Ai Weiwei sobre a América Latina


A Ubu tem em catálogo um livro sobre a obra do chinês Ai Weiwei. Nele estão duas entrevistas feitas com o artista pelo curador Marcello Dantas. Uma durante sua estadia no Brasil, em 2018, e outra quando estava no Chile, em 2017. Fizemos para esta postagem uma seleção de três questões das entrevistas relacionadas à percepção de Weiwei sobre a América Latina.

 

[Marcello Dantas] Que sentimentos sua primeira viagem à América Latina lhe provocou?

[Ai Weiwei] Para mim, a América Latina ainda é como o romance de García Márquez, Cem anos de solidão. É realismo mágico. As coisas parecem reais, mas há algo fantástico no ar. A natureza, as pessoas, e a maneira como elas entendem o tempo e o espaço são muito diferentes de uma sociedade industrializada. Acho que a cultura latino-americana é muito rica.

 

Você veio [ao Brasil] pela primeira vez há um ano, e depois disso já passou por aqui umas quatro ou cinco vezes. Sua impressão se modificou no decorrer desse período?

Ainda é difícil para mim analisar a experiência. Sou chinês. Falo chinês. Vivi na China por mais de quarenta anos. Mas se você pede minha opinião sobre meu país, é muito difícil até conversar sobre isso. Parece que, quanto mais tempo você fica lá, menos certezas tem. Só consegue falar por comparação, mas comparação com o quê? Com a Europa ou com a China? Ou com os Estados Unidos? Ou com outros países latino-americanos, Chile, Argentina ou México? É muito difícil para mim fazer uma ideia clara. Penso muitas vezes que não existe essa coisa de “você” e “eu”. Eu não existo; existo em relação àquilo que fiz. Todos que olham para Weiwei pensam em certos acontecimentos, ou certas situações, ou certas obras, ou certas coisas idiotas que ele fez, como as selfies. Acham que isso é que é Weiwei. Para mim, não faz diferença. Sei o que fiz no passado, mas sou uma pessoa que nunca olha para trás. Quero descobrir o que está à minha frente, o que será minha próxima refeição, com quem vou sentar para conversar. Então, na verdade, minha existência, ou meu futuro, podem ser completamente diferentes. O que conta são minhas novas experiências. Minha experiência na América Latina consiste na realização, segundo suas palavras, de uma “mutuofagia”. Tenho que dar uma mordida; tenho que comer o fruto, ver as obras desses artistas, trabalhar com os carpinteiros e ver o que é possível, examinar a política e as questões locais. Essas coisas formam “Ai Weiwei no Brasil” e isso é uma parte de mim. Se eu não tiver essas experiências, não terei essa parte de mim e não teria uma desculpa persuasiva nem mesmo para fazer uma exposição de arte aqui. O que é a arte? Para mim, ela está no processo. A partir do processo, descobrimos uma parte nossa, que poderia ser uma habilidade ou uma deficiência, alguma incapacidade. A gente começa a compreender como os problemas podem levar a áreas desconhecidas.

 

Um dos aspectos chave da cultura brasileira é nossa antropofagia mítica, ou canibalismo. Absorvemos as culturas uns dos outros e as digerimos à nossa maneira. Esse projeto lhe ofereceu a possibilidade de absorver uma cultura e digeri-la à sua própria maneira. Isso é novo para você?

Acho que o Brasil, sendo um país imenso e com o meio-ambiente mais rico deste nosso pequeno planeta, exerce um forte impacto visual e psicológico. Acho que é mais importante do que podemos compreender, porque, como humanos, temos uma visão muito curta. Só absorvemos o que queremos, o resto esquecemos. A natureza nos oferece muito mais e é muito mais sábia do que o que nosso pequeno cérebro pode imaginar. Mas é muito difícil, porque precisamos de uma linguagem para descrever nossos sentimentos. As linguagens são estruturadas por vocabulários e criadas por nossas experiências. […] Assim, como artistas, ficamos numa situação extremamente difícil, porque temos de criar a linguagem a partir do nada. Por isso estou interessado nessa árvore.* Essa árvore pertence à terra, à floresta tropical. Ela tem suas próprias razões para crescer; chegou milhares de anos antes da gente e é indiferente a nós. Um belo dia, vem um artista chinês e presta atenção nela. Ele quer uma cópia dessa árvore. Mas, obviamente, não se pode tocar a árvore, ela pertence à floresta. Tivemos a ideia de moldá-la mas moldar uma árvore viva, de trinta metros de altura, é muito trabalhoso. No entanto, se podemos construir arranha-céus em Manhattan, moldar uma árvore de trinta metros não é tão difícil assim. A ideia tinha de vir de um absurdo, porque o absurdo é abrir uma nova porta. Se tudo faz sentido, quer dizer que se seguiu o velho caminho para um velho destino. Então, nós abrimos essa porta. Começamos a pensar em como trazer mão de obra, como torná-la tecnicamente possível. Isso é um verdadeiro pesadelo, mas é interessante. Você trabalha com as duas sociedades. Os trabalhadores e os artesãos vindos da China são extremamente pacientes. Acho que nenhum outro povo seria louco o bastante para fazer o que pretendíamos. Um membro de nossa equipe alemã perdeu completamente a cabeça, mas os chineses são muito resistentes. Na floresta havia abelhas e cobras; algumas pessoas da equipe foram picadas por escorpiões e alguns tiveram de ser enviados de volta à China e substituídos por outros. Eram problemas infindáveis. E também ainda tínhamos que trabalhar com brasileiros. Eles não têm essa mesma disposição para trabalhar rápido, sabe? Têm uma visão da vida mais relaxada, eu diria. Lenta, mas não rica ou pobre. O que é diferente é seu senso do tempo, ou de urgência. Há greves e atrasos, todos os tipos de burocracia. Mas, no final, a árvore foi moldada. A árvore ainda está lá; ainda há ramos com folhas verdes no alto. A única coisa que é diferente é um pequeno barbante vermelho amarrado bem no alto. As abelhas voltarão e a cobra também voltará. Acho que o escorpião deve estar morto [risos]. É interessante pensar que depois de tudo nada mudou; o vento ainda sopra na floresta, que é verde como sempre.

 

* O projeto mais ousado de Ai Weiwei no Brasil consistiu em moldar uma árvore pequi-vinagreiro de 36 m de altura, em Trancoso, na Bahia. O projeto mobilizou diversos trabalhadores chineses e brasileiros, que construíram uma estrutura massiva de andaimes. O molde de silicone, pesando ao todo mais de 12 toneladas, foi finalizado e enviado em blocos para a China, onde a árvore de Trancoso será fundida em ferro.

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Ai Weiwei Raiz
Marcello Dantas (org.)

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