Canudos, Maio de 68 e o anarquismo húngaro de Sándor Márai


Por Paulo Schiller

 

Poucas coisas em literatura são mais improváveis do que a história da publicação de Veredicto em Canudos, do húngaro Sándor Márai, no Brasil, justamente em 2002, quando se comemoraram 100 anos da primeira edição de Os sertões. Podemos afirmar que, a par dos estudos dos especialistas, o livro de Márai se constituiu na grande surpresa do ano para os euclidianos. Alinhou-se, de imediato, junto de A guerra do fim do mundo de Vargas Llosa, entre os grandes romances inspirados pelo conflito no sertão baiano.

Escrito em Salerno, na Costa Amalfitana, em húngaro, e impresso e distribuído somente na América do Norte por um editor canadense, o livro tinha tudo para permanecer na obscuridade. Em seu próprio país, Márai, um dos grandes nomes da literatura húngara, havia proibido a comercialização de sua obra enquanto vigorasse o regime comunista. Logo no início, o narrador se interroga se teria algum leitor um dia.

Márai leu Euclides em inglês. A tradução americana de Os sertões foi publicada numa coleção de livros de história, em 1944. Nessa época, o governo dos Estados Unidos tinha interesse em que o hesitante governo brasileiro se alinhasse aos Aliados no final da Segunda Guerra. Tratava-se de uma edição acadêmica, com numerosas notas de rodapé, um glossário de termos botânicos, zoológicos e regionais do Brasil, um índice onomástico e outro remissivo. Márai foi muito sensível na apreensão da grandiosidade de Os sertões, sob a superfície da tradução engessada que continha inúmeros erros.

Como ele próprio diz em seu posfácio:

“O livro é como a mata do sertão: a um tempo abundância e aridez. Contém muito do que marca o Brasil: o clima, a flora e a fauna. E por trás dos dados objetivos se delineia a paisagem humana… Por fim, aos trancos e barrancos, terminei o livro. A lembrança era inquietadora. Como se eu estivesse estado no Brasil. Como se existisse alguma coisa que tivesse de ser dita…”

Embora Euclides tenha sido influenciado, de início, pelas ideias do positivismo, foram os acontecimentos de maio de 1968 que levaram Márai a escrever seu romance de cunho anarquista. O autor húngaro percebeu a mudança de posicionamento de Euclides e viu uma ligação clara entre o levante no interior baiano e as manifestações que sacudiram Paris.

Veredicto em Canudos é a história do que teria acontecido depois que Euclides voltou de sua estada na Bahia como repórter. O arraial estava destruído, o Conselheiro, morto, e o comandante da expedição militar vitoriosa tomava as últimas providências em relação aos prisioneiros que haviam sobrevivido ao combate.

“Um dia comecei a escrever sobre o que acreditava ter ficado ‘de fora’ do livro de Euclides da Cunha – ficara de fora, ‘mas poderia também ter sido assim’. Na história havia algo de datado, mas o patológico na literatura é sempre o mesmo.”

Para mim, a estrutura de Veredicto em Canudos sempre foi a de um roteiro quase acabado de cinema ou de teatro. Resume-se a três grandes cenas: a exibição, para os soldados extenuados, da cabeça decapitada de Antonio Conselheiro; o banho de banheira de uma mulher de origem europeia, feita prisioneira, que tinha sido atraída pelos ideais revolucionários da gente do arraial rebelde, e seu posterior interrogatório, um debate de natureza política com o Marechal vitorioso.

Citando novamente Márai acerca do verão parisiense de 1968, “a vida de um país culto, civilizado, paralisou-se durante alguns dias, e o povo francês teve de encarar o pesadelo da anarquia”.

Nada melhor para simbolizar o que comoveu o conservador Euclides do que o grafite pintado pelos alunos nas paredes da Sorbonne: “Soyez réalistes, demandez l’impossible”.

 

Paulo Schiller é médico, psicanalista e tradutor. Do húngaro, traduziu obras de Sándor Márai, Imre Kertész, Gyula Krúdy, entre outros. Pela tradução de O legado de Eszter (Companhia das Letras, 2001), de Sándor Márai, recebeu o prêmio APCA de tradução. Com a tradução de O companheiro de viagem (Cosac Naify, 2003), de Gyula Krúdy, foi finalista do prêmio Jabuti.

 

Imagem de capa © Flávio de Barros / Museu da República

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