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Humor como uma chave para o desenvolvimento da criança


Por Lawrence Kutner

 

O que as crianças acham engraçado nos diz muito sobre seu nível de desenvolvimento e sobre o que ocupa sua mente. Existe uma conexão entre uma criança de 2 anos que tem um ataque de riso ao ouvir a frase sem sentido “babá, bebê, bibi” e o jovem adolescente que ri da obscenidade de uma piada vulgar.

 

As coisas específicas que fazem as crianças rirem revelam com quais tarefas relativas a seu desenvolvimento estão lidando. Esse é um padrão que atravessa a infância. Ele explica por que crianças de 3 anos, que frequentemente ainda estão tirando as fraldas, são atraídas por humor escatológico, enquanto as de 7 anos, que já não consideram a ida ao banheiro uma questão, pensam que essas piadas são bobas. Rir e sorrir estão entre os comportamentos mais humanos. Um bebê de 12 horas de vida vai moldar sua boca no que parece um sorriso ante o cheiro de uma banana ou de outro alimento doce. Nosso sistema nervoso parece estar conectado para nos fazer sorrir. Nenhum aprendizado ou imitação são necessários. A risada verdadeira, que é mais complexa, não aparece até alguns meses mais tarde.

 

As crianças aprendem algumas coisas muito complexas durante os primeiros doze meses de vida, a começar pelo entendimento de que elas são indivíduos separados de seus pais. Logo se inicia a compreensão de que objetos e pessoas existem, mesmo quando eles não estão à vista. Essa é uma percepção muito profunda. Quando a mãe deixa o cômodo, ela está fazendo outra coisa e em algum momento voltará. Um brinquedo colocado atrás de uma barreira de papelão pode ser obtido pelos lados ou por cima. Ao estender o braço para pegar o brinquedo, a criança mostra que entende o conceito de que pessoas e coisas têm uma existência física mesmo quando não são vistas. (A primeira vez que tentei esse teste com meu filho de 6 meses ele tentou comer a barreira de papelão!).

 

Poucas coisas despertam tanta risada em uma criança de 1 ano como a brincadeira do peekaboo (“Cadê? Achou!”). Porém, uma de 6 meses mal vai reagir ao jogo e uma de 6 anos vai achá-lo chato. Rir dessa brincadeira é sinal de um certo nível de desenvolvimento intelectual. A intensidade da risada da criança de 1 ano revela que ele ou ela “entendeu”: Aquela é a minha mãe atrás daquelas mãos! É uma percepção que teria escapado à criança apenas algumas semanas ou meses antes.

 

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A mesma brincadeira ainda funciona se feita em silêncio. Assistir ao rosto da mãe desaparecer atrás de suas mãos estimula a criança, que sabe que a mãe está lá e prevê que ela vai reaparecer. Trata-se de uma situação tensa. Quando o rosto da mãe volta a ficar visível, a criança fica aliviada e ri com entusiasmo. O que era assustador, agora é divertido, porque a criança pode prever o futuro. No entanto, se a mãe deixar seu rosto escondido por muito tempo, a tensão da criança se transformará em medo e ela irá chorar.

 

Assim que as crianças entendem um conceito, elas se divertem muito brincando com ele. Aos dois anos, quando estão começando a dominar os meandros da linguagem, elas vão rir incontrolavelmente quando ouvirem uma combinação de sílabas sem sentido e de palavras. Elas entendem que as sílabas sem sentido são diferentes das palavras. Os sons estão fora de lugar. Eles são engraçados.

 

Outras coisas que estiverem fora de lugar provocarão a mesma risada em crianças de 2 anos porque elas estão aprendendo que o mundo tem uma ordem. Colocar uma meia em um pé não é engraçado. Colocá-la em uma orelha é hilário para as crianças dessa idade, pois elas percebem que a meia não pertence a esse lugar. Elas compartilham seu domínio daquele conhecimento por meio da risada.

 

Crianças nessa idade podem também nos dizer pela primeira vez que elas estão fazendo uma piada. Ao contrário da criança mais nova brincando de peekaboo, a de 2 anos que se diverte com a meia controlou o estímulo da risada.

