O diário de Malinowski


A publicação do Diário, no sentido estrito do termo, que Malinowski manteve ao longo de sua permanência em campo, gerou polêmica no meio da antropologia. Muitos antropólogos consideram a publicação dos escritos um desserviço à figura importante do autor. Intensamente pessoal e brutalmente honesto, o diário de Malinowski provavelmente não foi escrito para ser publicado. No entanto, sua leitura oferece uma janela para a mente do primeiro antropólogo a realizar uma observação participante. O diário revela que qualquer etnografia é relativa, na medida em que se dá como resultado da relação entre o antropólogo e as pessoas que ele está descrevendo. A Ubu selecionou aqui trechos do texto do antropólogo Clifford Geertz sobre o diário, os pensamentos que passavam pela cabeça do antropólogo em campo e como eles se relacionam com o trabalho científico que resulta de sua pesquisa.
Extraído de “Testemunho ocular: os filhos de Malinowski” é o quarto capítulo do livro Obras e vidas: o antropólogo como autor, tradução publicada em 2002 pela Editora UFRJ.
 
… fui até a aldeia; a noite enluarada estava clara. Eu não me sentia cansado demais. Na aldeia, dei um pouco de tabaco a Kavakava. Depois, como não havia dança nem assembléia, caminhei até Oroobo pela praia. Maravilhoso. Foi a primeira vez que vi essa vegetação ao luar. Estranha e exótica demais. O exotismo transparece levemente por entre o véu das coisas conhecidas. Entrei no mato. Por um momento, senti-me assustado. Tive de me recompor. Tentei sondar meu coração. “Que é minha vida íntima?” Nenhuma razão para estar satisfeito comigo mesmo. O trabalho que estou fazendo é mais uma espécie de narcótico do que uma expressão criativa. Não estou tentando vinculá-lo a fontes mais profundas. Organizá-lo. Ler romances [em vez de trabalhar] é simplesmente desastroso. Fui-me deitar e pensei noutras coisas, de maneira impura…
 
Não há nada que me atraia para os estudos etnográficos. Fui à aldeia e me rendi artisticamente à impressão de um novo Kulturkreis*. De modo geral, a aldeia causou-me uma impressão bastante desfavorável. Há uma certa desorganização, as aldeias são dispersas; a turbulência e a teimosia das pessoas, que encaram, gargalham e nos mentem, deixaram-me um tanto desanimado. Terei de encontrar meu caminho nisso tudo…
 
Visitei algumas choças na selva. Voltei; comecei a ler Conrad. Falei com Tiabubu e Sixpence [nativos] – agitação momentânea. Depois, fui outra vez tomado por uma terrível melancolia, cinzenta como o céu que circunda os limites de meu horizonte interno. À força tirei os olhos do livro e mal pude acreditar que aqui estava eu, entre selvagens neolíticos, serenamente sentado, enquanto há coisas terríveis acontecendo por lá [na Europa; era dezembro de 1914]. Em certos momentos, tive ímpetos de rezar por minha mãe. Passividade e a sensação de que em algum lugar, muito além de qualquer possibilidade de fazer o que quer que seja, há coisas horríveis acontecendo, insuportáveis…
 

Foto de Billy Hancock, Malinowski Archive, London School of Economics
 
Fui à aldeia, na esperança de fotografar algumas etapas da dança bara. Distribuí cigarros pela metade e assisti a algumas danças; depois, tirei fotografias – com resultados muito precários. Luz insuficiente, e eles se recusavam a posar pelo tempo de exposição necessário. Em alguns momentos, fiquei furioso com eles, especialmente porque, depois de eu lhes dar suas porções de tabaco, todos foram embora. Em geral, meus sentimentos relacionados aos nativos tendem decididamente para exterminar os bárbaros. Em muitas situações, fui injusto e estúpido em meus atos – com respeito à viagem a Domara, por exemplo. Deveria ter dado dois, e eles a teriam feito. C omo resultado, com certeza perdi uma de minhas melhores oportunidades…
 
Não fui à aldeia; escrevi umas cartas, li Maquiavel. Muitas afirmações me impressionaram extraordinariamente; além disso, ele se parece muito comigo em vários aspectos. Um inglês de mentalidade inteiramente européia [isto é, não inglesa] e com problemas europeus…
[…]
 
[Estes são alguns trechos] daquela obra-prima dos bastidores da antropologia, o nosso The Double Helix, A Diary in the Strict Sense of the Term, de Bronislaw Malinowski. O Diário foi escrito (em polonês, mas com palavras, orações e até trechos inteiros em inglês, espalhados por todo o texto) na Nova Guiné e nas ilhas Trobriand, nos anos de 1914-1915 e 1917-1918, enquanto Malinowski realizava o que é, no cômputo geral, provavelmente o trabalho de campo mais famoso, e com certeza o mais mitificado, da história dessa disciplina: a viagem paradigmática ao alhures paradigmático_. O texto foi descoberto entre os papéis do autor após sua morte repentina, em 1942, mas só foi traduzido e publicado, em meio a muita apreensão quanto à propriedade da empreitada, em 1967. Raymond Firth, discípulo, amigo e seguidor de Malinowski, em sua introdução extremamente constrangida do livro (ele dá a impressão de querer desesperadamente estar noutro lugar, fazendo quase qualquer outra coisa), comentou:
 
Alguns trechos ainda hoje podem ofender ou chocar o leitor, e alguns leitores talvez se impressionem (…) com a revelação de elementos de brutalidade e até degradação que o texto ocasionalmente mostra. Minha reflexão pessoal quanto a isso consiste em recomendar aos que quiserem escarnecer de alguns trechos desse diário que, antes de mais nada, sejam igualmente francos em suas próprias idéias e escritos, e depois voltem a julgar. (Firth, 1967, p. xix)**
 
Além de observar que não se trata propriamente de elementos e de passagens ocasionais, devo dizer, antes de qualquer outra coisa, sobretudo numa época em que desfigurar monumentos costuma ser percebido como uma maneira rápida de alcançar a celebridade na antropologia, que essa também é minha reflexão. O Diário é perturbador, mas não pelo que diz sobre Malinowski. Grande parte disso é um lugar­ comum neo-romântico e, como outras “confissões” famosas, não é nem de longe tão revelador quanto parece.5 O livro perturba em virtude do que diz sobre o “estar lá”.
 
