In memoriam de Maria Lucia Montes


A Ubu faz uma homenagem a Maria Lucia Montes, que foi uma grande mestra e pensadora do Brasil. Publicamos agora o texto que ela escreveu para o livroA�Sobre o sacrifA�cio, de Hubert e Mauss, que ilustra sua erudiA�A?o e capacidade de articular contextos culturais os mais diversos para compreender o significado de fenA?menos humanos.
 

 
Este ensaio de Marcel Mauss, escrito em colaboraA�A?o com Henri Hubert em 1899, flagra num momento inaugural um pensamento que jA? entA?o revelava toda sua riqueza. Tal como LA�vi-Strauss nos fez compreender em relaA�A?o ao a�?Ensaio sobre a dA?divaa�?, aqui tambA�m o fascA�nio consiste em ver a multiplicidade empA�rica reduzir-se A� unidade do conceito: nA?o se trata de inventariar as modalidades e formas de sacrifA�cio, mas de desvendar a lA?gica que comanda sua realizaA�A?o.
NA?o por acaso, Mauss descarta os estudos etnogrA?ficos de seus contemporA?neos, que buscam em formas histA?ricas simples a origem do sacrifA�cio e sua evoluA�A?o. Ao contrA?rio, ele se concentra em dois exemplos a�� os sacrifA�cios judaicos e vA�dicos a�� que, tomados de religiA�es opostas em seus princA�pios, mas contextualizados em culturas definidas, podem ser considerados como tA�picos, permitindo explicar o fenA?meno por meio de uma comparaA�A?o bem fundada. Se hA? formas simples a se buscar, sua anterioridade A� lA?gica, nA?o cronolA?gica, pois o social sA? se explica pelo social. Aqui Mauss, colaborador de Durkheim, esclarece a natureza do sacrifA�cio ao revelar seu mecanismo, mostrando sua funA�A?o social.
De uma perspectiva antropolA?gica, os textos sagrados hindus e judaicos prescrevem aA�A�es, explicitam representaA�A�es e refletem valores e emoA�A�es que organizam a conduta de sacerdotes e fiA�is frente a diferentes modalidades de sacrifA�cio e nas sucessivas etapas de sua realizaA�A?o. Ao comparar as descriA�A�es feitas a partir do olhar de seus participantes, Mauss pode perceber recorrA?ncias e variaA�A�es para construir o sistema do sacrifA�cio, ao qual entA?o podem acrescentar-se elementos anA?logos de outras culturas, uma vez constituA�da a totalidade na qual encontram seu lugar.
Nesse sentido, pode-se entender atA� mesmo um orA? de terreiro de candomblA�, sacrifA�cio nA?o contemplado neste texto, mas que ele esclarece, porque trata de estruturas socioculturais e psA�quicas imemoriais que presidem ao sacrifA�cio. Aqui vemos o alcance de uma anA?lise como a deste pequeno ensaio genial: ele nos ensina a compreender o que vivenciamos, entre a exaltaA�A?o e o terror do sagrado, na experiA?ncia do sacrifA�cio.