Amores que matam: a casa e a cidade – Blog da Ubu editora

Amores que matam: a casa e a cidade


Por Luis FernA?ndez-Galiano

TraduA�A?o de Josely Vianna Baptista

 

HA? amores que matam, e nossa devoA�A?o pela casa A� um deles. Cada nA?mero [da revista Arquitectura Viva] dedicado A� casa nos compele a desfiar um rosA?rio de desculpas. Sim, sabemos que o habitat disperso gerado pela moradia unifamiliar e pelo automA?vel que a faz acessA�vel A� um absurdo ecolA?gico, uma afronta paisagA�stica e um empobrecimento social: o esbanjamento de recursos materiais e energA�ticos necessA?rios para construA�-la e mantA?-la A� uma agressA?o ao planeta; a extensA?o indiscriminada desse tapete de baixa densidade degrada o territA?rio de forma irreversA�vel, e a fragmentaA�A?o da vida coletiva destrA?i a densa rede de contatos que A� a principal riqueza das cidades, o suporte de sua prosperidade e a base de seu atrativo.

TambA�m sabemos, A� claro, que nas atuais circunstA?ncias de nossa civilizaA�A?o, assolada pela mudanA�a climA?tica, pelo esgotamento dos combustA�veis fA?sseis e pelo desgoverno econA?mico, a A?nica coisa que se pode preconizar de maneira responsA?vel A� a densidade urbana, que A�, no fundo, incompatA�vel com a casa.

Mas a casa nos fascina e nos seduz, quer em sua versA?o antropolA?gica de abrigo elementar e habitaA�A?o essencial, quer em sua variante tecnolA?gica de vitrine da vida privada e cofre do conforto familiar, e acabamos por sucumbir ao sortilA�gio de seus encantos.

 

Farnsworth House, projetada por Mies Van Der Rohe

Farnsworth House, projetada por Mies Van Der Rohe. Foto de Victor Grigas.

 

De modo que a desculpa A� a dimensA?o fenomenolA?gica explorada por Gaston Bachelard, com a casa como refA?gio dos sonhos do sA?tA?o e dos pesadelos do porA?o, numa linha de pesquisa do inconsciente que se estende de Freud ou Lacan atA� A?iA?ek, passando por Hitchcock; ou ela A�, ainda, a alegre exaltaA�A?o do consumo moderno, com as Case Study californianas de John Entenza, tendo a dupla Eames ou Pierre Koenig como seu momento mais eufA?rico e a collage do recentemente falecido Richard Hamilton a�� Just what is it that make’s today’s home so different, so appealing? a�� como seu anA?ncio e apoteose pop. Presos nessa arapuca, em seu modelo atemporal ou em sua encarnaA�A?o contemporA?nea, continuamos construindo casas e falando delas.

 

Casa das Canoas, projetada por Oscar Niemeyer. Foto de Frank van Leersum.

Casa das Canoas, projetada por Oscar Niemeyer. Foto de Frank van Leersum.

 

Pois, apesar de tudo, a casa continua sendo um formidA?vel laboratA?rio de pesquisa e inovaA�A?o que permite sondar os limites da indA?stria e a natureza em seus limites, como o evidenciam tanto os estudos pioneiros de edificaA�A?o residencial a�� dos quais publicamos seis exemplos da histA?ria recente a�� quanto as experiA?ncias extremas de construA�A?o de casas ou refA?gios em geografias remotas a�� documentadas com uma dA?zia de obras recentes em quatro continentes a��, e esta apresentaA�A?o simultA?nea talvez ilustre a fertilidade contumaz e permanentemente renovada da casa como experimento.

 

Gehry Residence, projetada por Frank Gehry. Foto de IK’s World Trip

 

Assim, defenderemos os benefA�cios da cidade densa como a moldura mais adequada para a vida humana num mundo finito, e seguiremos criticando a insensata suburbanizaA�A?o do planeta promovida pelo automA?vel e pela casa; mas vamos continuar a consumi-la em pequenas doses, como uma experiA?ncia arriscada ou prazerosa: uma droga sintA�tica, uma vacina em fase de testes ou um veneno que, tomara, nA?o seja fatal.

 

Luis FernA?ndez-Galiano A� arquiteto, professor de projeto na Escola de Arquitetura da Universidade PolitA�cnica de Madri e diretor da revista Arquitectura Viva.

 

Este post A� uma versA?o traduzida do texto originalmente publicado na revistaA�Arquitectura Viva, nA?A�139, que pode ser encontrado aqui.

 

Imagem de capa: SubA?rbioA�Levittown, PensilvA?nia

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