Juana InA�s A� uma das sA�ries mais feministas da Netflix – Blog da Ubu editora

Juana InA�s A� uma das sA�ries mais feministas da Netflix


PorA�Helena Vitorino

 

Juana InA�s de Asbaje foi a primeira feminista das AmA�ricas. Nela, se concretizou tudo que havia de mais ousado, complexo e inimaginA?vel para uma mulher no sA�culo 17: nascida na ColA?nia do MA�xico, era filha ilegA�tima de um militar espanhol e de uma criolla nativa; autodidata, aprendeu a ler e escrever aos trA?s anos; mais tarde viria a dominar o PortuguA?s, o latim e o NA?uatle, lA�ngua de origem asteca, falada apenas pelos escravos. Ainda muito jovem leu os clA?ssicos gregos e romanos, aprendeu teologia, astronomia, fA�sica e poesia, o que a tornou numa sofisticada intelectual de apenas 16 anos de idade.

Mas seu destino se afunilou entre as duas A?nicas possibilidades plausA�veis a mulheres nA?o nobres da colA?nia espanhola: enterrar-se no casamento ou no convento a�� optando pela segunda opA�A?o. Sor Juana teceu uma incrA�vel vida de coragem e de nA?o conformismo, combatendo o machismo e a opressA?o na Igreja CatA?lica e na sociedade espanhola, tendo sempre como sua maior devoA�A?o a paixA?o pelo conhecimento e pelos estudos.

Na sA�rie, Juana InA�s de Asbaje A� interpretada pelas atrizes mexicanasA�Arantza RuizA�e Arcelia Ramirez, respectivamente em sua adolescA?ncia e vida adulta. Cercada de cA?digos de conduta machistas e de pressA�es sociais, Juana InA�s, ainda adolescente, procurava um ambiente em que pudesse desenvolver conhecimentos e estudos, sonhando em um dia ingressar na Universidade, local estritamente masculino. A A?nica saA�da foi tentar uma vaga de Dama de Companhia da famA�lia do Vice Rei da Espanha na ColA?nia, na esperanA�a de ampliar seu acesso a bibliotecas e conhecer intelectuais. Mas todos aqueles volumes encapados que ansiava, contendo escritos dos maiores autores de todos os tempos, Galileu, CopA�rnico e Giordano Bruno, foram ardorosamente proibidos A� Juana InA�s logo nos primeiros dias na Corte. Os homens do vice-reinado desprezavam sua inteligA?ncia, tomando-a por arrogante juvenil, enquanto as mulheres da corte a menosprezavam por querer ir alA�m do que era permitido a uma mulher de sua A�poca.

Apenas duas amizades se fizeram intensas no complicado perA�odo de Juana InA�s como Dama de Companhia: a do padre Antonio NuA�ez de Miranda, seu confessor e tambA�m seu maior crA�tico; e a Vice Rainha Leonor de Carreto, Marquesa de Mancera, que se tornou aficionada por Juana InA�s. A sabedoria, os poemas e a ousadia da jovem dama despertaram em Leonor a diversA?o que nA?o compartilhava desde que saA�ra da Espanha, o que fez com que a moA�a se tornasse sua protegida. Mais tarde, no entanto, a obsessA?o da Vice Rainha acabaria com a vida de Juana InA�s no PalA?cio, quando boatos sobre uma possA�vel relaA�A?o lA�sbica entre as duas passaram a circular pela Corte. Rejeitada por todos a seu redor, Juana InA�s teve uma A?nica escapatA?ria, imposta por Padre Nunes: tornar-se monja, ou Sor, e passar a viver no convento das IrmA?s JerA?nimas. LA?, a pensadora se tornaria Sor Juana InA�s de La Cruz, e passaria a travar batalhas mais acirradas contra o poder patriarcal da Igreja CatA?lica.

 

Uma sA�rie feita por mulheres

A grande vantagem de haver mulheres contando a histA?ria de mulheres A� que o essencial A� empatia pode sempre prevalecer, em detrimento do sensacionalismo. Brilhantemente conduzida pela diretora PatrA�cia Arriaga Jordan, a sA�rie adquirida pela Netflix explora os meandros do machismo na vida das mulheres das AmA�ricas no sA�culo 17, sendo elas intelectualizadas ou nA?o. O poder opressor patriarcal A� instituA�do largamente no papel de Padre NuA�ez, que trabalha largamente para aniquilar a vocaA�A?o de Juana InA�s, com a falsa intenA�A?o de a�?proteger sua reputaA�A?o e espiritualidadea�?. O padre, que a obriga a ingressar na instituiA�A?o religiosa, nA?o aceitava ter uma concorrA?ncia intelectual A� sua altura, e assim como os sacerdotes e eclesiA?sticos da A�poca, acreditaram que encerrar Juana InA�s no convento significada pA?r fim a seus instintos de erudiA�A?o e sabedoria.

A sA�rie tambA�m aborda a questA?o da sexualidade e do afeto de forma delicada e transparente, expondo as circunstA?ncias que levavam muitas mulheres a buscarem umas A�s outras. O descaso masculino com suas inteligA?ncias, sensibilidades e poder de raciocA�nio as aproximavam, e a agressividade e rudeza dos homens da A�poca fazia com que muito de suas intimidades fossem compartilhadas entre elas. Neste seio de calor e acolhimento, Juana InA�s pA?de estabelecer os laA�os de cumplicidade e carinho que acalentaram sua alma quando as mais duras provaA�A�es vieram.

A monja denunciava o machismo da A�poca em seus poemas, como no cA�lebre relato a que chamou de a�?Homens EstA?pidosa�? (1689). Seus escritos eram polA?micos por questionarem o papel da mulher na sociedade mexicana, e por questionarem a conduta de padres e bispos durante o vice-reinado na ColA?nia. Defendeu atA� o final de sua vida o direito da mulher de aprender, de estudar e de lecionar, condenando todo tipo de censura ao cultivo da inteligA?ncia e da sabedoria pelas mulheres. Por sua postura, Juana InA�s foi severamente combatida dentro e fora dos conventos, culminando em sua quase expulsA?o e excomunhA?o da Igreja.

A sA�rie foi indicada a 14 prA?mios do Festival Pantalla de Cristal, dos quais ganhou em 11 categorias. Exibida pela Netflix, a sA�rie A� uma obra fundamental a todos aqueles que querem conhecer as raA�zes da literatura latino-americana e o surgimento do pensamento feminista nas AmA�ricas. Ver uma representaA�A?o tA?o intensa e bem estruturada de uma mulher que viveu hA? tanto tempo e lutou para resistir numa sociedade machista dA? oxigA?nio para as lutas atuais, fazendo crer que, se ela conseguiu viver e produzir belA�ssimos conteA?dos em meio ao caos, nA?s tambA�m podemos, nos espelhando neste grande exemplo chamado Juana InA�s de Asbaje.

 

Texto publicado em maio de 2017 no site Lado M

 

 

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