A antropologia como descolonização do pensamento


Leia abaixo trechos da entrevista realizada por Cleber Lambert e Larissa Barcellos, durante o 3º Forum International de Philosophie Politique et Sociale, que ocorreu entre os dias 8 e 16 de julho de 2011 na Université de Toulouse 2 Le Mirail, em Toulouse (França). Durante o simpósio, Eduardo Viveiros de Castro apresentou alguns dos temas abordados em seu livro Metafísicas canibais.

PRIMEIROS ESTUDOS [PE] O que o senhor chama de experiência de pensamento, e como isso se relaciona com o trabalho de campo na antropologia?

EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO [EVC] A noção de experiência de pensamento é uma ideia clássica em filosofia. Os filósofos gostam muito de fazer experiências de pensamento, “experiências” no sentido de experimentos. “Experiências de pensamento” significa experimentações imaginárias, feitas em pensamento. Eu usei essa expressão alguma vez, acho que em meu artigo “O nativo relativo” (2002), mas deturpando um pouco o sentido canônico da expressão, até porque eu estava usando isso para falar de antropologia. Usei a palavra experiência em seu duplo sentido, tanto no de ter uma experiência como no de fazer uma experiência. Sobretudo, no de fazer uma experiência com o pensamento alheio, e não no próprio pensamento. Aquilo que os filósofos chamam experimento/experiência de pensamento é um experimento mental, seja porque fazer esse experimento materialmente é muito difícil ou impossível, seja porque o que se quer provar é um ponto teórico: imagine um marciano que chega na Terra e tenta comprar um cigarro. Imagine um selvagem – quem gosta muito disso são os filósofos analíticos, de tradição anglosaxã –, [imagine] o quarto chinês de Searle ou o gavagai de Quine: como é que você descobre que a palavra gavagai que você ouve dita por um selvagem, em uma língua que você desconhece, quando passa um coelho na frente de você e dele, como saber que ela denota o animal coelho e não a pata do coelho, ou a orelha do coelho, ou a corrida do coelho? Bem, no meu caso, fiz uma experiência de pensamento com a noção de experiência de pensamento. Propus definir a antropologia como uma metafísica experimental, que realiza experimentos com o pensamento alheio, o pensamento indígena, tomando-o, por exemplo, como um pensamento filosófico. Como se aquilo que os índios estivessem pensando exprimisse “um pensamento”, como se fala em “pensamento grego”, “pensamento pré-socrático” etc. Vamos tomá-lo como se fosse, o que não quer dizer que ele não seja. Vamos tomá-lo nesse sentido específico, como representando um pensamento. Experimentar esse pensamento, pensar como, imaginar como seria pensar como um índio. E ao mesmo tempo é pensar com o pensamento indígena, porque pensar como o pensamento indígena a gente sabe que só poderia fazer em pensamento, não se pode fazer na realidade porque nós não somos indígenas, mas pensar com esse pensamento é algo que não só se pode como eu entendo que se deve, é um experimento de pensamento fundamental. A antropologia sempre foi concebida e praticada como um discurso sobre os outros, os índios, por exemplo. Estava na hora – não fui o primeiro de jeito nenhum a dizer isso – de dizer com todas as letras que a antropologia precisa pensar com o pensamento indígena, e não pensar simplesmente sobre o pensamento indígena. Tomar esse pensamento como interlocutor, eventualmente polêmico, talvez antagonista, como interlocutor à sua altura, à altura do pensamento antropológico, e não como algo que está em posição de objeto, e você ali em atitude de sobrevoo, em posição de dominância sobre esse pensamento. O antropólogo como aquele que conhece as razões que esse pensamento não conhece. As razões desse pensamento que esse pensamento não conhece. A relação disso com o campo é que essa experiência de pensamento tem que ser feita com base em uma experiência de campo, seja a sua própria, seja a alheia – não precisa ser a sua própria. A relação do antropólogo com a própria experiência é claro que é especial, mas ela não é tão especial assim a ponto de distingui-la absolutamente da experiência que outros antropólogos tiveram com outros povos em outras situações. Todo antropólogo lança mão da experiência alheia, do campo alheio, criticando-a evidentemente, mas como você critica a sua própria, duvida da sua própria, problematiza a sua própria. Na verdade, é sempre pela experiência de campo que a coisa passa, porque a antropologia é sim etnografia, trabalho de campo, o seu próprio ou o alheio. Quando eu digo que a antropologia é trabalho de campo, não quero dizer, portanto, que o antropólogo só pode pensar baseado em seu próprio campo. Isso seria um absurdo. Senão você não poderia fazer mais nada, ninguém pensaria nada a não ser o seu próprio campo, e não haveria diálogo possível, você não teria o que dizer para ninguém porque ninguém teve a sua experiência de campo. Agora, a todo antropólogo, no meu entender, não faz mal nenhum ter uma experiência de campo, muito pelo contrário. É importantíssimo, mesmo que ele nem venha a pensar principalmente sobre a sua própria [experiência]. Há antropólogos cuja experiência de campo não constituiu necessariamente a principal experiência com o campo. Lévi-Strauss talvez seja um caso exemplar nesse sentido. Sua experiência de campo foi importantíssima para dar o tom de sua antropologia, para dar a qualidade afetiva – um afeto no sentido espinozista do termo – de sua visão sobre os índios; mas certamente ela não constituiu o principal de seus experimentos. Sua pesquisa de campo foi feita nas bibliotecas. Lévi-Strauss tinha uma erudição monstruosa e uma intuição prodigiosa. Ele leu tudo o que foi escrito sobre a etnografia ameríndia da sua época; sua experiência de campo se soma, na verdade, à experiência de campo de centenas de pesquisadores.

