Jarry_veloc

Jarry, supermoderno – por Paulo Leminski


A folhas tantas do seu Manifesto do surrealismo (1924), André Breton rascunha um esboço de árvore genealógica do movimento da “escrita automática” e do sonho acordado, de que sempre foi uma espécie de papa:

Poe é surrealista na aventura.

Baudelaire é surrealista na moral.

Rimbaud é surrealista na prática da vida e alhures.

Mallarmé é surrealista na confidência.

Jarry é surrealista no absinto.

Alfred Jarry, porém, foi mais que um simples bebedor da terrível bebida, quase psicodélica, que levava os poetas ao delírio, antes de matá-los em algum sanatório.

Antes de morrer, aos 32 anos, ele teve tempo para deixar atrás de si uma esteira de lendas de excentricidade e extravagância, a Patafísica – “ciência das soluções imaginárias” –, meia dúzia de livros e uma contribuição definitiva para a história do teatro, na figura do Pai Ubu. Dramaturgo e teatrólogo, como é mais conhecido, Jarry é precursor das práticas teatrais mais avançadas do século XX, o século em que, sob o impacto do cinema, do circo e do teatro exótico (Nô, Kabuki), Meyerhold, Piscator, Brecht, Antonin Artaud, Beckett e Ionesco dariam nova vida à arte de Sófocles, Shakespeare, Racine e Ibsen.

Seu ensaio “De l’Inutilité du Théatre au Théatre” (1896) expõe os princípios da sua dramaturgia: esquematização dos caracteres, das ações, do cenário, repúdio ao “realismo” e à psicologia. Como vai ser lindo o século XX.

Fonte: Ilustração da primeira edição de O Supermacho (1902)

Fonte: Ilustração da primeira edição de O Supermacho (1902)

Rabelais. Sade. Nerval. Lautréamont. Rimbaud. Corbière. Raymond Roussel. Duchamp. Artaud. Breton. Drieu. Céline. Ponge. Queneau. Butor. Existe, de tocaia, uma linhagem louca naquela literatura que, estabilizada por Malherbe e Boileau, teve um começo legal na Academia, fundada pelo cardeal de Richelieu, e parece ser a mais “careta” das literaturas, uma literatura normal e normalizadora, muito zelosa da estabilidade de certas formas,do equilíbrio, da manutenção de um certo “bom gosto”, decoro canonizado com “o Gosto”,“génie latin” de Anatole France.

Nessa linguagem, Jarry não foi o menos “louco”. Nascido em Laval, no noroeste da França, Jarry deixou a lenda de uma vida tão bizarra quanto suas produções. A fábula das suas singularidades corria de boca em boca, na Paris da Belle Époque. Pescava seu almoço no Sena. Aficionado por matemática e física, estudava heráldica horas a fio. Quando lhe pediam fogo, puxava um revólver, que Picasso depois veio a obter e guardava como uma relíquia. Sua fotografia mais conhecida mostra-o andando de bicicleta, invenção recente, que era uma das suas paixões (tendo um papel fundamental em O Supermacho, onde o superalimento do cientista americano é experimentado nos ciclistas que fazem a corrida das Dez Mil Milhas, hipérbole sobre duas rodas da potência sexual infindável do Indiano).

Fonte: Le tone dessine

Fonte: Le tone dessine

 

Para nós, brasileiros, sua figura não pode deixar de lembrar a de Santos Dumont, tão excêntrico quanto ele, que vivia e tentava voar naquela mesma Paris da primeira década do século XX, quando viajar pelos ares parecia ser uma obsessão emblemática daquele momento de espantosas novidades e ilimitados horizontes tecnológicos. Jarry também voou. Não em balões ou dirigíveis. Mas em criações dramáticas e textuais muitos pés acima do chão de seus contemporâneos, cabeça enfiada alguns quilômetros para dentro do futuro.

O verdadeiro culto que Dadá e os surrealistas lhe tributaram é mais que justificado: na rigorosa hierarquia poundiana, Jarry, supermoderno, é um “inventor”, um dos escritores mais originais deste século, “herói fundador” de tantas singularidades que, depois de virarem moda, viraram sistema.

Centauro de fantasia erótica com romance de ficção-científica, Supermacho, de 1902, chamado pelo autor “romance moderno”, faz par com Messalina, de 1901, “romance da antiga Roma”.

Nos dois “romances”, um no passado, outro no futuro, o herói é, num, um homem, no outro, uma mulher, dotados da capacidade de praticar o amor físico além dos limites humanos, “indefinidamente”. Priapismo e ninfomania: hipérboles da sexualidade.Cenas de evidente marcação teatral. Jogos de palavras, de árdua decifração e recriação. O fio do enredo sustentado por trocadilhos. Um espírito lúdico libertado de amarras lógicas. A pontuação arbitrária e caprichosa.

O tom meio erudito, meio circense. As imagens e comparações insólitas e delirantes. Alguma coisa de muito criança com qualquer coisa de muito velho. A escritura de Jarry é de alta imprevisibilidade. Não era provável que, em 1902, alguém chamado Alfred Jarry publicasse este romance que vocês acabam de ler, vocês não acham?

–––

–––

Esta apresentação de Paulo Leminski é parte de nossa edição de O Supermacho, cuja tradução também é assinada pelo poeta.

_

livros relacionados

O Supermacho
Alfred Jarry

Untitled-1