9 poemas curtos de Bruno Brum – Blog da Ubu editora

9 poemas curtos de Bruno Brum


Bruno Brum A� um dos 27 nomes que aparecem na antologia de poesia engraA�ada da Ubu, organizada por GregA?rio Duvivier. Esta postagem A� para apresentar um pouco mais do trabalho do poeta, que tambA�m A� designer grA?fico, nascido em Belo Horizonte, e jA? conta com 4 livros prA?prios publicados: MA�nima ideia (2004), Cada (2007), Mastodontes na sala de espera (2011, vencedor do PrA?mio Governo de Minas Gerais de Literatura em 2010) e 20 sucessos (2016, em parceria com Fabiano Calixto). Antes dos poemas, uma breve introduA�A?o de Victor da Rosa, crA�tico literA?rio e doutor em literatura pela UFSC:

 

Uma vez surgiu a ideia de publicar uma antologia comemorativa da poesia de Bruno Brum a�� nA?o lembro bem o que pretendA�amos comemorar a�� e ficamos em dA?vida entre dois tA�tulos:A�ColeA�A?o Primavera VerA?o ouA�ColeA�A?o Outono Inverno.A�Ou seja, por algum motivo tA�nhamos convicA�A?o sobre o aceno A�s coleA�A�es de moda, mas dA?vida sobre qual seria a estaA�A?o mais adequada. No primeiro caso, a A?nfase recairia sobre um aspecto solar ou a�?alegrea�? que os poemas de Bruno Brum possam eventualmente conter; no outro caso, lembrarA�amos os leitores de um carA?ter frio ou noturno dos textos do poeta. No fim, acabamos desistindo da ideia da antologia, nA?o por causa da dA?vida em torno do tA�tulo, mas acho que porque chegamos A� conclusA?o de que nA?o existia motivo nenhum para comemorar. Os poemas abaixo, assim como alguns outros, estariam nessa antologia. Alguns fazem parte dos livros anteriores do poeta, outros sA?o inA�ditos. Hoje em dia me parece que sA?o poemas de meia estaA�A?o.

 

JOVEM

Jovem deixa A?culos em museu

e visitantes pensam que A� obra de arte.

 

Jovem deixa obra de arte em museu

e visitantes pensam que perderam os A?culos.

 

Jovem recolhe A?culos de museu

e visitantes pensam qualquer outra coisa.

 

Jovem, colabore.

 

* * *

 

EQUILIBRANDO TAA�AS DE CHAMPANHE

Os colegas me parabenizam pela conquista.

Os vizinhos me parabenizam pela famA�lia.

Os mA�dicos me parabenizam pela saA?de.

Os clientes me parabenizam pela eficA?cia.

Os amigos me parabenizam pela lealdade.

Os bA?bados me parabenizam pela escuta.

Os jovens me parabenizam pela graA�a.

Os estranhos me parabenizam pela gentileza.

Os vendedores me parabenizam pela escolha.

Os loucos me parabenizam pela cumplicidade.

Os polA�ticos me parabenizam pela confianA�a.

Os policiais me parabenizam pela conduta.

Os sA?bios me parabenizam pela prudA?ncia.

Todos me parabenizam com vontade.

 

Muito obrigado.

 

* * *

 

QUEM TEM MEDO DO FRANGO ASSADO?

Todos olham e enxergam o frango assado.

Todos os caminhos levam ao frango assado.

Tudo o que se vA?, tudo o que se ouve,

o cheiro das ruas vem do frango assado.

O frango assado anda de um lado para o outro.

EstA? visivelmente confuso.

 

* * *

 

A� PRECISO

A� preciso muita garra e determinaA�A?o para alcanA�ar o topo.

A� preciso muita garra e determinaA�A?o para alcanA�ar o.

A� preciso muita garra e determinaA�A?o para alcanA�ar.

A� preciso muita garra e determinaA�A?o para.

Enfim, vocA?s entenderam.

 

* * *

 

MONGE

Um monge

sentado

em uma

pedra

no topo

de uma

montanha

esperando

o sucesso

chegar.

 

* * *

 

OFICINA DE POESIA

Trabalhe em dois livros simultaneamente.

Dedique a maior parte do seu tempo ao livro 1.

A� nele que vocA? colocarA? os melhores poemas,

aqueles que melhor expressam sua personalidade artA�stica.

No livro 2, escreva o que vier A� cabeA�a,

sem muitas preocupaA�A�es temA?ticas ou estilA�sticas.

Ele vai funcionar como um caderno de exercA�cios

e provavelmente nunca serA? lido.

Enquanto isso, continue trabalhando

com afinco nos poemas do livro 1.

Ao final do processo,

jogue fora os poemas do livro 1

e publique o livro 2.

 

* * *

 

COM MUITA NATURALIDADE

O rapaz de camiseta branca ainda nA?o se deu conta.

O de calA�a jeans e coturno talvez desconfie.

A menina de aparelho acha que A� tudo mentira.

O irmA?o mais novo olha sem disfarA�ar.

A mA?e e o pai se perguntam o que estA? havendo.

O homem de mochila age com muita naturalidade.

A mulher com o embrulho tenta manter a calma.

O barbudo de A?culos comeA�a a ficar inquieto.

O casal de gringos se levanta para ver melhor.

A ruiva de uniforme espera estar enganada.

A adolescente sabe que chegou a hora.

O repA?rter respira e ajeita o casaco.

A moA�a de vestido azul estA? impecA?vel.

O senhor de chapA�u e bigode tambA�m arrasa.

 

* * *

 

ANGU DA INFLUASNCIA

rabelais nA?o leu mishima kafka nA?o leu drummond ovA�dio nA?o leu flaubert herA?doto nA?o leu huidobro hA�lderlin nA?o leu augusto dos anjos hesA�odo nA?o leu dante victor hugo nA?o leu kerouac safo nA?o leu camA�es rimbaud nA?o leu borges zenA?o nA?o leu torquato baudelaire nA?o leu freud mallarmA� nA?o leu joyce homero nA?o leu bashA? pessoa nA?o leu rosa sA?lon nA?o leu petrA?nio shakespeare nA?o leu maiakovski oswald nA?o leu leminski confA?cio nA?o leu peirce odorico nA?o leu haroldo apuleio nA?o leu lautrA?amont cruz e souza nA?o leu burroughs gregA?rio nA?o leu pound

 

a vida A� assim mesmo

 

* * *

 

O PORCOSSAURO

O Porcossauro nA?o estA? contente.

Precisa de novos amigos

e um novo lar.

Precisa se esforA�ar mais

e entender que nada na vida vem fA?cil.

O Porcossauro caminha pela cidade observando os outros porcossauros

aparentemente mais felizes do que ele.

Sabe que A� hora de mudanA�a.

Mas mudar o quA?? pergunta-se, angustiado.

NinguA�m poderia estar mais triste.

Nem mesmo os porcossauros que nA?o tA?m onde morar e o que comer.

Tudo depende de vocA?, dizem os porcossauros felizes.

E isso sA? piora as coisas.

O Porcossauro pensa na Porcossaura e no Porcossauro Jr.

A angA?stia aumenta.

NA?o hA? para onde ir, conclui, atravessando a rua.

NA?o hA? por onde comeA�ar.

Mas deve haver um jeito.

Deve haver um jeito, resmunga.

Ou nA?o me chamo Porcossauro.

 

livros relacionados

Poema-piada a��
breve antologia da
poesia engraA�ada

GregA?rio Duvivier (org.)

Untitled-1