Bringhurst antropA?logo – Blog da Ubu editora

Bringhurst antropA?logo


Foto: Louise Mercer

AlA�m de escritor, poeta, tradutor, linguista e renomado tipA?grafo e designer, o multifacetado autor de Elementos do estilo tipogrA?fico, Robert Bringhurst, A� tambA�m um estudioso da cultura dos povos nativos norte-americanos, tendo publicado um extenso estudo sobre os Haida. Abaixo, leia alguns trechos da entrevista feita com Bringhurst, em 2014, pela revista Guernica sobre a fascinante literatura e cultura dos Haida.

 

Guernica A�Como vocA? comeA�ou a se interessar pela cultura e pela poesia Haida?

Robert Bringhurst Me mudei para a costa noroeste do CanadA? em 1973 e tenho vivido aqui desde entA?o. Quando cheguei, precisava conhecer o lugar em que estava. Fiz isso andando pelas praias, escalando as montanhas, andando de caiaque no mar, lendo guias locais de botA?nica e literatura regional. Mas este A� um lugar cuja literatura regional em inglA?s nA?o alcanA�a muitas pessoas de fora. Por isso, fui rapidamente levado para o trabalho etnogrA?fico: as traduA�A�es de Franz Boas das lA�nguas Tsimshian, Nisgha, Kwakwala, Kathlamet e Shoalwater Chinook; as traduA�A�es de Edward Sapir da lA�ngua Nootka; as traduA�A�es de John Swanton das lA�nguas Haida e Tlingit. E, aos poucos, aprendi sobre a identidade dos falantes, apesar da ideia errada que Boas e alguns dos outros etnA?grafos do passado tinham de que, em culturas orais, a identidade do falante nA?o importa.

As traduA�A�es, A�s vezes, nA?o funcionavam, mas a maioria me impressionou de uma maneira que a literatura regional moderna nA?o conseguiu. Sem dA?vida, foram as histA?rias do povo Haida do sul que deixaram uma marca maior em mim. Nisso, comecei a procurar pelos originais e os encontrei na FiladA�lfia, onde o prA?prio Boas e muitos de seus estudantes depositaram suas anotaA�A�es de campo e transcriA�A�es.

Guernica Esses poemas vA?m de um mundo muito diferente do nosso, e um leitor sA�rio pode aprender muito com os Haida, sobre botA?nica, rituais, hierarquia, linhagem, construA�A?o de barcos, caA�a a�� poderia continuar enumerando a��, a fim de absorver toda a complexidade desse povo. O que o inspirou a estudar essa cultura tA?o a fundo?

RB Bem, como disse, vim viver na costa noroeste do CanadA?. E foram os poetas Haida, que morreram aqui bem antes de eu nascer, que me ensinaram como fazer isso.

[…]A�Naqueles dias, dos anos 1970, os poetas canadenses falavam sem parar sobre o lugar. O lugar era um tema sagrado para a poesia. Os poetas Haida, ao contrA?rio, nunca falaram de lugar, eles viviam e respiravam o lugar. Seu trabalho estA? imerso no mundo nA?o humano: no mar e nas montanhas, nos mamA�feros e pA?ssaros marinhos, nas rochas e plantas da praia. O que eu precisava saber para entender esses poetas era exatamente o que eu queria. Eu precisava o necessA?rio para poder estar ali.

Guernica Descobri, lendo seus livros sobre os Haida, quais ferramentas existem na literatura amerA�ndia para dar vida e profundidade psicolA?gica para algas, sequoias e zosteras, da mesma maneira que os russos e os franceses deram vida literA?ria A�s A?rvores latifoliadas.

RB Na literatura russa, como na literatura colonial canadense, hA? muitas paisagens. Os personagens frequentemente refletem ao olhar para uma grande floresta ou ao passar por essas florestas quando caminham de uma localidade a outra, mas raramente demonstram conhecimento detalhado sobre ela a�� a maioria pertence a uma classe social que tem outras preocupaA�A�es, o que significa que estA?o fadados a ter uma espA�cie de relaA�A?o romA?ntica e rasa com o espaA�o ao redor. Ainda assim, a floresta estA? presente na histA?ria de maneira poderosa, como o oceano em Moby Dick. A floresta, de fato, pode ser um dos personagens principais da histA?ria. EntA?o, entender de que tipo de floresta se trata pode ser muito A?til ao leitor.