PE O senhor poderia falar um pouco sobre a descolonização permanente do pensamento e por que acentuar o permanente dessa expressão?

EVC Essa expressão “descolonização do pensamento” não chega a ser uma invenção minha. Eu a devo ter lido em algum lugar, embora não lembre se li, nem onde. Ela surgiu para mim em um contexto dialógico, no debate que travei com meu amigo Philippe Descola em janeiro de 2009, mediado por Bruno Latour. Não lembro por que exatamente, a horas tantas retorqui: “não, temos que fazer a descolonização: a antropologia é a descolonização permanente do pensamento”. A palavra “permanente” remete é claro ao topos trotskista da revolução permanente. A alusão à revolução permanente era provocativa; o que eu queria dizer era: “nós não estamos aqui para fazer taxonomia, nem para organizar cognitivamente o mundo; nós estamos aqui para fazer uma revolução permanente”. Uma revolução “em pensamento”, “no pensamento”. Uma descolonização permanente do pensamento. A antropologia precisa saber aproveitar a oportunidade que foi dada a ela por ter sobrevivido à descolonização, ela que se constituiu num contexto institucional, teórico e epistemológico colonial, mas que conseguiu sobreviver a esse contexto. Aos trancos e barrancos, mas sobreviveu. Em alguns lugares, sobreviveu mal. Parece-me, por exemplo, que ela sobreviveu muito mal nos Estados Unidos, cuja academia está, em muitos casos, vivendo muito mal essa experiência, tendo entrado em uma espiral vertiginosa de autocrítica e de autoculpabilidade que administra pessimamente. Outras antropologias estão se saindo relativamente bem. Acho que a inglesa está se saindo bem nesse processo. A francesa eu não sei dizer se está se saindo bem ou mal nesse processo, até porque, talvez, nesse país, não seja a antropologia que esteja na vanguarda da questão da descolonização do pensamento, mas a filosofia, como estamos a testemunhar neste simpósio aqui em Toulouse. A descolonização antropológica do pensamento começou aqui pela filosofia, penso eu, ou melhor, pela incorporação filosófica da problemática da antropologia estrutural. Pelo “momento estruturalista” do pensamento francês nos anos de 1960, sobre o qual Patrice Maniglier tem escrito textos fundamentais, no que concerne à influência da antropologia de Lévi-Strauss sobre o campo filosófico francês. Foi assim que eu experimentei a antropologia na época que me formei na disciplina – como algo que se conectava com a filosofia, com a linguística, com a psicanálise. Lévi-Strauss propôs com Raça e História – um livro de 1952, que as pessoas tratam assim meio en passant, mas que é importantíssimo –, uma crítica dos fundamentos metafísicos do colonialismo. Ele mostrou que não havia nenhuma razão para que a cultura ocidental se considerasse superior. Não foi o primeiro a fazê-lo, mas ele o faz, nesse livro, de maneira especialmente sintética, eloquente. Raça e História é uma das pré-condições, no meu entender, para o que vai se seguir anos mais tarde: a crítica dos fundamentos colonialistas da metafísica empreendidas pelos filósofos dos anos de 1960, Derrida, Foucault, Deleuze.

