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Bastidores das ilustrações: Andrés Sandoval e O Supermacho


Nada como conhecer o ateliê para conhecer o artista. O de Andrés Sandoval, no centro de São Paulo, está repleto de histórias. À primeira vista, paredes cheias de fotos de uma viagem que fez recentemente à sua cidade natal para mergulhar em suas origens. Chuquicamata fica no deserto do Atacama, no Chile, e é uma das maiores minas a céu aberto do mundo. A data de nascimento do artista corresponde à do golpe militar no país, ocorrido em 1973. Três anos depois sua família imigrou para o Brasil.

Nessa visita ao ateliê descobrimos uma das matérias primas essenciais de seu trabalho: sua coleção de carimbos. Novos, antigos, pequenos, grandes, presenteados, encomendados, letras, desenhos, símbolos. Andrés conta que os carimbos utilizados para ilustrar O Supermacho foram presente de uma amiga anos atrás. “O processo é esse, alguns carimbos chegam e ficam anos guardados antes de serem usados. Com O Supermacho foi assim; o projeto surgiu e escolhi carimbos que dialogavam com a história.”

 

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Enquanto nos mostra sua coleção, Andrés descreve o processo de fabricação de um carimbo.

 

Os carimbos de borracha que usei no livro são feitos num sistema quente. Quando visitei o ateliê do Vincent Sardon em Paris vi carimbos sendo feitos assim. Acho que ele inventou um jeito próprio de fazer, mas usa procedimentos tradicionais da época do Jarry e usados no Brasil até os anos 60. Há vários trabalhos do Antônio Manuel usando flans e borrachas, vale ler este artigo.
De todo modo, o procedimento que vi é este:
1. A borracha (alto-relevo), uma lâmina de látex, é prensada no calor contra uma matriz chamada de flan (baixo-relevo).
2. O flan também é gravado, prensado à quente contra uma matriz que é um fotopolímero (alto-relevo). O flan só fica duro e resistente depois de prensado no calor. É como um cartão escuro misturado com outros produtos.
3. O fotopolímero (alto-relevo), que lembra um acrílico amarelado, é feito num processo químico de revelação: o que fica exposto à luz fica mole e lavável. O que fica protegido da luz, endurece e vira a matriz. Essa proteção é um fotolito.
4. O fotolito pode ser conseguido de várias formas, usando uma impressora comum e um acetato. Ou um desenho feito diretamente sobre o acetato. O importante é que na parte impressa a luz não passe.
Hoje os carimbos normais são fotopolímeros. Quanto à durabilidade, diria que a indústria se diversificou e os polímeros usados atendem a uma demanda de mercado: ninguém precisa de carimbos mais do que 5 anos. Depois disso eles começam a ficar moles e pegajosos e é preciso mandar fazer outro.

 

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Há ainda duas outras superfícies que influenciam o aspecto final da carimbada: a almofada de tinta e o próprio papel, que pode ser mais ou menos absorvente. O artista prefere usar uma almofada lisa, para não gerar uma nova camada de textura, que poderia brigar com a do próprio carimbo. Para o projeto da Ubu, ele utilizou como base o papel couché que, por ser encerado, absorve menos a tinta e a fixa no lugar em que é aplicada, garantindo a precisão do desenho.

Para ilustrar o livro, Sandoval pesquisou a figura de Alfred Jarry e o universo artístico em torno do escritor – muito admirado por Duchamp, Miró, William Kentridge, entre inúmeros outros. Nessa pesquisa encontrou a imagem do revólver que, embora não esteja diretamente ligada à narrativa, é uma das excentricidades de Jarry – o autor era conhecido por sair munido de uma pistola, que foi adquirida por Picasso após sua morte.

 

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A imagem da máquina e a busca pelo ilimitado ocupam papel central no enredo de O Supermacho. A ideia do carimbo como algo industrial, que permite repetições infinitas, foi um dos elementos que direcionou o trabalho. Assim como no romance de Jarry, o natural e o artificial, o corpo e a máquina, aparecem intimamente ligados nas ilustrações, que têm como matéria-prima carimbos da forma de coração anatômico, lâmpada, flores, boca, letras e números. Fundamental no romance e adorada pelo escritor, a bicicleta não poderia ter ficado de fora.

O artista optou por usar poucos carimbos e explorar ao máximo as potencialidades de cada um, bem como as possibilidades de combinação entre eles. Ele usou máscaras – moldes feitos de papel que permitem usar partes diferentes de cada carimbo – e variou a pressão no momento de aplicar a tinta, criando figuras que reproduzem a inventividade, a irreverência e o quê de ficção científica que caracterizam a obra, profundamente moderna, de Alfred Jarry.

 

 

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