[…]A�Na literatura amerA�ndia nA?o hA? romances. Em vez disso, o gA?nero maior A� o mito. E mitos sA?o, fundamentalmente, histA?rias sobre o mundo e nA?o sobre os indivA�duos. Um mito nA?o precisa conter seres humanos. Se os contA�m, eles quase sempre sA?o personagens secundA?rios a�� humanos imaginA?rios cuja funA�A?o A� informar o que estA? acontecendo no mundo mA�tico, mas nA?o participantes centrais da aA�A?o.

Guernica Uma descriA�A?o comum da literatura de sociedades A?grafas A� que ela A� antropomA?rfica: faA�anhas humanas sA?o expressadas em suas relaA�A�es com os elementos da natureza. Muitos filA?sofos e antropA?logos ocidentais, comeA�ando com Hegel, viram essa caracterA�stica como um passo crucial para o desenvolvimento da cultura. Mas, quando vocA? diz que a literatura amerA�ndia trata de um grande universo mA�tico onde humanos tA?m papA�is secundA?rios, parece que estA? sugerindo outra coisa, ou quase o oposto disso: que humanos e suas emoA�A�es nA?o sA?o nada alA�m de imitaA�A�es sem vida de estados da natureza.

RB Muitos herA?is intelectuais de tradiA�A?o europeia parecem pensar que um mundo no qual os humanos nA?o tA?m poder ou nA?o fazem diferenA�a nA?o poderia ser interessante para nA?s. Mas nA?s esperamos de geA?logos, biA?logos, fA�sicos, quA�micos e astrA?nomos algo melhor do que isso, uma perspectiva maior, enquanto que deixamos estudiosos de literatura e filA?sofos pensarem dessa forma.

Quando nos recusamos a dar atenA�A?o a um mundo que abarca mais do que a esfera humana, acabamos vendo os mitos como triviais. O resultado disso A� uma cultura como a nossa, que nA?o sabe para que servem os mitos e tenta relegA?-los ao livros infantis.

A� de se esperar que, em uma cultura como essa, surjam teorias sem sentido e condescendentes sobre a origem dos mitos a�� e como surgiram! A ideia de que o mito A� sempre um spin-off narrativo do ritual; a de que o mito A� uma projeA�A?o das ansiedades humanas sob uma forma cosmolA?gica, a de que os mitos foram inventados para sancionar as predileA�A�es e intuiA�A�es humanas… Todas sA?o formas de trivializar uma maneira de pensar que serviu bem A� humanidade por um longo perA�odo de tempo.

ProjeA�A?o de ansiedade pode acontecer e acontece a�� nos mitos, na mA?sica, na ficA�A?o e nos escritA?rios dos mA�dicos tambA�m. Esse fato nA?o torna a projeA�A?o a base de tudo. Um narrador de mitos pode comeA�ar a narrar uma histA?ria e ser levado a dizer algo muito menos interessante, como explicar por que homens acham aceitA?vel bater em suas esposas. Romancistas, A� claro, podem fazer o mesmo a�� Tolstoi o fez em A sonata a Kreutzer. Se A� um etnolinguista que estA? sentado lA?, com seu gravador ou seu caderno, esse deslize do narrador de mitos serA? preservado. Mas se A� um teA?rico que tende a dar muito relevo a esse tipo de acontecimento, os enxergando como princA�pios de uma comunidade, o erro A� ampliado e passa a empilhar uma neurose em cima da outra.

A natureza, ou o mundo, ou a realidade sA?o os principais temas da mitologia. Logo sA?o os principais temas das literaturas centradas em mitos, como as dos Haida ou dos Navajo, por exemplo.

[…]

 

Guernica E quanto A� violA?ncia, especificamente a da colonizaA�A?o e da doenA�a, que os poetas Haida Skaay e Ghandl testemunharam em primeira mA?o?

