André Bazin e a crítica no Brasil


O cinema novo, a crítica dos anos 1960 e Bazin

No diálogo dos “cinemanovistas” com a nouvelle vague e o novo cinema italiano (Pasolini, Rosi, Bertolucci), ganha espaço a citação de Bazin e suas noções. Em depoimento, Gustavo Dahl ressalta que foi a leitura dos primeiros volumes de Qu’est-ce que le cinéma? que revelou a dimensão e a profundidade da teoria que ajudou os jovens a pensar os seus projetos e suas diferenças diante do cinema clássico. No debate crítico no momento de emergência do cinema novo, têm participação decisiva Jean-Claude Bernardet, José Carlos Avellar, Miguel Pereira, David Neves, José Lino Grunewald e Maurício Gomes Leite. O diálogo com a crítica internacional se ajusta de modo mais definido às necessidades do debate nacional em torno dos rumos do cinema.

Há uma variação na postura e nos estilos do cinema novo. Dos jovens cineastas, é David Neves quem destaca Bazin como figura inspiradora, em contraste, por exemplo, com Leon Hirszman, mais ligado ao pensamento de Eisenstein. Glauber Rocha é leitor dos Cahiers e desenvolverá uma reflexão sobre o plano-sequência, traço marcante do seu estilo, mas ele mantém uma relação tensa com o crítico, aliás, desde as aulas de Walter da Silveira (o crítico leitor de Bazin) em um cineclube da Bahia. São centrais para ele os exemplos de Godard e Buñuel, ou a inspiração de Brecht e de Eisenstein na composição da mise-en-scène de seus filmes. Os filmes de Paulo Cesar Saraceni compõem outro circuito de produtivo diálogo com o cinema moderno que inclui cineastas como Robert Bresson e Federico Fellini e o crítico Bazin. No livro Cinema novo, cinema moderno, organizado por Flávio Moreira da Costa, a coleção de artigos compõe um perfil de referências para pensar o novo cinema; Gustavo Dahl, Norma Bahia Pontes e o crítico Paulo Perdigão recorrem a noções de Bazin ao expor as questões da nova estética.

Ao lado dos textos que se conectam de forma direta à defesa do cinema novo, podemos citar comentários à obra de Bazin da parte de críticos não engajados nessa defesa de forma mais direta. Tomo como exemplos Cyro Siqueira e Enéas de Souza. Na Revista de Cinema, na fase dos anos 1960, Cyro Siqueira, embora sempre bastante afinado com a fenomenologia de Bazin, faz a crítica, em nome de sua concepção da funcionalidade da forma, à expressão “montagem proibida” como um risco de enrijecimento simétrico ao da teoria da montagem; em seu artigo, discute a política dos autores “jovens turcos” e sua relação com as teorias de Bazin. Enéas de Souza, notável crítico de Porto Alegre, refere-se à sua leitura de Bazin e, em 1966, publica o artigo “Pensamento crítico de André Bazin”. De forma sucinta, ele comenta as concepções do crítico: o cinema como forma de lutar contra o tempo e a morte; a ontologia da imagem fotográfica; as relações entre cinema e teatro. Souza problematiza as implicações dramáticas da profundidade de campo e busca formulações próprias a partir do campo aberto por Bazin. E cita Michel Mourlet ao endossar o elogio deste a Bazin como o homem que se movimentou no plano da essência do cinema, mais do que das hierarquias estéticas; enfim, o crítico que explicou as estruturas: um convite a ler, compreender e avançar.

 

Trecho do apêndice “Bazin no Brasil”, do crítico e professor de cinema Ismail Xavier, em O que é o cinema? de André Bazin.