A Odisseia em português


Gustavo Frade é professor de língua e literatura grega da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Compartilhamos, agora, um texto inédito que ele escreveu comparando as principais traduções da Odisseia para o português que existem hoje no mercado, mencionando a tradução de Christian Werner à edição da Ubu do livro.

 

A Odisseia começa com uma descrição sintética de seu herói (sem mencionar seu nome) e de suas aventuras. Em termos de organização da informação, o primeiro verso do poema começa com uma síntese de seu assunto em uma única palavra (ándra, “homem”, subentendendo-se Odisseu, que tem como característica o atraso na revelação de sua identidade) como objeto de um imperativo (énnepe, “diz”), e continua com polýtropon, que caracteriza o “homem”, condensando em uma palavra as características de Odisseu como herói: polý significa “muito” e “tropon” pode se referir a sua capacidade de “se virar”, de “dizer coisas de [muitos] modos” ou mesmo a “caminho”, ou seja, “o que muito se vira”, “o que é ou fala de muitos modos” ou “de muitos caminhos”.

Vejamos como os diferentes tradutores se viraram para resolver essa introdução. Frederico Lourenço traz “Fala-me, Musa, do homem astuto”. Ele abandona a pretensão de também começar sua Odisseia por “homem” e simplifica a multiplicidade de polýtropon para um adjetivo simples, de uso corrente em português, “astuto”, para caracterizar Odisseu de forma bem definida. Coisa parecida faz Carlos Alberto Nunes, usando o mesmo adjetivo: “Musa, reconta-me os feitos do herói astucioso”, mas iniciando (à moda de Hesíodo) pela Musa e especificando a relação entre o verbo e seu objeto. A astúcia é também o que enfatiza Odorico Mendes, que começa sua Odisseia de forma curiosamente simples, contrastando com sua fama de poeta de estilo obscuro: “Canta, ó Musa, o varão que astucioso”, ainda assim, opta pelo arcaizante “varão” em vez de “homem” e faz sua Musa cantar em vez de só contar. Christian Werner, Trajano Vieira e Donaldo Schüler vão todos achar importante fazer alguma experimentação com o polýtropon e também começar por “homem”, embora tenham que lidar com o pequeno empecilho do costume de usar o artigo ou da necessidade de uma preposição. Christian Werner traz: “Do varão me narra, Musa, do muitas-vias”. Ele compartilha com Odorico Mendes a opção pelo arcaizante “varão”, mas busca uma maneira de contemplar a multiplicidade de sentido do polýtropon: muitas-vias (muitos caminhos, muitos modos, muitos recursos). Donaldo Schüler e Trajano Vieira fazem escolhas semelhantes, que privilegiam a explicitação dessa multiplicidade num único vocábulo que aglutina duas outras palavras. Donaldo Schüler com: “O homem canta-me, ó Musa, o multifacetado” e Trajano Vieira com “O homem multiversátil, Musa, canta”. Um pequeno detalhe: Odorico Mendes aqui mantém o simples “astuto”, mas sua tradução é famosa pela formação, coisa bem à moda de Homero, de palavras a partir de duas outras, às vezes feliz, como em “Aurora ‘dedirrósea’”, às vezes engraçada, como em “Aquiles ‘velocípede’”.

A tradução mais recente, de Christian Werner, se propõe a se manter mais próxima às imagens e versos de Homero, a aproveitar o potencial poético das palavras compostas e a transpor os conceitos gregos arcaicos de maneiras conscientes e não necessariamente adaptadas ao nosso repertório de conceitos ou imagens poéticas habituais.

No quarto verso da Odisseia um tradutor já se depara com um desses termos que, embora certamente traduzíveis, sintetizam conceitos que não têm um análogo que englobe todas as associações mentais que ele ativa para na língua e na cultura grega arcaica. No caso é thymós, palavra que em Homero indica a sede dos pensamentos e emoções humanas, ainda associada no corpo à respiração (como marca essencial de vida ou atividade vital) e ao sistema respiratório. Um tradução literal do verso, mantendo a ordem das informações, seria: “muitas no mar sofreu dores no thymós”, com uma aliteração bem marcada no início “πολλὰ δ’ ὅ γ’ ἐν πόντῳ πάθεν ἄλγεα ὃν κατὰ θυμόν”. Frederico Lourenço, Trajano Vieira e Odorico Mendes traduzem de forma a não precisar mencionar essa sede dos pensamentos e emoções relacionada à vida. Eles ressaltam o sofrimento de Odisseu no mar valorizando as aliterações em progressiva adição de novos elementos à imagem de partida. Frederico faz: “foram muitos no mar os sofrimentos por que passou”, Trajano faz: “as muitas dores amargadas no mar”, e Odorico faz: “Mil transes padeceu no equóreo ponto”.

Carlos Alberto Nunes e Donaldo Schüler adaptam o thymós para análogos em português, cada um com seu ponto de contato que possibilita a tradução e sua limitação. Carlos Alberto traduz o verso assim: “como no mar padeceu sofrimentos inúmeros na alma”. A alma, como o thymós, se associa à atividade vital e a emoções (talvez a pensamentos, mas aí a associação talvez já fique mais distante), mas se afasta do aspecto corporal, físico, do thymós. A opção de Donaldo Schüler: é “No / mar, inúmeras dores feriram-lhe o coração”. Talvez seja essa a forma mais recorrente de se verter o thymós para o português, já que no nosso repertório é o coração a sede das emoções no corpo, embora não seja tão ligado ao pensamento e embora seja ligado ao sistema circulatório e não respiratório (vale observar que a pulsação e a respiração são marcas básicas da atividade vital). No nosso imaginário popular, inclusive, o coração se opõe à cabeça ou ao cérebro como sedes das emoções e da razão, enquanto os gregos pareciam entender uma zona de sobreposição, muito razoável, entre emoção, pensamento e corpo.

Christian Werner propõe uma tradução que tenta abarcar todos esses aspectos do thymós: “e muitas aflições sofreu ele no mar, em seu ânimo”. Se podemos pensar no ânimo como um indicador do estado mental e emocional, a palavra ainda é herdeira do latim animus. Animus tem o sentido de sede do intelecto, oposta ao princípio vital, anima, e ao corpo, corpus, mas é também uma palavra formada pela raiz indo-europeia que forma, por exemplo, no grego ánemos (vento) e no sânscrito na (respirar), anas (respiração) e anilas (vento). Assim tenta incorporar todas as ideias que formam o conceito de thymós.

Esse exercício comparativo nos mostra as diferentes maneiras segundo as quais, lembrando do texto de Jorge Luis Borges, “As versões homéricas”, tentamos capturar aquilo que é especificamente homérico a partir de traduções tão diversas, que buscam, por meios variados e conforme orientações estéticas diversas, transpor para português algo do estilo e do prazer dos poemas homéricos.

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