breve_cortado

Breve dicionário hipocondríaco


Adolfo Montejo Navas  compartilhou um trailer de seu breve dicionário com a Ubu.

 

Aos que ressuscitam sem receita.

 

“Saúde demais é causa de doença”

Gustave Flaubert

 

“Ninguém curte tanto a vida como o convalescente.”

Walter Benjamin

 

ALGODÃO: Nuvem que se aplica para acariciar a pele ferida.

ALZHEIMER: Doença do esquecimento total, que permite a Ronald Reagan, por exemplo, esquecer que era ator quando era presidente dos EUA e depois esquecer que foi presidente.

ALMA: Essência que negocia permanentemente com o corpo a natureza do espirito.

AMBULÂNCIA: Taxi branco que vai mais rápido que os outros e utiliza sirene chamativa para vergonha do ocupante.

ANAL: O contrário de oral. Tem gente que confunde na medicação.

AMNÉSIA: Greve da memória (parcial ou total).

ANESTESIA: Palavra mágica que deve ser usada na dose certa.

ANGÚSTIA: Taumaturgia, apocalipse de bolso.

ANTICORPOS: Tipo de dublês corporais.

ANTÍDOTO: Para dissipar falsas importâncias, recomenda-se vivamente Cioran em gotas.

ARS LONGA VITA BREVISSe pode mudar a ordem das palavras, mas não da semântica.

AUTOPSIA: Reconhecimento autofágico. Metalinguagem médica. Última ratio. Coisa de herdeiros.

BANALIDADE: Doença fácil de diagnosticar mas que não é atendida ainda em consultórios.

CARÊNCIA: Falta de afeto dos planos de saúde.

CARONTE: Alfandegário que dá um passeio em barco aos seres que não gostam mais deste mundo.

CAVEIRA: Carcaça que mostra o vazio dos pensamentos anteriores.

CEMITÉRIO: Lugar em que os corpos descansam mas as almas não.

CICATRIZ: Tatuagem natural na pele feita sem escolher o motivo.

CONSULTA: Roleta russa em que o revolver está com o paciente e a bala com o médico.

CONTÁGIO: Imitação maligna, cópia de mal gosto.

CONTRASTEChiaroscuro, lição barroca.

DEPRESSÃO: Melancolia acirrada que constrói seu próprio castelo no ar.

DR. JEKILL: Personagem da fábula médico-moral de Robert Louis Stevenson de 1888 (traduzida como O médico e o monstro).

DESTINO: Determinismo negociado até o final com notas promissórias.

DOENÇA: Fonte primigênia onde o corpo vai beber erradamente.

EPILEPSIA: Dança involuntária.

ERRO MÉDICO: Crime perfeito com testemunhas.

ESQUELETO: Fantasma que habita dentro do corpo e que faz ruído de noite.

ESTRESSE: Palavra maldita que produz estresse em quem não sabe pronunciá-la em tempo.

ETERNIDADE: Divino tesouro que a gente ganha e que não serve para nada.

FAIR PLAY: Infelizmente, a dor não tem fair play.

FARMÁCIA: Parque temático das bulas.

FERIDA: Abertura que o mundo faz em nós.

FRÁGIL: Etiqueta que o hipocondríaco coleciona.

FRANKENSTEIN: Cirurgia mal acabada.

FUNERAL: Ritual no qual o protagonista costuma não estar nem aí. (Só em Nova Orleans fica bem a companhia da música).

FUNERÁRIAS: Estabelecimentos que permanecem sempre abertos em atenção ao cliente. Apaixonados pela cor negra e as coroas de flores com desenhos geométricos.

GOTA: Doença de origem aristocrática que impede ir comprar mais vinho.

GRAVIDADE: Deveria ser facultativa, como a estupidez.

HÉRNIA: As piores hérnias são na cabeça.

HORIZONTAL: Posição que produz pensamentos horizontais, a suspeitar se se abusa dela.

HOSPITAL: Catedral da dor onde os fieis acodem à força para rezar. Cenário ideal para representações do Teatro do Absurdo (Beckett, Ionesco, Arrabal).

INSTRUMENTAL: Tortura que sonha com o espírito da música.

LÁPIDE: Porta de pedra que não se usa.

LIVRO DOS MORTOS: Literatura fantástica do velho Egito digna de ser levada ao cinema de aventuras.

PLACEBO: Armadilha que dá certo fora das farmácias.

PLANO DE SAÚDE: Carta magna do capitalismo médico. O hipocondríaco-mor tem pânico até do plano de saúde.

POLISSEMIA: Semântica aberta a interpretações mas também infeção generalizada.

MAL: Coisa de Mefisto, encarnação maligna sem rosto que quer roubar primeiro a alma uma vez quebrado o pacto contratual entre as partes.

MOLIÉRE: Autor francês de teatro que teve a coerência de morrer encenando a sua peça, obra prima: O doente imaginário.

MORTE: Ruído de fundo.

NADA: Imposto revolucionário da realidade, contribuição personalizada para o grande Nada.

OBITUÁRIO: O último cravo que fecha o caixão. Muito utilizado no jornalismo.

ODONTOLOGIA: Especialidade que abriga simpatizantes infiltrados da antiga Gestapo.

PONTOS: Ao contrário do ideário economicista, quem mais leva pior fica.

POSOLOGIA: Arte da medida para equilibristas.

PREOCUPAÇÃO: Delírio que começa em dó menor.

PRONTUÁRIO: Ficha policial dos médicos com todo tipo de dados.

REALIDADE: Gaiola de grades invisíveis, da qual se sai com certo esforço e esperteza.

REPOUSO: Descanso obrigatório de quem não quer descansar.

RESSURREIÇÃO: De escolher, melhor em sábado para aproveitar o fim de semana.

RIP: Despedida em latim, forma sintética do adeus.

SALA DE ESPERA: Antessala na qual se cruzam os olhares, as pernas, os dedos e uma dor pode falar com outra com aparente naturalidade.

SAÚDE: Oásis, miragem do deserto.

SUTURA: Tipo de costura com arabescos praticado pelos cirurgiões conceituados.

TRANSPARÊNCIA: A hipocondria não aparece registrada na tecnociência do real, só nas máquinas do imaginário.

TRAUMA: Drama grego em que o acidente atávico é o verdadeiro protagonista.

VALENTIA: Tipo de prótese.

VIDA: Matriz cheia de contraindicações.

VIDÊNCIA: Quem sofre de excesso de vidência converte-se em hipocondríaco.

WELTASCHAUUNG: Conceito tido como concepção do mundo, algo que se precisa muito quando se faz uma mera visita médica.

XAROPE: Consolo infantil para todas as idades.

ZEBRA: Animal imaginário que passeia a vontade pelos hospitais.

ZERO: O grau zero da hipocondria não existe.