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Emblemas da nacionalidade: o culto a Euclides da Cunha


Por Regina Abreu 

 

“Percorro toda a nossa história e penso que Os sertões serão no futuro para o Brasil o grande livro nacional; o que Dom Quixote é para a Espanha ou Os Lusíadas para Portugal; livro em que a raça encontra a floração de suas qualidades; o espinheiral dos seus defeitos, tudo o que, em suma, é sombra ou luz na vida dos povos.” Roquette Pinto

 

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A invenção da tradição euclidiana

Os adeptos do culto a Euclides da Cunha em São José do Rio Pardo situam como marco de origem o dia 15 de agosto de 1912, quando a morte trágica de Euclides da Cunha completava três anos. Por que o escritor passou a ser cultuado em São José do Rio Pardo?

Foi nessa cidade que o escritor escreveu sua obra consagrada, Os sertões, aproveitando momentos de folga do acompanhamento da reconstrução de uma ponte sobre o rio Pardo, como engenheiro de obras públicas.

Alguns riopardenses haviam conhecido o escritor e com ele mantido alguma proximidade. A passagem do aniversário de sua morte suscitava nessas pessoas o ensejo de uma homenagem póstuma. Alguém teve a ideia de sair de preto em direção à cabana nas margens do rio Pardo, local onde o escritor havia escrito seu mais famoso livro. À hora combinada, um grupo de cerca de seis pessoas iniciou uma romaria da porta da Prefeitura Municipal até a cabana à beira do Rio Pardo. Durante a caminhada, a população da cidade foi aos poucos aderindo à manifestação. Era o início da “Romaria Cívica” em prol da memória de Euclides da Cunha. Romaria que se prolongou por vários anos, transformando-se em festa oficial da cidade de São José do Rio Pardo e do governo do Estado de São Paulo.

A “terra santa” de Euclides da Cunha foi sendo esculpida aos poucos. O primeiro trabalho para o cultivo da memória de Euclides da Cunha consistiu em limpar a área ao redor da cabana que, em situação de abandono, havia sido ocupada por um matadouro próximo. Prevaleceu a ideia de autenticidade. Os cidadãos rio-pardenses almejavam reconstituir o ambiente que cercou a criação de Os sertões. Na cabana, foi instalada a mesa onde Euclides escreveu e o banco de madeira onde ele se sentou para escrever. Procurou-se resgatar o clima sagrado da criação, preservando cada detalhe do entorno. A velha paineira sob cuja sombra Euclides descansava e que aos poucos morreu foi substituída por outra semelhante.

Dessa forma, a cidade foi magicizada. Com a invenção de uma terra santa de um grande escritor nacional, São José do Rio Pardo adquiria uma feição incomum: a paisagem bucólica da cabana à beira do rio Pardo indicava que tinha sido ali, e não em qual quer outro lugar do Brasil, que Euclides da Cunha teria escrito Os sertões.

Na simbiose entre proprietário e propriedade, a nação estaria sendo identificada com o escritor e com seus atributos. São José do Rio Pardo, onde o escritor viveu, e a cabana onde ele escreveu sua principal obra seriam testemunhos materiais de sua presença, evidenciando uma relação íntima entre coisas e espíritos. Preservando os objetos mais “autênticos” do escritor, sua “aura” estaria sendo preservada. A relação metonímica dos objetos preservados com o passado do escritor era assim ampliada para uma relação metonímica do escritor e da cidade de São José do Rio Pardo com a identidade nacional.

Etnografia da Semana Euclidiana

Em agosto de 1992, verificou-se que efetivamente o culto à memória de Euclides da Cunha em São José do Rio Pardo constituía um evento consolidado, contando com a liderança dos euclidianistas e a adesão da população da cidade e de elementos de cidades próximas.

Nos últimos anos, a programação ampliou-se, contando com vários eventos: um “Desfile de Abertura”, a “Gincana Euclidiana”, a “Maratona Euclidiana”, a “Conferência” seguida de um “Concerto”, a “Romaria Cívica” e o “Baile Branco”.

O “Desfile de Abertura” é o momento em que a população da cidade mais participa. Geralmente, são organizadas alas que representam de forma lúdica temas vinculados ao euclidianismo. Em 1969, por exemplo, uma das alas apresentava meninas vestidas com roupas típicas dos países para os quais o livro Os sertões foi traduzido. Cada uma trazia nas mãos o livro com a respectiva tradução. Em 1992, devido à passagem dos oitenta anos de comemorações euclidianas, foram organizadas alas lembrando as principais conferências e os nomes dos conferencistas que passaram pelas semanas ao longo dos anos. O clima nessas ocasiões é de festa, com grande participação de bandas e grupos artísticos locais.

A “Gincana Cultural Euclidiana” é voltada para alunos das escolas de São José do Rio Pardo. Os alunos se reúnem num grande estádio e uma equipe de cada colégio responde a perguntas formuladas por euclidianos e professores de história, geografia e literatura sobre temas da vida e obra do escritor. Ao final uma das escolas ganha a taça Euclides da Cunha, além de prêmios que algumas vezes são oferecidos por comerciantes locais.

Uma breve análise das perguntas formuladas aos estudantes durante a “Gincana” permite entrever o trabalho de construção da memória de Euclides da Cunha. Nesse caso depreende-se uma forte tendência a apresentar o escritor como detentor de três qualidades básicas: atual, profético, precursor da literatura brasileira.

