Entrevista com Monique Wittig


Traduzimos trechos da entrevista com Monique Wittig publicada pela revista francesa ProChoix em dezembro de 2008.

1967
Vou falar sobre o meu segundo livro, As guerrilheiras, que eu comecei a escrever em 1967. Eu já tinha um certo número de textos, em particular àqueles da Guerra, que foram escritos antes – pois creio que eu não conseguiria escrevê-los depois do movimento [feminista]. Ocorre que no momento em que escrevia As guerrilheiras, eu encontrei várias mulheres que amava, uma era pintora e escultora e outra atriz, e as duas eram feministas e enfurecidas contra Freud: foi o que nos uniu. Então começamos a discutir e a se perguntar se nós não faríamos primeiro uma leitura feminista bem atenta de Freud, e uma crítica feminista, mas muito violenta, nada de algo gentil e polido. Começamos a ler seriamente e a tomar notas. (…)

1968
Em outubro de 1968, eu me dizia “é louco, este seria verdadeiramente o momento de começar um grupo de mulheres. Eu já tinha uma ideia de um grupo que funcionaria de maneira bem militante – tinha uma ideia de grupos de guerrilha no Vietnam, no Laos, com todas as coisas que tínhamos aprendido com a guerra do Povo. Porque eu sempre tinha a frase de Michelet na cabeça: “As mulheres são um povo no povo” e eu enxergava exatamente assim. (…)

Em seguida, a razão determinante para o desejo de convidar algumas pessoas para se reunir em grupo, foi a leitura de Betty Friedan, A mística feminina. Isso se aproximava da primeira ideia do grupo, de fazer uma crítica à Freud. Pois o que Friedan diz, resumidamente, é que a psicanálise, que foi um certo uso da psicanálise, que levou as mulheres a este grau de fechamento nas margens da desesperança, procurando uma condição feminina impossível, um sonho de identidade feminina completamente burguesa e recolhida, fechada, oprimida. (…)

Naquele momento, minha ideia de reunir algumas mulheres era: já que a psicanálise ainda não se implantou com as mesmas formas na França e na América, e não tem a mesma importância, não podemos chegar ao ponto em que as Americanas são as infelizes. Era preciso, que começássemos a nos organizar e a lutar. Nos tornarmos evidentes, e fazer as coisas, não somente no nível crítico, mas no nível prático. Na rua! Já que saíamos de um movimento político de rua, eu não enxergava porque não ir pra rua. E o que me motivou foi o livro de Betty Friedan.

Eu falei com uma amiga maoista, e ela riu um pouco, e disse “Sim, isso me interessa muito. Por que não?” E em seguida, eu conversei com uma pessoa com quem sempre trocava sobre isso, alguém que sempre foi feminista ao meu ver, uma amiga chamada Josiane Chanel. (…) Josiane me diz: não podemos fazer a reunião sem a Antoinette. E, em seguida, Suzanne concorda em vir também, e decidimos marcar a reunião um certo dia, na casa de Antoinette, , já que ela tinha uma filhinha. Eu me sinto muito emocionada, muito nervosa já que eu tinha sido a responsável por convocar a reunião. Era preciso que eu me preparasse. Então eu li fervorosamente “A origem da família”, reli o quanto pude de Marx, e criei minha pequena teoria feminista e marxista… muito bem inclusive! É a base do artigo da revista Idiot e eu acho que ele é ótimo.

1970
No início dos anos 1970, nós ficamos sabendo que haveria uma reunião nacional das mulheres em algum lugar próximo de Londres, que reuniria todas as feministas, vindas de todos os lugares, em nível nacional. Era a primeira reunião nacional das inglesas, e eu tive tantos problemas de poder com Antoinette, que decidi não participar assembleia nacional em Oxford.

Eu e outras quatro mulheres, decidimos fazer uma intervenção em uma universidade, e pensávamos que o melhor seria em Vincennes (Paris), pois ainda estava fervendo em 1970. Todas as pessoas próximas a Antoinette não estavam de acordo, e nós decidimos preparar a ação em 4. Era preciso ter muita coragem, pois não sabíamos o que fazer. Mas o que aconteceu, foi um milagre. Na primeira reunião, vimos chegar uma, em seguida duas garotas de Vincennes. Nós encontramos 20 pessoas para preparar uma manifestação, que preparamos de fato.

Disponível em Revue Prochoix, nº 46, consacré au MLF : Le mythe des origines, pp. 63-76. Acesse aqui.