Culpa, responsabilidade e implicaA�A?o – Blog da Ubu editora

Culpa, responsabilidade e implicaA�A?o


Christian Dunker, autor de ReinvenA�A?o da intimidade, compartilhou texto inA�dito com a Ubu

 

 

Recentemente uma sA�rie de reportagens tem examinado a linguagem em curso na vida digital. AtA� mesmo censores e encarregados de zelar pelas polA�ticas de privacidade sofrem com problemas psicolA?gicos porque passam o dia caA�ando imagens contendo cenas de decapitaA�A�es de maus-tratos contra animais, violA?ncia contra minorias, abuso de mulheres, atos de humilhaA�A?o, expressA�es de A?dio, intolerA?ncia e ou formas de sexualidade ofensivas ou agressivas. TambA�m jA? se observou como o excesso de exposiA�A?o A� linguagem digital, particularmente redes sociais aumenta nossa disposiA�A?o a patologias narcA�sicas, confirmando formaA�A�es hiperidentitA?rias e de recusa da diferenA�a. O fenA?meno A� muito amplo e provavelmente tomarA? algumas geraA�A�es atA� ser dimensionado. Por ora, gostaria de postular que ele se baseia em um efeito mais genA�rico, trazido pela comunicaA�A?o digital que A� a inconsequA?ncia que ela faculta em relaA�A?o com o que dizemos. A chamada pA?s-verdade A� apenas um epifenA?meno com impacto polA�tico e cognitivo de maior proporA�A?o, mas que A� antes de tudo um fenA?meno baseado na reduA�A?o de nossa implicaA�A?o com a palavra, uma ilusA?o ou irresponsabilidade com a experiA?ncia (posto que ela A� sentida como virtual), e ainda um terreno fA�rtil para que a economia da culpa se multiplique, reafirmando funcionamentos jA? conhecidos, mas que agora ganham uma espA�cie de matA�ria prima infinita para se reproduzirem.

Assumindo que este fenA?meno pode ter o ano 2005 como data de nascimento a�� como ano base da expansA?o da internet em escala global a��, vou retornar a um caso clA�nico, publicado exatamente 100 anos antes, para expor a diferenA�a crucial que a linguagem digital acaba tornando mais difA�cil de discernir.

O caso Dora A� uma das cinco grandes psicanA?lises escritas por Freud e atA� hoje estudadas por aqueles que pretendem comeA�ar a clinicar. Trata-se de uma jovem envolvida em uma trama familiar mirabolante, no interior da qual seu pai, rico e poderoso, tem uma amante. Para encobrir o caso, ele se mostra conivente com o interesse que o marido de sua amante mostra em relaA�A?o A� sua prA?pria filha. Dora estA? indignada e se sente usada como objeto de barganha para encobrir a corrupA�A?o do pai, que ela sinceramente ama e respeita. Sua mA?e, dedicada aos afazeres domA�sticos, nada percebe ou finge nada ver. O prA?prio Freud faz parte da trama. Tendo sido anteriormente mA�dico do pai, que sofria de sA�filis, recebe agora a filha em confianA�a, diante da apariA�A?o de uma misteriosa carta suicida. O fato dele encaminhar a filha nA?o seria uma maneira, ainda que indireta, de pedir que o mA�dico ajude a encobrir o assunto, tornando tudo uma a�?aA�A?o entre amigosa�??

A situaA�A?o pode ser abordada por trA?s A?ngulos distintos e curiosamente interligados. A perspectiva judicial diria que estamos diante de uma situaA�A?o de assA�dio, moral ou sexual. O Sr. K., marido da amante do pai, tenta beijar Dora, que se defende desferindo um tapa na cara do sujeito. Ela A� uma menor de idade, precisa da proteA�A?o da lei e sua condiA�A?o vulnerA?vel apenas acentua sua fragilidade diante de um crime doloso ou culposo. A cultura do estupro na Viena de 1901 sA? torna a culpa do Sr. K. ainda mais paradigmA?tica. Lembremos que culpa possui um sentido relativamente ambA�guo de delito, vA�cio ou erro. Mesmo na esfera jurA�dica a ideia de culpabilidade remete A� negligA?ncia, imprudA?ncia ou imperA�cia, diferindo da ideia de dolo que traz consigo intencionalidade, premeditaA�A?o e motivaA�A?o.

Freud colocava o sentimento de culpa a�� a�?SchuldgefA?hlta�? a�� no centro de suas preocupaA�A�es com o mal-estar, a principal fonte para o nosso sofrimento moral, que faz o sadismo do supereu casar-se com o masoquismo do eu em uma espA�cie de espiral que se autoperpetua. O gozo sA?dico de culpar o outro, assim como a satisfaA�A?o inconsciente para manter-se culpado criam uma espA�cie de parceria continuada, na qual o processo de purificaA�A?o masoquista do eu tende a impor disciplinas de autorregulaA�A?o, constrangimento e policiamento, gerando um sentimento de permanente dA�vida e insatisfaA�A?o com a prA?pria vida. A culpa que sentimos em relaA�A?o a nA?s mesmos, por nA?o estarmos A� altura de nossos prA?prios ideais ou pela inconsequA?ncia e displicA?ncia com as quais tratamos nossos desejos, torna-se assim permanentemente orientada para algum outro que poderia nos aliviar este peso.

