De Donald a Deirdre


Bruce Jenner se assumiu como mulher para Diane Sawyer, da rede americana de TV ABC, em abril de 2015. Mais de 17 milhões de pessoas assistiram. Surpreendentemente, na nossa cultura de celebridade, a entrevista foi tranquila, digna e empática. A tranquilidade – pelo menos comparada à média dos episódios de “Keeping up with the Kardashians” – me lembrou da reação em Iowa de 1995, quando eu me assumi.

“Professor da Universidade de Iowa vira mulher”. Depois da quarta matéria sobre isso na capa do Register, o jornal local, alguém escreveu reclamando da cobertura incessante. Vocês sabem, nós não somos caipiras, escreveram. Chega.

Ao governador Terry Branstad  perguntaram o que ele achava sobre Donald virar Deirdre. Ele respondeu: “Ela ainda pode ensinar? Ela ainda tem a mesma ideologia acadêmica? Então, qual o problema?”. A tranquilidade de Iowa.

Eu não podia, aos 53 anos, “virar” genética ou historicamente uma mulher, não mais do que Jenner pôde aos 65. Mas eu poderia (e pude) me apresentar como uma mulher, e os cidadãos de Iowa se mantiverem, na maior parte das vezes, tranquilos quanto a isso. Eu também estou tranquila, agora que sou uma senhorinha da igreja (episcopal), irmã mais nova e filha, que continua trabalhando aos 72 anos, se é que você chama o que eu amo fazer de “trabalho”. Mudança de gênero é um desejo marcadamente de uma minoria – talvez de uma a cada duzentas ou trezentas pessoas, meninas ou meninos. Ter tranquilidade quanto a isso não vai destruir a sociedade ou causar “sacrifício humano, cachorros e gatos vivendo juntos”, como disse Bill Murray em Os caça-fantasmas.

Jenner pode esperar algumas surpresas no modo como as pessoas irão reagir. As três pessoas que eu mais amo no mundo não falam comigo desde 1995. Tenho três netos que eu nunca conheci. Mas, sério, chega de choro. Em todas as vidas há um pouco de chuva. Toda família tem histórias do tipo. Tio George se casou com uma católica e ninguém mais falou com ele. Tia Louise disse algo maldoso para a prima Betty vinte anos atrás e foi a gota d’água. Famílias muitas vezes agem como se o amor estivesse com excesso de oferta, como dizem os economistas. Bobagem. Atire isso para bem longe de você.

Mas as surpresas muitas vezes são boas. Eu esperava que minha mãe tivesse dificuldade em aceitar. Bastaram cinco minutos: “Filho, se é isso que você deseja… Só um conselho: não faça nada muito mais interessante! Não decida virar um cavalo!”

Meu reitor na Universidade de Iowa, Gary Fethke, fez em um pequeno improviso cômico assim que eu me assumi: “Isso é ótimo para nosso programa de ação afirmativa: um homem a menos, uma mulher a mais!”. Gary, como eu, é um economista de livre-mercado. Sua próxima piada foi: “Graças a Deus! Achei que você iria me dizer que desejava virar socialista!”. E então ele agiu como amigo e meu protetor. A tranquilidade de Iowa.

Como manter a calma? Pare de pensar que mudança de gênero é sobre sexo, sexo, sexo. Pare de acreditar na filosofia de boteco que diz que só muda de gênero quem é gay, ou de que todos os gays desejam ser mulheres. Quem você ama não é a mesma coisa que quem você é. Você pode amar seu cachorro sem querer se transformar em cachorro. Você pode querer se tornar um adulto, como as crianças querem, sem saber ao certo o que é de fato ser um adulto.

Pare de achar que todos os homens que se transvestem vão se tornar prostitutas. Pare de imaginar que “homens” entram nos quartos das mulheres para espionar e estuprar. Pare de achar que se vestir como se você fosse de um certo gênero é uma indulgência. Acredite em mim, eu certamente preferia ter descoberto aos 53 anos que era gay, ou que eu queria pilotar Harleys a ter me submetido a uma dúzia de operações e muitos constrangimentos, alguns engraçados outros aterrorizantes.

Mas, em agosto de 1995 eu percebi, depois de trinta anos de casamento feliz e amoroso, perfeitamente normal em todos os aspectos, que eu gostaria de me tornar uma velha senhora, não um velho senhor. Era o que eu queria desde os onze anos de idade – mas as pessoas se adaptam, e foi o que eu fiz. Capitão do time de futebol americano na escola. Economista macho. Um ótimo pai, um ótimo marido. Eu ainda posso trocar um pneu – mas prefiro que um homem o faça.

Para se manter na tranquilidade de Iowa, assista a entrevista de Jenner, disponível no site da ABC. Diane Sawyer veio de Kentucky, como muitas das pessoas de que mais gosto. Eles também são muito tranquilos por lá.

 

Tradução de Gisela Gasparian