Por que a desobediência é necessária à democracia?


“Você deve manter em si a possibilidade de desobedecer”
Para Frédéric Gros, professor de filosofia política, a desobediência é necessária à democracia. Aqui está o por quê…

“Eu não estou me referindo à transgressão criminal das leis ou à incivilidade, o que eu chamo de desobedecer é o testemunho de uma capacidade, que é a capacidade de começar algo. No sentido de abertura a um mundo de possíveis.”

Seria perigoso obedecer?
“No século XX, pela primeira vez, nós nos demos conta de que poderíamos nos tornar um monstro ou ser um monstro pela obediência. Por quê? Porque nós estamos prontos para executar ordens que são absolutamente desprezíveis, desumanas, sem nos colocar nenhuma questão.”

“A democracia é feita por um certo número de regras. Existem regras de distribuição da palavra, regras que são majoritárias, e isso é, eu diria, a arquitetura da democracia. Mas uma democracia não pode viver sem que haja da parte e no interior de cada cidadão uma vigilância contínua em relação ao poder. É essa vigilância que eu chamo de desobediência.”

50 anos após maio de 1968, a França ainda desobedece?
“O que é bastante curioso e paradoxal é que nunca fomos tão demandados de sermos nós mesmos, de buscarmos a conquista de nós mesmos, e nunca fomos tão conformistas. Surgiram novas questões, estou pensando, por exemplo, nos problemas do meio-ambiente, na degradação da biosfera, penso também na multiplicação das desigualdades sociais, e no seu aprofundamento. Também se multiplicaram novas formas e novas estratégias de desobediência.”

“O que mudou mais profundamente nessa desobediência, do meu ponto de vista, é que ela não tem mais o horizonte do progresso ou a certeza de que as gerações que vierem após a nossa serão mais felizes. O que mudou é que as formas de desobediência se inscrevem em um horizonte que é o horizonte da catástrofe.”

“O que pode parecer como um horizonte totalmente escuro poderia se transformar na oportunidade de um novo respiro e de uma nova chance política. Ou seja, na formação e no desenvolvimento de novas solidariedades a partir da ideia de que todos nós somos habitantes do mesmo planeta Terra. E eu creio que essa comunidade de viventes pode criar desenvolvimentos políticos cruciais.” 

[imagem do post: Koch, Eric / Anefo, França, 1968]

_
livros relacionados

Desobedecer
Frédéric Gros
Untitled-1