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Alfred Jarry iniciador e iluminador – por André Breton


“Pintar é somente fingir”: esta proposta de Corneille Curce, autor de uma obra intitulada Les Clous du seigneur (1634), Alfred Jarry a toma para si em um artigo abundantemente documentado sobre o mesmo assunto, que o Ymagier[1] publica em seu número 4, datado de julho de 1895. Sabe-se que hoje em dia ninguém mais do que ele é vítima de um dos piores flagelos de nosso tempo que é, em geral para propósitos sectários, a redução grosseira a um ponto de vista.

Tudo se passa como se de toda sua obra restasse apenas Ubu rei e textos posteriores na mesma linha; como se o humor, abundante lá mais do que em qualquer outro lugar, houvesse corroído profundamente, à maneira de um ácido, o metal para mascarar todas as outras formas de manifestação de uma personalidade, ainda que das mais ricas e complexas (mas é precisamente esta complexidade que não queremos: é mais confortável considerar apenas um aspecto de um certo pensamento, sobretudo se por acaso este aspecto ganhou um relevo excepcional). E entretanto, assim como não podemos reduzir Sade à perversão que tira dele seu nome, nem Baudelaire à obsessão com a morte, nem Lautréamont à vontade de glorificação do mal em Maldoror e depois do bem em Poesias, não poderíamos permitir por mais tempo que tudo aquilo que Jarry exprimiu de diferente seja sacrificado em nome do gosto com que ele marcou – e ilustrou como ninguém – o teatro de Guignol[2]

O autor de Ubu rei, Ubu enchaîné, Almanachs e Passion considérée comme course de côte, é também o do prólogo e do último ato de César-Antéchrist, de L’Autre Alceste, de L’Amour absolu, obras de ressonância, e quiçá de intenção final, bem diferente. Na verdade, a curiosidade de Jarry foi enciclopédica, se entendermos o termo não mais nas acepções do século XVIII, mas naquelas da passagem do século XIX ao XX. Esta passagem ocorre por uma porta que continua a nos interessar profundamente, a ponto de nos fazer voltar para ela, porque não sabemos nem de longe para onde ela conduz – o que já não é reconfortante. Entre todas, é a obra de Jarry que constitui, no plano sensível, a dobradiça dessa porta. Não há olhar que alcance uma extensão mais ampla tanto para o passado quanto para o futuro como o de Jarry.

Não somente Jarry profetiza e estigmatiza em Ubu rei e Ubu enchaîné as propostas aberrantes e mortais com as quais lidaremos depois dele,

não somente seu gênio inovador o inspira a tais escapadas líricas (a “Corrida das Dez Mil Milhas” em O Supermacho, a “Batalha de Morsang” em Dragone), cujo modernismo jamais foi ultrapassado e nem mesmo igualado, mas é como se ele já soubesse, por incrível que pareça, aquilo que vai interessar nossas interrogações sobre o passado, ele as identifica e as responde antecipadamente.

Estaria mais do que na hora de fazer cair a máscara de gesso de “Kobold” ou de “clown” com as quais Gide e alguns outros que não o amavam – e com razão – fantasiaram o rosto de Alfred Jarry. Que ele tenha ou não oferecido o travestido ou o burlesco diante de tais plateias de “homens de letras”, pouco importa: dada a envergadura deste olhar, o importante seria restitui-lo à sua verdadeira luz interior.

 

 

Este texto foi originalmente publicado em francês.

Imagem de capa: Rue Alfred Jarry, à Laval, 1953 © ADAGP, Paris, 2012.

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[1] Revista criada em 1894 por Alfred Jarry e Remy de Gourmont com duplo objetivo: lançar um novo olhar sobre a História da Arte, favorecendo o velho imaginário, o folclore, a lenda e, ao mesmo tempo, promover novas obras. A revista teve apenas 8 números.
[2] Teatro de fantoches criado no século XIX na França.