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A história por trás do título: O mundo codificado

Por Rodrigo Maltez-Novaes Para Flusser, a prática de reutilizar títulos para livros, ensaios, e cursos era comum. Apesar do hábito fazer parte de uma filosofia que visava gerar um sistema de pensamento aberto e recombinatório, essa prática pode, em alguns casos, causar confusão em relação ao conteúdo de suas publicações e cursos. Em maio de 1973, logo após ter voltado para a Europa, Vilém Flusser proferiu uma conferência no Centro de Formação Permanente em Artes Plásticas […]







Resenha: 24/7 – capitalismo tardio e os fins do sono

Por Anthony Rodrigues Um dos debates mais efervescentes na teoria antropológica contemporânea seria a polêmica referente a linha limítrofe entre natureza-cultura na história das sociedades humanas. Esses dois eixos são geralmente vistos como paradoxais — com algum grau de determinação entre si — mas a priori nunca vistos como duas esferas capazes de colonizar totalmente a outra. Nos debates sobre gênero, por exemplo, as correntes materialistas afirmam que a construção social correlacionada aos papéis sexuais de […]







Por que Argonautas?

Em 1922, quando publicou a obra prima Argonautas do Pacífico ocidental, Bronislaw Malinowski “inventou” a etnografia. Com longos períodos de convívio com os habitantes das Ilhas Trobriand na Melanésia, o antropólogo polonês pôde fazer uma descrição inédita da vivacidade de uma cultura. Um parágrafo clássico da Introdução do livro dá o sabor de sua narrativa: “Imagine-se o leitor sozinho, rodeado apenas de seu equipamento, numa praia tropical próxima a uma aldeia nativa, vendo a lancha ou o barco que o […]







O menino e o jacaré

Por Mônica Calderano   Dois anos tem o pequetito, e ele quer ouvir história. Não resolve livro só de figurinha, ele quer “livro de ler”, igual do irmão. “Mamãe, lê!”, ele avisa, mas não se acalma, não senta, mal ouve. Quer pôr a mão, quer fechar o livro, quer passar a página. Até o dia em que conheceu o jacaré. Era noite de quarta-feira. Mal o jacaré tinha entrado pela porta do quarto e ele […]







Père Ubu é presidente!

Por Hal Foster É claro, a “pós-verdade” é um grande problema, mas e a “pós-vergonha” então? Como desafiar um político que não sente vergonha? Ou protestar contra um líder que impera no absurdo? Como desdadáizar um presidente dadá? Talvez, quando eles jogarem baixo, nós devêssemos jogar ainda mais baixo e escandalizar o escândalo. Ideias sobre a condição da pós-vergonha levam a refletir sobre os tempos pré-vergonha. A projeção mais escandalosa remete ao “pai primevo”. Lembremos que, em Totem […]







Descolonização e incerteza nas exposições paulistas de arte contemporânea

Por Pedro de Niemeyer Cesarino   Ainda que a “questão indígena” e “antropológica” estejam cada vez mais presentes na arte contemporânea, faltaria ainda o engajamento mais efetivo com os conceitos das próprias sociedades indígenas na construção de narrativas pelas quais elas costumam ser compreendidas.   Há mais de 50 anos, o antropólogo Claude Lévi-Strauss observava (em “As descontinuidades culturais e o desenvolvimento econômico e social”) que a aparente singeleza tecnológica das sociedades indígenas implica, na […]







Alfred Jarry iniciador e iluminador – por André Breton

“Pintar é somente fingir”: esta proposta de Corneille Curce, autor de uma obra intitulada Les Clous du seigneur (1634), Alfred Jarry a toma para si em um artigo abundantemente documentado sobre o mesmo assunto, que o Ymagier[1] publica em seu número 4, datado de julho de 1895. Sabe-se que hoje em dia ninguém mais do que ele é vítima de um dos piores flagelos de nosso tempo que é, em geral para propósitos sectários, a redução grosseira a um […]







Bastidores do projeto gráfico: Ressaca Tropical

Ressaca Tropical é originalmente uma instalação do artista Jonathas de Andrade que combina páginas transcritas de um diário encontrado no lixo com imagens cuidadosamente posicionadas nas paredes.        Condensar essa obra, essencialmente espacial, em um livro, pressupunha uma recriação, mas com a premissa de manter as sensações e o sentido poético da obra no novo suporte. Como a obra se dá na articulação entre o texto do diário e uma seleção de fotos do Recife […]