévi-Strauss e depois se ramifica em autores que, apropriando-se do legado estruturalista, inovaram e revolucionaram seus campos de pesquisa a partir de etnografias.

Ao longo de 2017, serão onze títulos (dez deles do antigo catálogo da Cosac Naify). Confira a lista e as datas previstas de lançamento:

Março
A sociedade contra o Estado, Pierre Clastres
Sociologia e antropologia, Marcel Mauss
Sobre o sacrifício, Marcel Mauss e Henri Hubert

Abril
A inconstância da alma selvagem, Eduardo Viveiros de Castro
Cultura com aspas, Manuela Carneiro da Cunha
A invenção da cultura, Roy Wagner

Maio
Antropologia estrutural, Claude Lévi-Strauss
Antropologia estrutural dois, Claude Lévi-Strauss

Segundo semestre
O efeito etnográfico, Marilyn Strathern
Metafísicas canibais, Eduardo Viveiros de Castro

 

Imagem de capa: Malinowski com nativos, Ilhas Trobriand, 1918.

 

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Sociologia e antropologia
Marcel Mauss

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Cultura com aspas 
Manuela Carneiro da Cunha

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A sociedade contra o Estado
Pierre Clastres

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