Entrevista com Amos Gitai


Traduzimos aqui um texto escrito por Maya Sela para o jornal israelense Haaretz com base em uma entrevista feita com o cineasta Amos Gitai a respeito de Em tempos como estes…, livro que reúne cartas escritas por sua mãe, e Canção para o meu pai, seu filme de 2013 sobre ela.

Em 1960, Efratia Gitai [mãe de Amos Gitai] foi estudar em Londres. Ela tinha um marido, o arquiteto Munio Weinraub-Gitai, e dois filhos […]. O plano era estudar psicologia no exterior. Amos, seu filho de dez anos, foi enviado ao kibutz Kfar Masaryk por um ano. Nas cartas dela para ele, escreve como se para um adulto, dando conselhos e pedindo permissão para ficar mais tempo na Europa. Em suas respostas, ele fala de sua vida no kibutz e do quanto sente saudade dela.

“Fico triste por você estar com tanta saudade de mim”, ela disse a ele. “Meu querido… nós dois somos ‘shmutzniks’ [membros do movimento de esquerda Hashomer Hatzair] – amorosos demais e dependentes demais do amor. Apesar de isso ser bonito, não quero que você se assemelhe a mim nessa dependência. É, com certeza, natural que uma mãe ame seu filho e sinta muita falta dele, mas o filho deve amar menos a mãe. Ele tem que ser imune, forte, um homem – certo? Não pensar tanto na mãe: trabalhar, estudar, não esperar tanto das pessoas e não depender das reações dos outros. Deixa que digam o que quiserem, que façam o deles que eu faço o meu… A pessoa que não tem um casca no coração, sobre suas emoções – outras pessoas gostam de machucá-la, de atacá-la… É como as coisas são, meu querido. É a verdade; é triste mas é a verdade e, portanto, meu querido – eu não quero que você se machuque demais. Não deixe que percebam que sente muita falta de sua mãe. Só seja forte e heroico, como o seu pai. Tá bem, Amos?”

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A porta do apartamento em Tel Aviv de Gitai é aberta pela atriz Yael Abecassis. Os dois estão trabalhando em uma cena a ser filmada em alguns dias numa estação de trem na Bulgária. Gitai me pergunta se quero ouvir a atriz Jeanne Moreau lendo as cartas de Efratia (e quem não quer ouvir Jeanne Moreau?) e vai buscar a gravação.

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Efratia Margalit nasceu no Monte Carmelo em 1909. Em 1930 ela decidiu viajar a Viena. “Para não nos sentirmos provincianas, minhas amigas – Yardena Cohen, Yemima Tchernovitz, Leah Kassel e Hanka Weinberg – e eu decidimos estudar em Viena”, ela disse.

“Essas mulheres não temiam nada”, diz seu filho Amos. “Souberam que existia uma coisa interessante como Freud e então foram conhecê-lo. Ficaram em Viena durante dois anos e meio. Era uma cidade muito interessante, progressista, com um movimento feminista forte e psicanalistas tipo Adler e Freud. E dentro da Áustria conservadora, que deu à luz o que aconteceu depois. Esse foi o período em que ela floresceu. Depois foi a Berlim, viu Hitler falando na Alexanderplatz e decidiu que era a hora de voltar para casa”.

Em […] 1939 […] “seu primeiro filho, Dan, morreu quando ele tinha dois anos. Até o último dia de sua vida, ela deixou fotos do Dan na cabeceira da cama”.

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Após a morte do filho, Munio quis recuperar as cenas de sua infância. “O relógio do mundo não estava colaborando com os desejos de Munio, porque o mundo estava se preparando para a guerra que hoje sabemos que começaria em pouco mais de um mês depois, em 01 de setembro” […]. “Ele insistiu com Efratia e, no fim das contas, ela topou viajar com ele. Ele nasceu na Silésia, estudou na Bauhaus e viveu cercado de pessoas como Kandinsky e Mies van der Rohe. E então foi preso, em junho de 1933, com outros três estudantes da Bauhaus. Quando foi solto, ele imigrou  para a Palestina e, em 1939, apesar de tudo, ele quer ficar na Europa – não tem ideia do que está prestes a acontecer”.

Efratia e Munio visitaram seus parentes. “Hoje podemos dizer”, comenta Amos, “que naquela viagem eles se despediram de suas famílias, porque depois disso todos foram deportados e mortos. Munio queria ficar até outubro e ver as novidades arquitetônicas”.

Gitai ri e diz: “Arquitetos são problemáticos assim mesmo. Efratia disse a ele que, com todo respeito a arquitetura, uma guerra estava prestes a acontecer. Ela convenceu ele a ir se despedir dela e ele foi à estação de trem em Varsóvia. Ela tinha dois bilhetes e ele acabou indo com ela. Graças a isso, temos o privilégio de estar conversando hoje”.

Yael Abecassis interpreta Efratia no filme que estão filmando agora [Canção para o meu pai, lançado em 2013].

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Dizem que é difícil trabalhar com você.

Gitai: “Na Guerra do Yom Kippur, eu me arrastei para fora de um helicóptero que havia sido atingido e derrubado por um foguete sírio, e eu sobrevivi. Quando eu saí de lá, disse a mim mesmo que me dedicaria a fazer coisas caras ao meu coração. Isso significa se cobrar e cobrar os outros. Eu acho que a maior tarefa de um diretor é persuadir seus parceiros – os atores – a fazer algo que nunca fizeram. É confortável aos atores apresentar “números” que eles já fizeram. Isso me entedia. Enquanto telespectador, isso não me interessa porque eu sei que estão me mostrando um truque já usado. Eu aceito isso de mágicos, que sempre tiram um coelho da cartola, mas de atores – não. Algumas pessoas se estressam [com essa minha posição], mas o que se pode fazer?”

[…]

O que você acha que [Efratia] diria sobre o livro que você publicou [Correspondências]?

“Ela ficaria surpresa. E se visse Jeanne Moreau lendo suas cartas para um auditório lotado no Odeon em Paris, ela teria olhado a cena de canto de olho e dito a mim, ‘Realmente, você foi longe demais’.”

Clique aqui para ler o texto original.

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Efratia Gitai – Em tempos como estes…

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