A descolonização do pensamento antropológico significa uma dupla descolonização: assumir o estatuto integral do pensamento alheio enquanto pensamento e descolonizar o próprio pensamento.

Deixar de ser o colonialista de si mesmo, subordinado às ideias mestras, às ideias-chave de sujeito, autoridade, origem, verdade. A descolonização envolve esse duplo movimento, o reconhecimento da descolonização histórica, sociopolítica do mundo, e os efeitos que isso tem sobre a descolonização do pensamento. Nenhum dos dois processos jamais estará completo e terminado, nem a descolonização do mundo, nem a do pensamento. O adjetivo “permanente” significa, por isso, que o pensamento tem uma tendência natural ao colonialismo; a inércia do pensamento conduz o pensamento a se acomodar em soluções milagrosas, em esquemas fáceis, mecânicos, rígidos, um certo colonialismo intrínseco de todo pensamento. Evita-se, assim, transformar o pensamento em doutrina, em igreja, seita. Resisti-se à padronização, à normatização, à paradigmatização do pensamento mesmo.

PE O seu livro mais recente, Metafísicas canibais, ultrapassa os limites acadêmicos entre a filosofia e a antropologia, e o senhor mesmo falou hoje que ele não é um livro de filosofia, mas um livro contra a antropologia e para filósofos. Como o senhor faz a conexão entre a antropologia e a filosofia?

EVC Esse livro não tem quase nada de novo em relação ao que eu já publiquei em diferentes lugares. Ele nada tem de original, nada de inédito. Foi escrito para o público francês, francófono; quase todos os pedaços do livro tinham saído já em português ou em inglês. Ele reescreve quatro conferências que dei aqui na França em janeiro de 2009. Ao reescrevê-lo, fundi diferentes trabalhos, desde um artigo sobre Deleuze que escrevi em inglês e que saiu também em português na Novos Estudos, o artigo “O nativo relativo” (2002), outras coisas… Enfim, são vários textos esparsos que consolidei, fundi, soldei num livro só. Acho que a solda se vê, não é um livro muito bem integrado assim em capítulos. Mas a ideia era trazer para um público francês, e sobretudo para um público mais de filósofos do que de antropólogos, porque os antropólogos locais, em princípio, supostamente conheciam esses artigos no original, sobretudo meus colegas americanistas. A minha ideia era trazer a discussão para fora da antropologia, até porque eu havia trazido para dentro da antropologia boa parte dos temas e das questões que eu, então, devolvia agora para a comunidade filosófica. Esses artigos têm uma ambição – no sentido positivo e negativo do termo – filosófica. Esse meu livro é um dos dois que inaugura uma coleção de filosofia intitulada MétaphysiqueS, dirigida por Patrice Maniglier (que foi quem me convidou), por Quentin Meillassoux, filho de Claude Meillassoux, e por David Rabouin (posso estar esquecendo alguém). São três filósofos que dirigem essa coleção, cujo propósito é restabelecer os direitos da especulação metafísica em filosofia, um tema que está ressurgindo em vários lugares, na Inglaterra, nos Estados Unidos, por via, sobretudo, curiosamente, da blogosfera. A importância da blogosfera hoje na reflexão intelectual é imensa, e boa parte do que tenho acompanhado atualmente de discussão em filosofia está na blogosfera. Vim a conhecer uma revista de filosofia britânica na qual acabei indo publicar, ou melhor, eles me pediram para publicar um pedaço do Metafísicas canibais nessa revista, chamada Collapse. Uma revista de filósofos principalmente britânicos ou baseados no Reino Unido, mas voltada ao que eles chamam de filosofia continental, na verdade à filosofia pós-estruturalista, principalmente. Essa filosofia ali se encontra com a science fiction, junta diversos projetos de exploração do pensamento que encontram pouco ou nenhum lugar na academia. Minha impressão é a de que os filósofos acadêmicos mal sabem da existência dela.

Meu trabalho reflete um pouco essa minha exposição ao novo ambiente filosófico, que é um ambiente que mistura filosofia com antropologia, com ecologia, com science fiction, com teoria da literatura. Falei hoje de manhã que o Metafísicas não era um livro de filósofo; talvez nem precisasse dizer, era óbvio, mas como saiu numa coleção de filosofia talvez fosse preciso dizê-lo. Mas é um livro para filósofos sem dúvida; foi escrito para que os filósofos lessem.