P.: No estudo ‘Primado do Pacífico’, que foi publicado no livro À margem da História, Euclides previu em 1909 um acontecimento que se concretizaria na Primeira Guerra Mundial em 1921. Qual foi esse confronto?

R.: O conflito entre os Estados Unidos da América e o Japão.

Curiosamente, o colégio vencedor tem sido o Colégio Euclides da Cunha, um colégio público estadual considerado por muitos o melhor da cidade.

A “Maratona Euclidiana” vem se realizando há mais de cinquenta anos ininterruptamente. Trata-se do maior foco de difusão do pensamento sobre Euclides da Cunha. Durante uma semana, estudantes de vários pontos do país (a maior parte vem de São Paulo) assistem a palestras proferidas por euclidianos e professores visitantes também adeptos do culto. Ao final da “Semana Euclidiana”, os estudantes reúnem-se numa ampla sala e prestam exame. Os cinco primeiros lugares são premiados.

 

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A “Conferência” é realizada no auditório mais elegante da cidade, em tom muito solene. O conferencista ganha uma placa de bronze com os agradecimentos da cidade por sua participação, que “contribuiu para abrilhantar a semana”. Ela constitui uma das principais instâncias de legitimação do culto euclidiano.

O “Concerto de Música”, que se realiza após a “Conferência”, fica a cargo de um músico de renome.

A “Romaria Cívica” ocorre sempre no último dia, na passagem do aniversário de morte do escritor. A banda da cidade “Corporação Musical Euclides da Cunha” sai da porta da “Casa Euclidiana”, rememorando o ato fundador de 1912.

À porta da cabana, as autoridades locais ocupam um pequeno palanque e discursam para a população. A sessão tem início com a execução do Hino Nacional. Os euclidianistas, nesse momento, aproveitam para enfatizar a atualidade de Euclides da Cunha em face das “dificuldades pelas quais o país vem passando”.

O fechamento do evento fica por conta do “Baile Branco”. Nele, as damas devem vestir-se de branco. Alguns atribuem essa tradição às visões de Euclides, que sistematicamente era tomado por delírios onde via mulheres de branco esvoaçantes. A decoração do baile busca criar um clima místico: uma esvoaçante manequim envolta em véus brancos, suspensa por cordas no meio do salão, paira sobre as cabeças dos convidados.

Os euclidianistas

Os euclidianistas percebem-se como apóstolos e discípulos, pregando e difundindo as lições do mestre. São também continuadores de sua missão intelectual, acrescentando com novos trabalhos.

Mas afinal, quem são os euclidianistas? Qual a extensão do culto a Euclides da Cunha? O que visam atualizar, na difusão de um pensamento euclidiano?

Num levantamento preliminar, detectamos em torno de oitenta a cem euclidianistas sistemáticos e fiéis. Esse grupo comparece às solenidades em São José do Rio Pardo e também em Cantagalo, cidade natal do escritor, onde há uma Casa Euclidiana e, anualmente, comemora-se a sua data de nascimento. Há basicamente quatro gerações de euclidianistas que vêm se sucedendo desde 1912. O recrutamento de novos adeptos se faz de forma privilegiada, por meio das maratonas ou ciclos de estudos euclidianos.

A escolha dos elementos para ocupar posições de prestígio no euclidianismo ocorre com base no desempenho intelectual entendido como alto grau de conhecimento da vida e da obra do escritor, capacidade de falar em público e participação ativa nas solenidades.

A valorização do interior, notadamente do interior paulista, fica explicitada quando esse grupo de intelectuais, em grande parte oriundos dessa região, enfatiza o fato de ter sido numa cidade do interior de São Paulo que Euclides obteve as condições necessárias para produzir sua obra consagradora.

O euclidianismo continua a crescer, angariando novos adeptos a cada ano, sobretudo entre os mais jovens. De fato, esse movimento vem ocupando um extenso circuito de cidades, academias, jornais e tribunas do país. Independentemente das polêmicas com instituições de maior peso na hierarquia nacional, que por vezes ocorrem, o euclidianismo parece possuir um espaço próprio de realização já consolidado e institucionalizado.

Para os euclidianistas, Euclides da Cunha é o Brasil. Deprimido, nervoso e até tuberculoso, mas fundamentalmente o Brasil viável.

A mistura de raças sintetizada no corpo de Euclides teria gerado um gênio nacional, sinalizando assim para a viabilidade da própria nação brasileira e também para a capacidade desta de forjar seus próprios intelectuais.

E se Euclides espelha a brasilidade, é em São José do Rio Pardo que ela pode realizar-se plenamente. Ou seja, é no Brasil do interior, do sertão, longe das influências nefastas dos estrangeirismos que o Brasil é mais Brasil. E, por excelência em São José do Rio Pardo, berço de Os sertõesespelho da eternidade do próprio país.

 

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Regina Abreu é doutora em antropologia social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde é professora associada. É líder do grupo de pesquisa do CNPq Memória, cultura e patrimônio e tem experiência na área de antropologia social, especialmente no que diz respeito às suas interfaces com memória social, patrimônio cultural, museus, audiovisual e estudo de trajetórias. Sobre a obra de Euclides da Cunha publicou O Enigma de Os sertões (Rocco, 1998) e coordenou o projeto Caravanas Euclidianas com escolas municipais e estaduais.

 

Este post é uma versão editada do artigo originalmente publicado pela autora, que pode ser encontrado aqui.

Mapa da capa: Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

 

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