Assim nasce a figura do controlador insaciA?vel, que nunca estA? satisfeito com nada, que estA? sempre a imputar insuficiA?ncias aos outros, pois hA? um gosto todo particular em a�?culpar os outros para aliviar o prA?prio eua�?. E este alA�vio A� venenoso porque por outro lado ele mesmo sabe que agindo desta maneira ele estA? a tratar mal os outros e a perder, consequentemente, seu amor, respeito ou solidariedade. Desta forma, na solidA?o de seu travesseiro o culpabilizador compulsivo se sente, ainda assim, vA�tima do mundo, desprezado e injustamente pouco amado. Um dos traA�os mais constantes da culpa enquanto sentimento conservador e nA?o transformador A� que ela nA?o demanda reparaA�A?o, desculpas ou reposicionamento. Ela demanda A?dio, convicA�A?o e confirmaA�A?o de identidades. Por isso ela converte-se tA?o rapidamente em uma conversa sobre quem sA?o as pessoas e nA?o sobre o que elas fazem.

Freud descreveu algumas soluA�A�es dramA?ticas para este cA�rculo infernal, por exemplo tentar a�?objetivar a culpa em atosa�? de transgressA?o, ou de autopuniA�A?o, muitas vezes incompreensA�veis ao prA?prio sujeito. SA?o aqueles que parecem boicotar sua felicidade ou torpedear seu prA?prio sucesso, como se nA?o pudessem aproveitar os sorrisos, ainda que esporA?dicos, que a vida lhes endereA�a. Eles deliquem por sentimento de culpa para aplacar e criar uma espA�cie de realidade que dA? suporte, confirma ou materializa a culpa.

Neles a culpa precede e nA?o sucede o crime, tornando-se assim uma espA�cie de a�?alA�vio culposoa�?. Tipicamente eles a�?querema�? ser pegos e punidos, deixando rastros de mal planejamento ou impulsividade em suas aA�A�es. Na crianA�a o fenA?meno pode enlouquecer os pais que nA?o entendem porque ela os desafia, desobedece ou faz coisas que parecem pedir por uma crA�tica ou uma puniA�A?o. Na mesma direA�A?o muitos pacientes apresentam-se A� anA?lise sedentos pela culpa, seja de si, seja do outro. Imaginam que o tribunal psicanalA�tico lhes oferecerA? mais um fragmento de satisfaA�A?o para o que jA? vA?m praticando em suas vidas. De fato, negligA?ncia, imprudA?ncia e imperA�cia, as trA?s figuras jurA�dicas da culpa, nos remetem ao problema do saber. ImperA�cia acomete aqueles a quem falta o saber, como na incompetA?ncia, desqualificaA�A?o ou ignorA?ncia. NegligA?ncia A� nA?o agir diante do saber que se tem, como na leniA?ncia ou prevaricaA�A?o. ImprudA?ncia A� avaliar mal o risco envolvido em saber e agir, como quando se precipitam a uma aA�A?o baseando-se em preconceitos.

Voltemos ao pai de Dora. Podemos dizer que ele A� culpado por negligA?ncia e imperA�cia. Percebemos assim quA?o pouco isso transforma a situaA�A?o. O mA?ximo que se poderia obter aqui A� uma perda de reputaA�A?o social e uma degradaA�A?o do narcisismo, que A� afinal o que comanda a sua hipocrisia. Isso A� muito pouco porque o essencial A� que ao nos atermos A� consagraA�A?o da sua culpa, podemos indiretamente isentA?-lo da responsabilidade pela sustentaA�A?o da situaA�A?o.

Este A� o segundo efeito patA?geno e imobilizador da culpa: ela acaba nos aliviando da responsabilidade. Assim como a culpa A� um afeto ligado ao passado, a reponsabilidade nos leva ao presente. Pagamos por culpas passadas, mas nos responsabilizamos pelos danos presentes. Aqui entra a reparaA�A?o e a tentativa de fazer justiA�a. No fundo A� isso que queremos, sobretudo quando culpamos aqueles que amamos ou admiramos.

Mas o efeito acaba sendo o contrA?rio, quando nA?o participamos do processo de reconstruA�A?o da experiA?ncia. A culpa A� individualizada, culpado A� punido e a responsabilidade A� suspensa ou atribuA�da a uma instA?ncia genA�rica como a educaA�A?o, a polA�tica ou a cultura. O pai de Dora A� quem, em A?ltima instA?ncia, responderia pela cadeia de fatos que constitui a situaA�A?o e quem trabalha ativamente para sua perpetuaA�A?o. Contudo, trair a esposa nA?o A� crime ainda que seja uma violaA�A?o moral ou uma deslealdade A�tica. O que lhe falta nA?o A� culpa, mas responsabilidade.