Um dos meus colegas franceses me disse “ah, esse seu livro não tem nada de novo… a parte antropológica é muito pouco original”. Respondi: “é, mas não era para ter, não trago nenhuma verdade inaudita para os antropólogos, o livro não foi escrito para vocês, foi escrito para os filósofos lerem”. Nesse sentido é um livro de divulgação. Não é um livro de resultados originais de pesquisa. Ao mesmo tempo, o livro tem uma quantidade de parágrafos provocativos contra a antropologia francesa, escritos, na verdade, para os antropólogos lerem. Pois é claro que eles iriam ler. O livro é para filósofos, mas ele foi feito também para irritar (no sentido puramente dermatológico do termo) certos antropólogos, ou certa antropologia local, que eu entendo que está muito atrasada (en retard sur, como se diz aqui). Que está fora de sincronia com essas coisas interessantes que estão acontecendo na blogosfera. Então o livro adota, às vezes, um tom um pouco insolente, ele foi escrito de propósito assim; aparentemente alcançou pelo menos esse resultado. Sei que ele irritou consideravelmente algumas porções da comunidade antropológica local. Sei também que o livro interessou a alguns setores da comunidade filosófica local, como dá testemunho a minha presença aqui, agora. Então, nesse sentido, o livro foi um sucesso. Apesar de eu não achar um livro especialmente bom, pois não traz nada de novo para mim, há nele algumas passagens que me esclareceram a mim mesmo. Nesse sentido, foi um livro útil; vai ajudar-me a produzir alguma coisa mais adiante; mas ele foi um livro escrito para trás e não para frente, no que me concerne. É um balanço. Mas fico muito feliz de ver filósofos como Jean- Christophe Goddard e Pierre Montebello interessados no livro. Fiquei muito contente, dois anos atrás, por ter conseguido interessar Maniglier, que é um dos pensadores que considero mais estimulantes no momento. Ele disse algumas das coisas mais perceptivas e originais já ditas sobre o pensamento de Lévi-Strauss. Aprendi com ele imensamente. Ele diz que aprendeu alguma coisa comigo e tal. Na verdade, a gente se encontrou no meio do caminho, só que ele está começando e eu estou acabando, do ponto de vista da trajetória. Para mim foi uma agradabilíssima surpresa encontrar alguém com essa capacidade de pensar a antropologia de fora da antropologia, e para fora da antropologia.

Maniglier, aliás, escreveu sobre Matrix, escreveu sobre Rosemary’s Baby, está interessado em política sexual, em arte. Conecta direito indígena com luta ecológica e com luta pelo casamento gay. E pensa todas essas coisas em termos filosóficos também. Esse tipo de criatividade e de ousadia, no meu entender, é absolutamente crucial, e não vejo isso acontecendo. Na academia é um desastre, acontece exatamente o contrário.

[Há] um conservadorismo absurdo: é antropólogo dizendo que não pode haver casamento gay, porque isso vai contra o triângulo edipiano, a estrutura simbólica humana, essas besteiras; é antropólogo se declarando contra as cotas porque as cotas na universidade são a reafirmação do racismo. As cotas são fundamentais para expor o racismo, não para resolver o problema do racismo no Brasil. Então, acho que, em suma, o Maniglier faz o que eu faço, nesse sentido, e muito melhor do que eu faço. É claro que ainda tenho um ou dois truques antropológicos para ensinar a ele. Para mim, esse foi um encontro muito importante. Maniglier é meu intercessor junto aos filósofos franceses, que começaram a me levar a sério (ou pelo menos assim parece!) graças principalmente a ele. Então, nesse sentido, está sendo uma grande experiência para mim, porque eu andava decepcionado, na verdade, com a França do pensamento; eu achava que ela estava indo ladeira abaixo. Continuo achando que a antropologia francesa está indo, em geral, por um caminho que não me interessa. Não vou dizer que é um caminho ruim, é apenas um caminho que não me interessa. E encontro na filosofia gente andando pelo caminho que me interessa, então acho ótimo que isso tenha acontecido. No que me concerne, se quiserem me considerar um filósofo aqui na França, c’est pas grave.

Veja versão completa da entrevista na Primeiros Estudos.

 

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