RB Nenhuma sociedade prA�-colonial norte-americana teve a capacidade de infligir violA?ncia na escala que a sociedade industrial moderna teve. A chegada dos europeus mudou isso definitivamente. De maneira intencional ou nA?o, a introduA�A?o de doenA�as europeias constituiu uma arma muito eficaz de guerra. MilhA�es a�� nA?o estou exagerando: milhA�es a�� de nativos norte-americanos morreram de patologias importadas. A causa A� inescrutA?vel, porque nA?o foi preciso nenhum contato com europeus ou com bens de troca para que isso acontecesse. Sociedades e lA�nguas inteiras foram dizimadas, outras foram reduzidas a grupos dispersos de refugiados. Em seguida foram introduzidas as armas de fogo e os cavalos a pessoas que nunca os tinham visto antes. Antigas fronteiras territoriais foram dissolvidas. A?reas de plantio e de pesca foram destruA�das. IncontA?veis espA�cies animais foram caA�adas A� extinA�A?o. Sociedades que costumavam coexistir em harmonia por sA�culos foram induzidas a criar conflitos entre si, que se A�somaram a seus conflitos com os colonizadores, as trading companies, as ferrovias e o exA�rcito americano.

[…] Isso tudo afetou o comportamento das pessoas? Mudou suas personalidades? Afetou as histA?rias que narravam? Claro, A� impossA�vel que nA?o causasse impactos.

Mas antes do contato com os europeus nenhuma das sociedades amerA�ndias tinha seu prA?prio sistema de escrita, entA?o tudo o que temos sA?o os arquivos posteriores a isso. Alguns foram escritos por estrangeiros, outros pelos prA?prios nativos norte-americanos, mas nenhum A� datado de antes de as tragA�dias terem acontecido. Por isso, nA?o se pode fazer um estudo comparativo real entre as literaturas de antes e de depois do contato com os europeus. Ainda assim, hA? algumas coisas que podemos observar.

Skaay, por exemplo, chegou a olhar para o que o sA�culo XIX tinha a oferecer. Ele sabia tudo sobre rifles e muniA�A?o, facas de aA�o, chaleiras de ferro. TambA�m estava familiarizado com barcos a vapor, mesas e cadeiras, lanternas de vidro, livros impressos e muitos alimentos europeus. Mas nenhuma dessas coisas aparece em suas narrativas mitolA?gicas. Uma faca europeia dobrA?vel a�� que ele chama de a�?sqaaw qquudaxunga�?, a�?uma faca que consegue abrir sua bocaa�? a�� chega a ter um papel importante em uma histA?ria narrada sobre sua linhagem, e estA? diretamente conectada com uma das epidemias de catapora. A histA?ria de uma linhagem ou de uma famA�lia, por sinal, A� um gA?nero prA?prio na literatura Haida: nA?o se enquadra no dos mitos e nem no da histA?ria lato sensu, apesar de carregar caracterA�sticas de ambos.

Mas quando ele estA? operando como um narrador de mitos per se, sua imagA�tica A� 100% indA�gena. NA?o sA? indA�gena, mas tambA�m antiquada. Quando ele fala sobre casas, descreve um estilo de moradia Haida que jA? havia deixado de ser realizada antes mesmo de ele nascer. Mas, quando seu amigo Kilxhawgins, um historiador oral, conta histA?rias contemporA?neas ao contato europeu, barcos a vapor e armas de fogo sA?o livremente mencionados.

Narradores de mito dos povos Cree e Navajo agem essencialmente da mesma forma: mantA?m seus mitos, mas nA?o seus relatos histA?ricos, livres de contaminaA�A?o europeia. Com os Navajo, no entanto, hA? uma exceA�A?o significativa. Eles dA?o lugar ao cavalo no universo mitolA?gico: ao cavalo, mas nA?o A� sela, a outros apetrechos ou A� arma. Seria interessante fazer um exame mais profundo e tentar descobrir se o nA�vel de violA?ncia retratado nas histA?rias de Skaay resulta de pressA?o colonial, mas nA?o vejo como essa questA?o possa ser, algum dia, resolvida. Para que fosse, seria preciso saber como as histA?rias eram narradas dois sA�culos antes de Skaay, e essa informaA�A?o estA? irremediavelmente perdida.

