capa

Père Ubu é presidente!


Por Hal Foster

É claro, a “pós-verdade” é um grande problema, mas e a “pós-vergonha” então? Como desafiar um político que não sente vergonha? Ou protestar contra um líder que impera no absurdo? Como desdadáizar um presidente dadá? Talvez, quando eles jogarem baixo, nós devêssemos jogar ainda mais baixo e escandalizar o escândalo.

Ideias sobre a condição da pós-vergonha levam a refletir sobre os tempos pré-vergonha. A projeção mais escandalosa remete ao “pai primevo”. Lembremos que, em Totem e tabu (1913), Freud desenvolve o conceito da “horda primeva” a partir de Darwin, um grupo de irmãos de guerra governados por um patriarca todo-poderoso. Esse terrível pai desfruta de todas as mulheres da horda (que é o único papel atribuído às mulheres nesta narrativa) e deixa seus irmãos de fora sexualmente até o momento em que todos se revoltam, matam e devoram o tirano. Contudo, esse ato leva o grupo a imergir numa culpa profunda (pela primeira vez sentida) e então eles erigem o pai morto de novo, agora como deus, ou ao menos como um totem ao redor do qual são estabelecidos os tabus (acima de tudo contra o incesto e o homicídio). Para Freud é desse modo que começa a sociedade.

Há uma maneira histórica de ler essa fábula pré-histórica como uma ilustração das revoluções burguesas que destronaram os reis, isto é, como uma alegoria da democracia – “a transformação da horda patriarcal”, como Freud coloca, “em uma comunidade de irmãos”[1]. Anos depois, ele retoma o pai primevo em Psicologia de grupo e análise do ego (1921) e, se Totem e tabu remete indiretamente à democracia, Psicologia de grupo faz o mesmo com o fascismo — isto é, com o retorno, muito tempo após a democrática decapitação do rei, do ditador egocrático. Com efeito, para Freud, a política de massa de seu tempo induziria a regressão à “psicologia de grupo da horda”. “O que é assim despertado”, escreve, “é a ideia de uma personalidade predominante e perigosa, com a qual só é possível ter uma atitude passivo-masoquista”. “O líder do grupo”, Freud conclui, “ainda é o temido pai primevo; o grupo ainda deseja ser governado pela força irrestrita e possui uma paixão extrema pela autoridade”[2]

Por que lembrar o pai primevo em referência a Trump? Claro que é perigoso psicologizar qualquer pessoa, ainda mais milhões de eleitores e generalizá-los deste modo, mas há uma dimensão psíquica no seu apoio que devemos explorar. Sem dúvida, muitos de seus eleitores — lembremos que ele teve 63% dos votos masculinos brancos — são sexistas e racistas, abertamente ou não, e com certeza a maioria vêm das elites raivosas também. Mas eles também estavam — eles estavam primordialmente — excitados por Trump, excitados por  votar nele: houve uma paixão positiva, não só um ressentimento negativo. Para a maioria de nós é difícil entender por que, mas uma possibilidade seria sugerir que ele retomou o “laço erótico” que liga a horda com o pai primevo[3]. Pois essa figura tanto encarna a lei (o senhor está acima dos irmãos) quanto performa sua transgressão (ele pode apalpar qualquer mulher). Uma potente dupla identificação se cria: os irmãos se submetem ao pai como a autoridade ao mesmo tempo em que o invejam como um fora-da-lei. E assim temos um presidente como celebridade (“quando você é uma estrela… você pode fazer qualquer coisa” [Trump]) representando um retrocesso ao pai primevo (ou apenas um fanfarrão-no-comando), e temos ainda legiões de caras brancos que querem ser seus “aprendizes”.

 

Este artigo foi originalmente publicado em inglês pela e-flux e pode ser encontrado aqui.

Imagem de capa de Monica Ravitch

_

livros relacionados

ubu-143

O retorno do real
Hal Foster

Untitled-1

 

ubu-132

O complexo arte-arquitetura
Hal Foster

Untitled-1

 

[1] Sigmund Freud, Group Psychology and the Analysis of the Ego, trans. James Strachey (New York: W.W. Norton, 1959), 54.
[2] Ibid., 59.
[3] Claro que minhas semiburlescas microanálises não explicam o maior mistério eleitoral – porque a maioria das mulheres brancas votariam no Trump também.