Você sabe o que é um ex-libris?


Uma das vantagens de assinar o plano mensal com fidelidade do Circuito Ubu, o clube de assinatura e leitura da Ubu, é que junto de sua primeira caixa você recebe um carimbo ex-libris desenhado pelo ilustrador Andrés Sandoval. Saiba mais sobre essa “arte em miniatura, a um só tempo instrutiva e de entretenimento”, que se estabeleceu durante o Renascimento.

Carimbo ex-libris da Ubu

Texto por: Dorothée de Bruchard.

O ex-libris […] é [uma espécie de gravura inserida] geralmente nas primeiras folhas de um livro ou na contracapa, contendo o nome ou as iniciais do proprietário e podendo, através de uma imagem ou texto, indicar sua profissão, seus gostos, seu ideário, ou até (nem sempre) discreto lembrete a eventual surrupiador da obra. O ex-libris do desenhista e caricaturista francês Gus Bofa (1883-1968), por exemplo, indagava sarcástico: “Esse livro pertence a Gus Bofa. / O que está fazendo aqui?”

Por meio do ex-libris é que os bibliófilos, ou os leitores que prezam os seus livros e se orgulham da sua biblioteca, costumam personalizar cada um dos seus volumes. Daí, justamente, a origem do nome: em latim, ex libris significa “dentre os livros de”, “da biblioteca de”. A expressão – às vezes também se usava ex dono ou ex biblioteca – inscrita no corpo da obra seguida do nome do proprietário, indicava a sua proveniência.

É difícil determinar a origem exata do ex-libris, embora a necessidade de assinalar a posse do livro seja aparentemente tão antiga quanto o próprio, sendo registrada desde a Antiguidade: o Museu Britânico abriga, junto a uma caixa de papiros de cerca de 1.400 a.C., uma plaquinha de cerâmica indicando que pertenceram ao faraó egípcio Amenófis IV. Entretanto, o emprego do ex-libris tal qual o conhecemos se estabeleceu de fato durante o Renascimento, com a difusão do livro tipográfico.

[…] O ex-libris sempre manteve […] um caráter heráldico, não raro ostentando emblemas, monogramas, divisas, quer de indivíduos, famílias, quer de instituições, cidades, corporações.

[…] Ricos bibliófilos chegaram a utilizar espécies de ex-libris fixos, que eram parte integrante do livro: alguns, gravados ou impressos numa folha à parte, se incorporavam ao volume quando da encadernação – eram os “ex-libris encadernados”; havia também as vinhetas, ou brasões, gravados ou dourados na própria encadernação, na lombada e até nos cortes do livro.

Entretanto, foi se difundindo mais e mais o ex-libris móvel, colado dentro do volume, em geral no verso ou no reto de suas folhas iniciais – guarda, ou rosto. Os mais modestos eram confeccionados pela mesma técnica da tipografia – constituindo as chamadas etiquetas tipográficas, com um texto, às vezes acompanhado de desenho ou marca gráfica, comuns ainda hoje em dia. Surgiriam, em seguida, os belos ex-libris gravados – obtidos pelas diversas técnicas da gravura, sobretudo da xilogravura ou gravura em metal.

[…]

Com a crescente difusão do livro impresso, a partir do século XVI, e a consequente multiplicação dos leitores e das bibliotecas, foi se vulgarizando em toda a Europa o uso do ex-libris, antes restrito a ricos bibliófilos e instituições, atraindo desse modo o interesse de vários artistas. Assim, embora permanecessem, até hoje, algumas marcas mais rústicas de posse (manuscrita, ou carimbos e selos), o ex-libris foi paulatinamente, para além da funcionalidade, agregando um valor estético: difundia-se mais e mais o ex-libris artístico.

[…]

Datam [do século XIX] algumas classificações que ainda hoje vigoram entre os ex-libristas, para distinguir os ex-libris de acordo com seus temas: heráldicos, paisagísticos, simbólicos, eclesiásticos, eróticos, humorísticos etc.

Pelo final do século XIX o ex-libris deixa de ser apenas um objeto funcional, de interesse pessoal, com qualidades artísticas, e adquire valor e significado em si: torna-se objeto de estudo e de desejo, objeto de coleção.

[…] Ao mesmo tempo em que era melhor compreendido e apreciado, acrescentando inclusive valor comercial ao livro, o ex-libris começa a perder do seu prestígio por conta da banalização: para alimentar as coleções, por modismo, e graças à crescente automação das técnicas gráficas, passaram a proliferar ex-libris fabricados em série, deteriorando-lhes o valor e interesse.

Só no final do século XVIII é que ele começa a disseminar-se em terras brasileiras. O primeiro de que se tem notícia teria pertencido a Manoel de Abreu Guimarães, de Sabará, Minas Gerais, possivelmente comerciante já que representa uma lira, numa alusão às artes, à indústria e ao comércio.

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Fontes
BRUCHARD, Dorothée de. “Ex-libris: belas histórias de arte, de vida e de amor aos livros”, in MARTINS FILHO, Plinio (org.). Ex-libris: Coleção Livraria Sereia de José Luís Garaldi. Cotia: Ateliê Editorial, 2008, pp. 11-16.
HEIN, Wolfgang-Hagen; BORCHARDT, Albert. Apotheker-Exlibris: aus Deutschland, Österreich und der Schweiz. Lengerich: Govi-Verlag, 1997.