O sacrifA�cio estA? no coraA�A?o da PA?scoa – Blog da Ubu editora

O sacrifA�cio estA? no coraA�A?o da PA?scoa


Nesta PA?scoa, a Ubu selecionou e traduziu um texto da escritora Madeleine Bunting, publicado pelo The Guardian, sobre a relaA�A?o direta da PA?scoa com os ritos sacrificiais e o papel importante que o sacrifA�cio pode desempenhar na sociedade como um todo.

O texto dialoga diretamente com o trabalho desenvolvido pelos antropA?logosA�Marcel Mauss e Henri Hubert no seu livroA�Sobre o sacrifA�cio.

 

O sacrifA�cio estA? no coraA�A?o da PA?scoa a�� e no da experiA?ncia humana como um todo

O violento e, no entanto, redentor evento celebrado pelos cristA?os neste fim de semana tem um significado e uma utilidade A� sociedade como um todo.

Pode parecer um pouco confuso para uma pessoa de fora do universo do cristianismo que uma religiA?o que se diz ser sA? sobre amor e perdA?o tenha como evento central a comemoraA�A?o de uma morte violenta (e, claro, paradoxalmente, de uma ressurreiA�A?o), a PA?scoa.

A� uma confusA?o ilustrada pelo fato de que o sA�mbolo do cristianismo A� a forma romana de tortura usada naquele dia na Palestina, a cruz. Vivemos em uma era em que preferimos que nossa violA?ncia exista sA? estampada em celuloide. Esperamos muita violA?ncia de Hollywood mas ficamos horrorizados ao pensar que uma religiA?o possa carregar a violA?ncia no seu coraA�A?o.

Acontece que a PA?scoa nA?o A� exatamente sobre violA?ncia, mas sobre sacrifA�cio. Discutivelmente, nenhuma palavra A� mais problemA?tica do que essa no nosso mundo secular. O sacrifA�cio A� moralmente perturbador: como ele pode ser, ao mesmo tempo, violento e redentor? A estranheza dessa pergunta A� parte do porquA? de a PA?scoa ter se tornado tA?o vazia de sentido a�� para a maioria das pessoas, trata-se de artesanato e chocolate.

Em quase todas as religiA�es hA? rituais de sacrifA�cio e, atA� os dias de hoje, grande parte da populaA�A?o mundial ainda os realiza. PrA?ticas sacrificiais antigas claramente moldaram o cristianismo: padres, altares, uma refeiA�A?o compartilhada, e as constantes referA?ncias a sangue em rituais como a missa. Alguns argumentariam que essa continuidade A� representativa de uma preocupaA�A?o humana profunda com uma sA�rie de dilemas relativos ao ato de tirar a vida de alguA�m. O sacrifA�cio explora isso e oferece uma resoluA�A?o. Outros falariam que o sacrifA�cio nA?o tem lugar no mundo moderno e que ele A� sintomA?tico de uma irracionalidade supersticiosa.

O sacrifA�cio intrigou o filA?sofo RenA� Girard e a teoria que ele desenvolveu hA? quase 50 anos se tornou imensamente influente. Colocando em termos simples a�� porque ele foi um pensador complexo e sutil a��, ele argumentou que os seres humanos imitam os desejos um do outro: queremos aquilo que querem aqueles que nos rodeiam. Isso estimula a competiA�A?o e, frequentemente, a violA?ncia.

Essa violA?ncia pode se espalhar e se tornar indomA?vel, entA?o as sociedades a controlam atravA�s da criaA�A?o de bodes expiatA?rios para manter a harmonia. A histA?ria estA? lotada de episA?dios em que sociedades se uniram ao eleger um bode expiatA?rio. O cristianismo foi radicalmente inovador ao fazer com que Cristo expusesse a inocA?ncia do bode expiatA?rio, em sua posiA�A?o de vA�tima. Assim, ofereceu uma alternativa A� violA?ncia, resistindo aos sentimentos de vinganA�a e raiva.

Recentemente, a teA?loga Sarah Coakley elaborou uma poderosa nova leitura do sacrifA�cio. Ela argumenta que ele precisa ser restabelecido como um princA�pio central, biolA?gico, A�tico e teolA?gico. Em sua elaboraA�A?o, o sacrifA�cio estA? longe de ser um ritual fora de moda, ele A� central para a experiA?ncia humana. Ela menciona uma teoria evolutiva recente que coloca a cooperaA�A?o sacrificial em pA� de igualdade com a mutaA�A?o e a seleA�A?o enquanto princA�pios evolutivos fundamentais. a�?Uma perda evolutiva individual pode significar um ganho evolutivo ao grupoa�?, ela diz.

Em vez de enxergar nossos genes como egoA�stas, batalhando em uma disputa pela sobrevivA?ncia do mais apto, podemos ver a evoluA�A?o como dependente de sacrifA�cios incessantes, pequenos e grandes, que garantem a sobrevivA?ncia do grupo. Para qualquer mA?e, essa experiA?ncia de sacrifA�cio A� ou foi visceral, na medida em que ela carrega uma crianA�a por 9 meses, dA? A� luz e amamenta. A nova vida, que se desenvolve, se alimenta de seu corpo: os nutrientes de seu cabelo, seu sangue e seus dentes sA?o constantemente drenados.

O que faz das ideias de Coakley tA?o desafiadoras A� que, como ela sugeriu em palestras que ministrou em 2012 em Gifford, a�?hA? a necessidade de modelos de sacrifA�cio em uma sociedadea�? a�� que a existA?ncia de pessoas dedicadas a um a�?altruA�smo nA?o calculadoa�? cumpre um papel crA�tico ao desafiar, inspirar e provocar a ordem social ao seu redor.

Em algum nA�vel, estamos todos cientes do poder do sacrifA�cio. NA?s, calculadamente, desviamos nossos olhares. Estamos vivendo em uma era em que sacrifA�cios existem em medida quase apocalA�ptica: uma grande extinA�A?o estA? em andamento, com centenas de espA�cies sendo eliminadas enquanto seus habitats naturais sA?o destruA�dos. Em se tratando de outra dimensA?o da nossa era de sacrifA�cios, nA?s desenvolvemos uma economia global em que o bem-estar das pessoas e comunidades A� rotineiramente sacrificado pelo bem do crescimento e da eficiA?ncia da economia a�� deuses estranhos construA�dos a partir de fantasias que alegam ser racionais.

Esse A� o sacrifA�cio que o capitalismo tenta encobrir com suas ilusA�es glamurosas e ideologia do desejo e do direito sobre as coisas, da autorrealizaA�A?o e da autoexpressA?o. O capitalismo oferece velocidade, conveniA?ncia e escolha, mas por trA?s de tudo isso estA? o sacrifA�cio, desde as condiA�A�es precA?rias de trabalho que oferece aos campos de algodA?o que satura.

Compreendermos a importA?ncia do sacrifA�cio A� experiA?ncia humana A�,A�certamente, uma parte vital da construA�A?o de qualquer futuro sustentA?vel.

Qualquer proposta de reverter nosso impacto destrutivo sobre o meio ambiente, ou de diminuir sua velocidade, deve passar pela discussA?o do sacrifA�cio no que toca os consumidores dos paA�ses ocidentais de economia desenvolvida. Somente quando entendermos o sacrifA�cio como uma possA�vel forA�a capaz de gerar mudanA�as positivas teremos alguma possibilidade de restringir nossas capacidades destrutivas.

 

Leia o texto original clicando aqui.

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Sobre o sacrifA�cio
Marcel Mauss e Henri Hubert

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