Guernica AlA�m de traduzir a lA�ngua original dos poemas, em seus livros sobre a literatura Haida vocA? altera o meio em que eles eram transmitidos, criando um registro escrito do que antes era sA? oral. E vocA? escreveu em sua trilogia sobre os Haida e em outros textos sobre a distA?ncia que hA? entre a formulaA�A?o oral e a formulaA�A?o escrita de algo, e entre a visA?o de mundo anterior ao advento da agricultura e a posterior ao advento. GostarA�amos que vocA? comentasse sobre seus esforA�os pessoais para entender esses outros modos de existir a�� o oral e o anterior ao advento da agricultura a�� e para transmiti-los por meio de livros para pessoas que sA? tiveram contato com uma sociedade literata, industrial e posterior ao advento da agricultura.

RB […]

Livros sA?o o melhor mA�todo que temos para manter a literatura viva. E livros me fazem feliz. Me sinto honrando de tA?-los nas prateleiras, tambA�m de escrevA?-los, editA?-los e projetA?-los. Livros sA?o a porta de entrada para algo maior, nA?o sA? para a mente de quem os escreve.

E a literatura tambA�m tem essa funA�A?o, oral ou escrita. Claro, hA? uma distA?ncia entre a oralidade e a escrita, mas tambA�m hA? uma distA?ncia entre a escrita e todo o resto. HA? uma distA?ncia entre o verbal e o real, e a ultrapassamos todos os dias. Por mais diferente que sejam as culturas oral e escrita, elas tA?m muito em comum.

Se buscarmos a origem de qualquer literatura escrita, vamos esbarrar no mundo oral. Transmitir a literatura oral para livros impressos A�, inclusive, bastante comum, porque continuamos a nos voltar para as origens. A� o que acontece em Beowulf, na IlA�ada, na Odisseia, na Kalevala, na CanA�A?o dos nibelungos… NA?o se pode escapar da tradiA�A?o oral aprendendo a ler.

Mas muitas pessoas tentaram escapar do selvagem por meio da agricultura e da pecuA?ria, se mudando para as cidades, arranjando empregos, acumulando bens comprados em shoppings com aquecedores e ares-condicionados. Nossa espA�cie como um todo tentou escapar do selvagem e do real, exercendo controle industrial sobre o planeta. Um trabalho de literatura que incita o leitor a abandonar esse controle, e talvez atA� o desejo de ter controle, acabarA? se tornando um desafio para a maioria dos leitores.

Guernica EntA?o, a literatura Haida, como vocA? diz, nos dA? uma visA?o de mundo muito maior do que qualquer indivA�duo e, de fato, muito maior do que a prA?pria raA�a humana. Mas um dos argumentos mais presentes na sua trilogia Haida A� o de que os mitos dos nativos norte-americanos deveriam ser pensados como a junA�A?o dos trabalhos de artistas individuais, que moldam suas produA�A�es de jeitos peculiares a seus gA?nios e inclinaA�A�es. O que faz dos dois maiores narradores de mito Haida, Skaay e Ghandl, poetas tA?o distintos?

RB Eu continuo insistindo na similaridade entre a literatura oral Haida e outra tradiA�A?o encabeA�ada por narradores de mito muito mais conhecida. Essa outra tradiA�A?o A� a da pintura renascentista. Pode parecer que estou sugerindo que Bellini, Ticiano e Mantegna tA?m correspondentes homA?logos em uma aldeia indA�gena do sA�culo XIX, e estou mesmo. […]

Um pintor renascentista narra histA?rias, ele nA?o as inventa. Ele nA?o inventa a crucificaA�A?o, a adoraA�A?o, o nascimento de VA?nus, Dafne se transformando em um loureiro, ou Acteon em um veado. Mas se ele for tA?o bom quando Mantegna ou Ticiano, ele narra essas histA?rias de uma maneira que ninguA�m antes narrou. Ele tambA�m as narra de tal modo que elas passam a impressA?o de serem reais. Ele torna os mitos imediatos e tangA�veis. E, assim, costura o atemporal e o tempo, unindo-os. Skaay e Ghandl fizeram exatamente isso.

 

Leia a entrevista completa aqui (em inglA?s): https://www.guernicamag.com/myth-is-a-theorem-about-the-nature-of-reality/.

 

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