O Códice Dresden e o Popol Vuh: registros da cultura maia


Daniel Grecco Pacheco

O Popol Vuh e o Códice Dresden são alguns dos poucos documentos produzidos pelos povos maias antigos que chegaram até nós. Criados em diferentes momentos e contextos tais manuscritos expressam um pouco da cosmologia, do pensamento e da cultura maia antiga. Em ambos é possível perceber a presença e a ação de seres, ou forças da natureza, conhecidos como deuses, em suas relações com o mundo dos humanos, dos animais e da natureza.

Nas imagens do fac-símile abaixo [oferecido na compra do Popol Vuh pelo site da Ubu] são trechos do Códice Dresden. Os códices eram manuscritos pré-hispânicos e coloniais confeccionados com peles de animais ou papel amate, que, por sua vez, era feito da casca de um tipo de figueira, ou do maguey, uma variedade de cacto. Esses documentos traziam importantes escritos sobre as histórias de linhagens de governantes, suas filiações com seres sobre-humanos, as sortes e os destinos das pessoas, os ciclos astronômicos, entre outros temas.

O Códice Dresden é composto por 39 folhas feitas de papel amate, com uma fina cobertura de estuque e dimensões de 20,5 cm por 9 cm, com a maioria das folhas pintada e escrita em ambos os lados. O documento se encontra na Biblioteca do Estado de Saxônia, na cidade de Dresden, na Alemanha, e acredita-se que ele tenha sido pintado entre os séculos XIII e XIV d.C., nas terras baixas do norte da Península de Yucatan, no México. Seu conteúdo é composto de almanaques adivinhatórios, tabelas astronômicas, episódios cosmológicos, registros da contagem do tempo, com o objetivo de prognosticar o futuro com base na estrutura de narrativa e da gênese da sociedade maia, que o produziu.

Ainda que tenham sido feitos em diferentes contextos e carreguem funções distintas, o Popol Vuh e o Códice Dresden compartilham alguns elementos. Nas páginas selecionadas para o fac-símile é possível perceber a presença de seres associados ao Inframundo, além de figuras que possuem relação com personagens do Popol Vuh. Por exemplo, a do deus da caça, que está na página 7 (segunda página do fac-símile, na seção B), e que estaria relacionada ao personagem Xbalanqué.

Trecho do Códice Dresden com uma ilustração de Ixbalanqué

Além disso, o documento apresenta diversas passagens protagonizadas pela divindade suprema dos Maias iucatecos, Itzamná, que também possui um equivalente na narrativa do Popol Vuh. Os dois documentos trazem ainda registros sobre o conhecimento da contagem do tempo, fundamental para a estruturação da ontologia maia.

Nas imagens, abaixo, vemos a representação da contagem do tempo. As barras simbolizam cinco unidades e os pontos uma unidade.

Esses documentos nos permitem ter acesso a importantes saberes dos antigos maias, que seguem sendo utilizados pelos seus descendentes no México e na América Central até os dias de hoje.

Daniel Grecco Pacheco é pesquisador do Centro de Estudos Mesoamericanos e Andinos da Universidade de São Paulo e autor do texto “Arte e política no Popol Vuh“, publicado na edição do Popol Vuh da Ubu.