Patafísica é um negócio sério


Por Pascal Engel

 

Patafísicos têm a reputação de não serem sérios. De fato, eles parecem ter elevado o espírito da não-seriedade não somente ao status de uma arte, mas também de uma ciência, a própria patafísica. Como afirma Richard Marshall[1]:

“O patafísico insiste que nada é sério, incluindo a patafísica. A natureza enigmática desta determinação nos faz lembrar que o incentivo e guia do paradoxo requer agnosticismo, que pode assumir mais de uma forma.”

As vidas dos grandes patafísicos, especialmente de Alfred Jarry, ilustram esta atitude. Pode um homem que no leito de morte pede um palito de dente ser sério? Pode um Colégio que tem Comitês de Hirsutismo e Pogonotrofia[2] ou um calendário com nomes de meses como Fálico (Phalle) ou Merdra (Merdre), e cujos membros dedicam uma grande quantidade de tempo à invenção de trocadilhos e a jogos do Oulipo como escrever romances sem a letra “e”[3], ser realmente sério?

 

Com efeito, Sua Magnificência Irénée Louis Sandomir, fundador e vice-curador do Colégio, diz em seu Opus Pataphysicum:

“Seriedade não significa antipatafísico?”

E o especialista em trocadilhos do Colégio, o Regente Luc Etienne, formulou o principal axioma:

“O verdadeiro patafísico não leva nada a sério, exceto a ‘Patafísica[4], que consiste em não levar nada a sério”.

E adicionou um corolário:

“‘Patafísica consiste em não levar nada a sério, o verdadeiro patafísico não pode levar nada a sério, nem mesmo a ‘Patafísica”.

 

Assim como Richard Marshall nos faz lembrar, a raiz da não-seriedade da patafísica está em duas de suas principais doutrinas. A primeira é metafísica (desculpe!): a patafísica é uma forma de ficcionalidade generalizada, segundo a qual tudo, da ciência à religião, é ficcional. A Patafísica, afirma Jarry em seu Gestos e opiniões do Doutor Faustroll, é “a ciência das soluções imaginárias que atribui a contornos as propriedades de objetos descritos por suas virtualidades”. A segunda doutrina é lógica: a patafísica rejeita o princípio da não-contradição e aceita mundos onde contradições são verdadeiras, antecipando, assim, as visões de lógicos paraconsistentes e dialeteístas. Mas, como Richard Marshall apropriadamente comenta, os patafísicos, ao invés de aceitar a reivindicação dialeteísta de que algumas contradições são verdadeiras, devem aceitar que todas as contradições são verdadeiras, isto é, devem aceitar o trivialismo. Como afirma Marshall:

“Esta é a visão de que todas as contradições são verdadeiras e, portanto, assumindo que uma conjunção implica seus conjuntos, que tudo é verdadeiro. Priest e Sylvan querem resistir a esta última dedução. Se o ‘Patafísico reconhece a utilidade de distinguir a verdade da falsidade, então ele ficará feliz em adotar a conclusão de que tudo é verdade considerando que é uma conclusão extremamente inútil.”

Richard Marshall acertou sobre a lógica da patafísica. Mas ele poderia ter levado seu raciocínio mais adiante. É um erro deduzir, do fato de que a patafísica não é séria, de que ela não é séria. Pois, em primeiro lugar, se os patafísicos rejeitam o princípio de não-contradição e aceitam o trivialismo, eles devem deduzir do fato de que a patafísica não é séria, de que ela é séria (dado que essa é uma verdadeira contradição). Em outras palavras, eles devem aceitar que de P pode-se deduzir não-P, ou que de não-P pode-se deduzir P. Eles devem aceitar que qualquer coisa segue de qualquer coisa. Eles também negam o princípio de identidade, segundo o qual de P pode-se deduzir P. Em outras palavras, eles devem negar que do fato de que a patafísica não é séria, pode-se deduzir que ela não é séria. Eles devem deduzir, ao contrário, que ela é séria. Lembremos da espiral gidouille do Pai Ubu, que também contém o lema do Colégio da Patafísica: Eadem mutata resurgo  (Surjo mudado, mas o mesmo).

 

Do fato de que a patafísica não é séria, advém que ela é séria. Então a patafísica é mesmo séria. Nas palavras imortais de Irénée Louis Sandomir: “Le sérieux est total” (a seriedade é total).

 

 

Véritable_portrait_de_Monsieur_Ubu

Pai Ubu

 

Pascal Engel estudou filosofia na École Normale Supérieure, na Sorbonne e em Berkeley. Lecionou na Universidade Paris XII, na Sorbonne – Paris IV, entre inúmeras outras instituições, e escreve sobre filosofia da lógica e da linguagem e sobre epistemologia. Além disso, ocupou o cargo de Auditor Real do Colégio da ‘Patafísica.

 

Este post é uma versão editada do artigo originalmente publicado em inglês pelo autor, que pode ser encontrado aqui.

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livros relacionados

O Supermacho
Alfred Jarry

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[1] Ver http://www.3ammagazine.com/3am/pataphysics-useless-guffaw/
[2] Hirsutismo se refere ao aumento da quantidade de pelos na mulher em locais em que os homem costumam apresentar mais pelo. Já Pogonotrofia trata do cultivo da barba.
[3] Referência ao romance O sumiço (1969), de Georges Perec, escrito sem a letra “e”, a vogal mais usada da língua francesa.
[4] Segundo o Colégio da ‘Patafísica, o termo deve ser sempre precedido de apóstrofo. Entretanto, optamos por manter a variação presente no texto original.