O capitalismo contemporâneo e o pensamento selvagem


Em 2008, o antropólogo americano Marshall Sahlins, autor de Esperando Foucault, ainda foi entrevistado pela revista Anthropological Theory. A Ubu selecionou e traduziu uma das questões da entrevista, essencial para entender como Sahlins vê o capitalismo contemporâneo

 

O capitalismo contemporâneo é o verdadeiro “pensamento selvagem”?

Não acho que o capitalismo contemporâneo seja o verdadeiro “pensamento selvagem” [Lévi-Strauss], é mais que ele envolve uma lógica cultural do concreto que é semelhante a isso, na forma de valores de uso. Contudo, quando esses valores são fetichizados e transformados em preços, em uma operação que visa ao lucro, essa lógica funciona como um “pensamento selvagem” fora de controle. Sob nossa racionalidade pecuniária e bastante escondido por ela está todo um sistema de valores culturais motivados que relacionam sujeitos e objetos, consequentemente preferências e produtos, de acordo com a característica diferencial e significativa de cada um. Claro, não é assim que os sujeitos burgueses vêem as coisas, os quais geralmente vivem os valores culturais de maneira irrefletida por meio do hábito. O mesmo ocorre com os economistas que, tendo definido a racionalidade prudente como assunto de seus estudos, abandonam as formas culturais ao limbo dos fatores “exógenos” ou até “irracionais”. Certas relações entre a anatomia de animais comestíveis e as ocasiões em que os comemos, por exemplo, são entendidas por consumidores americanos por meio da fórmula simples pela qual filé mignon está para hambúrguer assim como um jantar chique está para um almoço qualquer. Permanecemos inconscientes de que nossas escolhas racionais – não servimos hambúrguer em um jantar com convidados importantes – são baseadas em um código de valores que tem pouco ou nada a ver com a utilidade nutricional e tudo a ver com a significação de órgãos vs. músculos, carne exterior vs. entranhas, entalhado vs. bruto, pratos elaborados vs. sanduíches, e por aí vai. Da mesma forma, os atributos pragmáticos do vestir-se não dão conta de explicar os diferentes estilos significativos das distinções sociais predominantes entre homens e mulheres, feriados e dias úteis, homens de negócios e policiais, bailes de debutante e festas disco – pense em todos os sentidos que roupas podem adquirir (como Roland Barthes nos ensinou).

Claramente, fomos prematuros ao celebrar o triunfo do naturalismo, desde o século XVII, como o “desencantamento do mundo”. O que de fato aconteceu foi o encantamento da sociedade ocidental com o mundo: por meio dos valores culturais do corpo ao invés dos do espírito. Agora vivemos em um mundo encantado pelo que é constituído pela semiótica, utilitários culturalmente relativos, como ouro, seda, uvas pinot noir, azeite, filé mignon, tomates heirloom e água Fiji. Assim se dá a construção da natureza por esquemas culturais historicamente específicos, cujas qualidades simbólicas são, no entanto, traficadas como o são as quantidades pecuniárias, cujas fontes sociais são atribuídas mais aos desejos individuais, e cujas satisfações arbitrárias são mistificadas como escolhas racionais universais.

Mas então, porque competitivamente impulsionado à maneira do dinheiro, o encantamento joga para fora uma variedade ilimitada de coisas, à medida que ainda é possível comoditizar as distinções sociais entre sujeitos e objetos para se obter lucro. Sofremos da loucura que a ganância trouxe à tona, em que, como Sólon disse há muito tempo, “não há limite de riqueza estabelecido para os homens”. Assim, também não há limite para nossa lógica cultural do concreto, conquanto seja organizada pela busca incansável de desejos infinitos e ganhos pecuniários.

 

Para ler o texto original da entrevista, acesse este link.

_

livros relacionados

Esperando Foucault, ainda
Marshall Sahlins

em pré-venda por R$ 29,75 até 4/6

Untitled-1