 

Uma criança de 6 anos não acha tão engraçado como antes quando a mãe finge desaparecer ou quando meias se encontram fora de lugar. O desafio e a tensão dessas tarefas foram substituídos por um prazer recém-adquirido da lógica e das abstrações. As charadas e piadas de uma criança de 6 anos frequentemente contêm justaposições absurdas, jogos de palavras ou falhas lógicas. “Por que a elefanta pintou suas unhas do pé de vermelho?” “Para que ela pudesse se esconder no canteiro de morangos.” “What did the baby ghost say to the bully ghost?” “Leave me alone or I’ll tell my mummy!” “What’s the best month for a parade?” “March.”[1] Elas são uma versão simples do humor que apreciamos quando adultos.

 

O conteúdo dessas piadas reflete os embates de uma criança de 6 anos com os meandros do pensamento lógico e sua progressiva facilidade com a linguagem. A elefanta que pensa que vai se camuflar em um canteiro de morangos, ao incorporar um de seus aspectos superficiais, não entende algo que a criança agora entende. Trata-se de uma imagem engraçada para crianças de 6 anos porque elas podem imaginar a elefanta que tenta em vão se esconder e se identificar com ela. A criança pequena sabe mais do que a elefanta grande. Esse conhecimento confere um poder que pode ser exibido.

 

A piada do fantasma (ghost) e do desfile (parade) faz uso das habilidades de linguagem cada vez mais sofisticadas da criança. “Mummy” soa como “mommy”, mas não é uma associação aleatória. O bebê fantasma pede proteção para um ser maior e mais forte, assim como faria a criança. Ela usou um jogo de palavras para superar algo assustador (uma múmia) e transformá-lo em algo protetor (uma mamãe). De maneira similar, a piada do desfile permite à criança mostrar seu domínio da ideia de que uma palavra pode ter diversos significados. Esse é um conceito muito difícil, que crianças mais novas não conseguem assimilar.

 

O tom inocente das piadas das crianças muda antes de elas saírem da escola primária. Por razões que os psicólogos ainda não entendem completamente, no quarto ou quinto anos meninos e meninas riem de coisas diferentes. Quando os meninos têm 10 anos, eles contam piadas que são fisicamente muito violentas e muito sexuais. Meninas nessa idade gostam de humor que é menos agressivo fisicamente, porém mais verbalmente, talvez porque elas tenham, em média, capacidades verbais melhores que os meninos. Elas provocam uma à outra em relação a namorados e agem como caricaturas das vamps que elas veem nas novelas de televisão. As piadas ajudam a definir o pertencimento a um grupo social específico. Aqueles que entendem a piada pertencem ao grupo; os outros ficam fora.

 

Apesar das diferenças aparentes, tanto os meninos quanto as meninas usam o humor para conquistar os mesmos objetivos. Para jovens adolescentes, o humor é uma maneira indireta de lidar com as questões de maior importância para eles, como a sua sexualidade. Um menino de 11 anos que ri de uma piada sobre prostituição ou aborto não está necessariamente fazendo um julgamento sobre nenhum dos assuntos. Os temas são emocionalmente muito estressantes para que ele lide com eles diretamente. Ao invés disso, ele usa a piada como uma oportunidade para determinar normas culturais e um comportamento aceitável. Ela oferece a ele a chance de experimentar uma posição e, se necessário, recuar dela rapidamente, dizendo “Eu estava apenas brincando”.

 

 

Lawrence Kutner é um conhecido psicólogo clínico americano que leciona na Harvard Medical School, onde é cofundador e codiretor da Harvard Medical School Center for Mental Health and Media.

 

Este artigo foi originalmente publicado em inglês e pode ser encontrado aqui.

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[1] Optamos por manter as piadas no idioma original pela dificuldade em encontrar exemplos equivalentes em português. A primeira piada traz um bebê fantasma que ameaça delatar outro fantasma se esse não o deixar em paz. Ele diz que vai contar o fato para sua “múmia”. Assim, a piada explora a similaridade de sons das palavras “mamãe” e “múmia” em inglês. Na segunda, há uma brincadeira com a polissemia de “March”: a palavra pode se referir tanto ao verbo marchar, quanto ao mês de março. Desse modo, a resposta pode ser entendida tanto como o mês ideal para o evento, quanto como um comando para marchar.