[…]
Como demonstram meus excertos, o problema que o Diário destaca em primeiro plano, e com o qual […] fica quase completamente absorto, é que há muito mais em que mergulhar do que a vida nativa, quando se pretende tentar essa abordagem da etnografia pela imersão total. Existe a paisagem. Existe o isolamento. Existe a população européia local. Existe a lembrança de casa e daquilo que se deixou. Existe o sentimento da vocação e de para onde se está indo. E, causando mais abalo do que tudo, existem o capricho das paixões do sujeito, a debilidade de sua constituição e as digressões de seu pensamento: essa obscura coisa chamada eu. A questão não é pensar e agir como os nativos do lugar (Alf Greenaway, Ramsgate e o proletariado mais ou menos dão conta disso). A questão é viver uma vida multíplice: navegar em vários mares ao mesmo tempo.
 
[…] É presumível que o Diário não tenha sido escrito para ser publicado. Malinowski, pelo menos, não parece ter feito nenhum gesto nesse sentido, embora o cuidado com que o texto foi escrito e – tanto quanto se pode percebê-la através da tradução – sua veemência possam dar-nos o que pensar. Como produto literário que se dirige, pelo próprio gênero, a um público de um só, como mensagem do eu escritor para o eu leitor, ele levanta um problema que, não obstante, é geral e atormenta os escritos etnográficos de Malinowski […], como um duplo espiritual que se recusa a ser devolvido à floresta: como redigir, a partir dessa cacofonia de noites enluaradas e nativos exasperantes, de excitações momentâneas e aflições homicidas, uma descrição autêntica de um estilo de vida alienígena. Se observar é um assunto tão pessoal, uma caminhada meditativa por uma praia envolta em sombras, não o será também a observação? Quando o sujeito se expande a esse ponto, não se apequena o objeto?
 
[…]
[…] Malinowski formulou a questão do “Estar Lá” em sua forma mais radical, se não necessariamente a mais produtiva. Ele ao mesmo tempo projetou (deixemos de lado até que ponto a praticou) uma modalidade de pesquisa que, pelo menos em seus limites, praticamente apaga ou diz apagar a distância afetiva entre o observador e o observado, e um estilo de análise (deixemos de lado a coerência com que ele o adotou) que, em seus limites, torna ou alega tornar quase absoluta essa distância. Assim, a tensão entre o que são, no final das contas, os momentos arquetípicos da experiência etnográfica – absorver e escrever – foi elevada a um grau extraordinário. Nos trabalhos de Malinowski, essa tensão se manteve mais ou menos afastada e, na verdade, foi utilizada de maneira retórica, através da persistente ambiguidade – ora mistérios insondáveis, ora leis triunfantes – para a qual venho apontando. Mas, para os etnógrafos posteriores – talvez, atualmente, a maioria dos que têm menos de 40 anos – em quem os ideais malinowskianos do trabalho de campo permaneceram vivos, mais vivos do que eram nele, sob certos aspectos, mas para quem seus ideais analíticos não só estão mortos como são desprezíveis, a questão não foi muito simples. A eles foi legado não um método de pesquisa, como tantas vezes se supõe – a “Observação participante” (que vem a ser um desejo, e não um método) -, mas um dilema literário: a “Descrição Participante”.
 
O problema, para reformulá-lo nos termos mais prosaicos em que posso fazê-lo, é representar o processo de pesquisa no produto da pesquisa; escrever etnografia de modo a colocar numa relação inteligível as interpretações que alguém faz de uma sociedade, cultura, modo de vida ou lá o que seja, e os contatos que esse alguém mantém com alguns de seus membros, portadores, representantes ou seja lá quem for. Ou então, para reformulá-lo rapidamente mais uma vez, antes que o psicologismo se instaure, trata-se de como introduzir um autor “testemunha ocular” numa história de “retrato deles”. Comprometer-se com uma concepção essencialmente biográfica do Estar Lá, em vez de uma concepção reflexiva, aventureira ou observacional, é comprometer-se com uma abordagem confessional da construção de texto. A persona da vida real que Lévi-Strauss, Evans-Pritchard e Malinowski procuraram restringir a suas fábulas, suas memórias ou seus devaneios, esse eu criado que experimentou coisas estranhas e sofreu outras ainda mais estranhas, transborda para o interior da própria obra.
 
A maneira mais direta de reunir o trabalho de campo como contato pessoal e a etnografia como relato fidedigno é transformar a forma diário, que Malinowski usou para sequestrar seus pensamentos impuros num polonês rabiscado, num gênero ordeiro e público – em algo a ser lido pelo mundo. […]
 

Foto de Billy Hancock, Malinowski Archive, London School of Economics
 
Notas:
* Círculo cultural.
** R. Firth, in A Diary in the Strict Sense of the Term.