Diga-me onde moras e te direi se lês


Por Patricia Auerbach

 

O que é que eu faço para que o meu filho goste de ler? Como é que se estimula a leitura em casa? Quando, além de ser professora você também escreve e ilustra livros infantis, essas perguntas passam a fazer parte da sua vida quase diariamente. As respostas não são simples; ainda não inventaram uma receita infalível que garanta a todas as crianças a paixão pela leitura.

Estudei arquitetura e pedagogia, uma formação no mínimo estranha para alguém que acabaria escrevendo livros, mas esse percurso improvável me mostrou a influência do espaço escolar e doméstico na formação das crianças. Por isso, quando os pais me procuram em busca de métodos milagrosos para garantir bons leitores em casa, a primeira coisa que me vem a cabeça é o ambiente onde mora essa família. Eles têm muitos livros? Quais são suas preferencias? Onde a família costuma se reunir? Tem livros nesse lugar? O que eles fazem quando estão em casa? Onde estão as obras e onde ficam o controle remoto e o videogame?

Em uma casa em que o livro é protagonista é comum ver obras nas mesas de centro, nas cabeceiras das camas, nas malas de viagem e espalhados por todo o lugar. Esse tipo de ambiente não favorece apenas a leitura, mas também a conversa espontânea sobre o que foi lido por cada um. A troca de percepções e gostos diferentes expande as histórias para além das páginas dos livros e leva os personagens para momentos saborosos de encontro familiar.

A leitura em voz alta feita pelos pais é sem duvida a principal ferramenta de estímulo a novos leitores em uma família, mas não é o único caminho para aproximar os pequenos das páginas dos livros. Há algum tempo, vasculhei minhas lembranças procurando imagens de adultos lendo para mim quando eu era criança e descobri que não tinha nenhuma memória de um momento como esses. Para alguém que sempre relacionou a leitura a uma forma de experiência afetiva e familiar, essa ausência de livros na infância não fazia o menor sentido, então me dei conta de que em sua origem meu amor era pelas histórias, não pelas obras.

Tive a sorte de ter grandes contadores de “causos” por perto e hoje sei que essas narrativas espontâneas compensaram a falta de leituras antes de dormir e foram decisivas na construção do meu percurso leitor. As histórias contadas em volta da mesa e as lembranças carinhosamente compartilhadas me aproximaram de pessoas queridas, criaram vínculos importantes, ampliaram meu repertório e me apresentaram a um vocabulário de palavras e emoções que fez toda a diferença quando comecei a ler e escrever minhas primeiras linhas.

Assim como um atleta não aprende a correr quando se inscreveu em uma maratona, para enfrentar obras complexas e longos capítulos, é preciso muito treino. Desde as primeiras linhas, percorridas por um adulto com o dedo acompanhando o texto até a leitura autônoma de livros longos e narrativas complexas, existe um longo percurso a vencer. Como acontece com os atletas, alguns leitores serão disciplinados e seguirão treinando ainda que estejam sozinhos nessa jornada, mas a grande maioria precisará de orientação, companhia e incentivo para percorrer longas páginas e saborear a vitória no final.

Temos a nosso favor que crianças são naturalmente curiosas e irrequietas, predispostas portanto a se divertir com histórias fantásticas e aventuras mirabolantes. Mas vivemos num tempo urgente, onde as respostas costumam vir na velocidade de um click e é natural que nossas crianças se interessem primeiro pelo que está mais perto dos seus olhos e ao alcance das suas mãos. Se o controle remoto e os jogos eletrônicos estiverem sobre a mesa e os livros habitarem prateleiras distantes, é bem provável que os botões acabem ganhando a disputa pelo tempo livre.

Se seu filho vai gostar de ler? Olhe à sua volta e tente perceber o lugar ocupado pelas histórias na sua casa. Espalhe livros pela sala. Deixe ele escolher. Organize as prateleiras com as capas à vista, conte a ele o que você anda lendo, fale das suas lembranças e dos livros que gostava de ler quando tinha a idade dele. Faça da leitura um assunto na família. Leia junto, leiam um para o outro, transformem as histórias num momento especial. Quanto ao seu filho, diga-me como é sua casa e te direi se ele vai ler.

 

 

Patricia Auerbach é formada em Arquitetura e Publicidade com especialização em História da Arte pela New York University e em desenho pela School of Visual Arts (NY). É pedagoga, autora e ilustradora de livros infantis. Publicou, entre outros, O Jornal (Brinque Book, 2012), Pequena Grande Tina (Cia das Letrinhas, 2013), Coisa de Gente Grande (Cosac Naify, 2015) e Histórias de Antigamente (Companhia das Letras, 2016).
 
Imagem de capa: ©Patricia Auerbach
  

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