Responsabilidade provA�m da ideia de resposta, e quem diz resposta presume pergunta. De fato, esta capacidade de questionar-se sobre os fins e os meios de nossos atos A� que o define o campo da A�tica. Nunca deixamos de ser responsA?veis por nossa posiA�A?o como sujeitos, dizia Lacan. Enquanto a culpa individualiza, tanto na autoria do ato, quanto na tipificaA�A?o do crime, a responsabilidade convoca a resposta, convida a posicionar a pergunta e envolve um trabalho coletivo. Este A� o trabalho de reconstruA�A?o ou de reparaA�A?o da experiA?ncia, sendo esta necessariamente um bem comum, com o qual construA�mos relaA�A�es.

Mas isso A� diferente de responsabilidade coletiva, termo usualmente empregado para designar a culpa e sua diluiA�A?o neutralizante. Aqui a diferenA�a A� crucial porque enquanto se pode obrigar alguA�m a ser culpado ou reconhecer discricionariamente a culpabilidade, a responsabilidade A� efeito de uma produA�A?o A�tica que nos transporta para outro plano de compartilhamento do mundo. NA?o A� mais o da ordem e da coerA�A?o, mas da liberdade e da autonomia. Percebe-se aqui os efeitos desastrosos de uma educaA�A?o que nA?o consegue discernir culpa e responsabilidade.

Voltando novamente ao caso Dora. A pergunta relevante, clinicamente falando, passa pela disjunA�A?o entre culpa e responsabilidade, mas ela se fixa, decisivamente, em um terceiro ponto que A� a implicaA�A?o. Se a culpa A� com o passado e se a responsabilidade emana da possibilidade de compartilhar a experiA?ncia presente, a implicaA�A?o, como movimento do desejo, parte do presente, vai ao passado e projeta-se para o futuro. A implicaA�A?o nA?o apenas individualiza, repara, reconstrA?i ou compartilha, ela cria uma espA�cie de compromisso com um novo mundo possA�vel. Notemos como o compromisso indeterminado com o que virA? nA?o se confunde com a obediA?ncia da lei, nem se resume ao engajamento cuidadoso com a experiA?ncia comum.

Na verdade, a implicaA�A?o presume que tanto a culpa quanto a responsabilidade estA?o subsumidas; elas foram, por assim dizer, ultrapassadas e incorporadas. A implicaA�A?o A� um termo que vem da lA?gica e se refere ao tipo de relaA�A?o que se pode ter com a verdade. Por exemplo, de uma antecedente verdadeira pode seguir-se outra verdadeira, mas tambA�m podemos ter o caso de uma antecedente falsa que nos leva a uma consequA?ncia verdadeira. Isso A� interessante pois mostra como certas construA�A�es ficcionais, obviamente falsas do ponto de vista de sua correspondA?ncia com a realidade atual, pode nos levar a uma posiA�A?o de verdade, ainda que futura. Na lA?gica booleana o A?nico caso na qual se pode afirmar a falsidade A� quando a antecedente A� verdadeira e a consequente falsa. Esse A� o caso do cinismo ou da mA?-fA�.

Para Lacan algo anA?logo se dA? nos termos da implicaA�A?o significante, isto A�, na relaA�A?o que temos com a palavra enquanto portadora de nosso desejo e que pode ser uma relaA�A?o de implicaA�A?o. Portanto, se somos sempre responsA?veis por nossa posiA�A?o de sujeito, nem sempre estamos implicados como sujeitos em nossos desejos, pela via dos significantes que os representam. Teria sido este o interesse da intervenA�A?o de Freud no caso Dora. Depois de escutar os detalhes da trama, as infraA�A�es morais e as hipA?teses de leitura e de interpretaA�A?o ele pergunta a ela: qual a parte que lhe cabe na misA�ria da qual vocA? se queixa? Se lermos este movimento como uma imputaA�A?o de culpa, Freud estA? sendo leniente com o pai e culpando a vA�tima. Se lermos este movimento como uma convocaA�A?o de responsabilidade vemos que Freud estA? perguntando, sartreanamente, o que fazer como o que os outros fizeram com vocA?. Mas se entendermos que o fundamental desta intervenA�A?o A� produzir implicaA�A?o, veremos que isso A� o mais difA�cil de obter na vida, na polA�tica e no amor.

 

 

Christian Dunker A�A�psicanalista e professor CatedrA?tico da Universidade de SA?o Paulo (USP). Notabilizou-se ao grande pA?blico ao receber o PrA?mio Jabuti de melhor livro em Psicologia e PsicanA?lise em 2012, de segundo melhor livro em Psicologia, PsicanA?lise e Comportamento em 2016 e por sua atividade como colunista naA�Revista Mente & CA�rebro, naA�Revista Cult, naA�Revista BrasileirosA�e no Blog da Boitempo Editorial. Coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Jr., o LaboratA?rio de Teoria Social, Filosofia e PsicanA?lise da Universidade de SA?o Paulo (Latesfip/USP).

 

 

Imagem de capa:A�The Horrendous Stopper, RenA� Magritte

 

 

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