Sobre Marcel Mauss: in memoriam


Em 10 de fevereiro, Marcel Mauss deixou este mundo ao qual permanecia ligado somente pelo corpo. A guerra e seus horrores, a execução de seus colaboradores e de seus alunos mais caros haviam retirado, a partir de 1940, muito do vigor de uma das mais belas inteligências de seu tempo.

Sua vida foi a de um sábio e não apresenta traços de maior relevância. Nascido em 1872 em Épinal, ele, dessa ascendência vosgeana e das lembranças muito vivas da guerra franco-germânica, guardaria durante toda a vida um patriotismo irrequieto e uma postura algo militar. Fez os estudos no colégio de sua cidade natal e veio a Bordeaux para, sob a direção de seu tio Émile Durkheim que lá lecionava, preparar a licenciatura e sua admissão à universidade como professor de filosofia. Nomeado em 1895, voltou suas vistas para o estudo da história das religiões e, em 1900, quando Léon Marillier, vítima de um acidente fatal, deixou vaga a direção dos estudos de história da religião dos povos “não civilizados”, Mauss foi designado para substituí-lo. A partir daí, por mais de trinta anos, daria aulas que ficariam para sempre na memória de todos aqueles que assistiram a elas, tão vivo e sugestivo era ele e tão originais e brilhantes eram seus pontos de vista. Na realidade, suas pesquisas iam muito além daquilo que, oficialmente, estava previsto em suas aulas. Aproveitando um texto que lhe servia de base, ele expunha com uma perspicácia, às vezes genial, as instituições desses povos longínquos com os quais jamais teria um contato direto, e que conhecia principalmente das descrições dadas por grandes antropólogos ingleses e americanos dos quais muitos ficaram seus amigos. Quando, em 1925, Lucien Lévy-Bruhl criou o Instituto de Sociologia, Mauss e o dr. Paul Rivet se tornaram secretários-gerais dessa organização. Em 1930, foi nomeado professor do Collège de France, onde lecionou até a guerra de 1939. Sua vida não apresenta muitos outros fatos dignos de nota. Lembrarei somente que ele, como oficial intérprete nas unidades combatentes, deu grande demonstração de coragem durante a guerra de 1914-18. Participou de várias missões científicas no estrangeiro e deu cursos notadamente em Oslo, Londres, e na Universidade Harvard.

Sua erudição era prodigiosa. Grande leitor (reunira uma magnífica biblioteca), tinha excelente memória e espantosa curiosidade de espírito. Além da etnologia e da ciência das religiões, matérias que dominava a fundo, tinha bons conhecimentos nas áreas de filosofia, psicologia, direito, economia política, literatura mundial e ciências exatas. Também sabia, além do inglês e alemão, russo, sânscrito, céltico e várias línguas faladas na Oceania. Era difícil surpreender-lhe algum erro e em geral maravilhava os especialistas pela justeza e originalidade de suas observações. Foi um dos últimos cérebros enciclopédicos.

Aqui não é lugar para falar do homem que seus amigos e parentes não se cansam de chorar, tão bom, sensível e delicado. Ninguém mais do que Mauss soube cultivar a amizade e ninguém foi mais devotado a seus alunos do que ele. Entretanto, aqui convém observar que seu grande coração de certo modo lhe prejudicou a produção científica. Mais acima, mencionei que a guerra de 1939 e suas terríveis consequências haviam retirado muito do vigor de sua inteligência. A Primeira Guerra Mundial já o havia atingido nos seus mais caros afetos, como testemunham as notícias que ele dá no Année Sociologique (2a série) sobre os colegas ou alunos que, direta ou indiretamente, foram vítimas. Uma grande parte de seu tempo e de seus esforços foi consagrada a publicar escritos deixados por estes ou por amigos mortos prematuramente. É dessa maneira que publicaria obras de Durkheim, Henri Hubert, Robert Hertz e de vários outros. Não resta dúvida de que essa tarefa dolorosa e delicada o impediu até certo ponto de escrever suas próprias obras. Tanto assim que ele deixou os livros – posteriormente intitulados A prece, A moeda, A nação – apenas preparados, por falta de tempo para redigi-los.

Mauss era o oposto da ideia que se faz de um sábio. Tinha horror a qualquer tipo de dogmatismo. Soube conservar, até que a moléstia o atacasse, uma juventude de espírito e temperamento que o levava a procurar mais a companhia de estudantes e pesquisadores que a dos homens de idade. Foi um incentivador e, hoje, existe uma legião de sábios que teve a vocação despertada por ele. Alguns destes quiseram organizar um volume para homenagear e agradecer a esse grande semeador de ideias, que mais do que ninguém merecia (ele, que havia dado tudo de si) ver-se – como numa espécie de potlatch – retribuído pelo inestimável presente que lhes dera. A guerra impediu que a homenagem fosse concretizada e nós nos privamos da alegria de testemunhar-lhe nossa afeição e gratidão.

Embora o essencial de Mauss se encontre em seus cursos, em suas improvisações, seria extremamente injusto dizer que sua obra escrita pode ser negligenciada. Em vez de uma alentada obra dogmática à qual a natureza espontânea de seu espírito não o destinava, são muitos os artigos e relatos escritos em que ele deixou expressas ideias engenhosas ou profundas e em que se poderão encontrar os elementos de uma doutrina sociológica que Mauss preferiu aplicar a expor ex professo. A maioria desses trabalhos encontra-se no periódico Année Sociologique do qual, junto com Durkheim, Fauconnet, Simiand e Bouglé, ele foi o principal encorajador durante os primeiros anos, e que fez reviver após a cesura trágica entre uma guerra e outra. Devemos lembrar os célebres estudos que apareceram em nossa coletânea, com a colaboração de Durkheim, Henri Hubert, e Beuchat, sobre a Magia, o Sacrifício, as Classificações, as Variações sazonais e o admirável trabalho sobre a Dádiva, forma arcaica da troca, na qual podemos dizer sem exagero que ele abre perspectivas novas para os mais importantes problemas relativos à gênese do direito e à economia política. Alguns desses trabalhos – aqueles que escreveu com seu querido amigo Henri Hubert – já foram reunidos.1 Outros apareceram recentemente numa coletânea que traz artigos importantes publicados por Mauss em periódicos diversos.2 Mas seria injusto não mencionar que – com a generosidade inata que o fazia despejar em conversas e aulas um mundo de ideias novas e fecundas, usadas mais tarde por outros em teses e livros – Mauss dispersou uma infinidade de relatórios que escreveu para o Année. Ele considerava que esses relatórios não deveriam ser análises ou julgamentos críticos, mas, tanto quanto possível, elementos construtivos. É nas páginas do Année Sociologique que Mauss deu o melhor de si e é continuando essa obra na linha de seu espírito que acreditamos prestar a melhor homenagem ao mestre e amigo desaparecido.

 

* Escrito em 1950 por Henri Lévy-Bruhl; publicado originalmente em L’Année Sociologique, 3a série, v. 2. Paris: Puf, 1951. A tradução aqui apresentada é de Maria Teresa Resende Costa e foi publicado ao final da edição da Ubu de Sociologia e antropologia.

* Na foto da postagem, uma carta que o antropólogo Henri Hubert escreveu a Marcel Mauss.

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