O cinema em Reinvenção da intimidade


Em seu mais novo livro, Reinvenção da intimidade, Christian Dunker discute sofrimentos que ganharam novos contornos na vida contemporânea. Os 49 textos são reflexões psicanalíticas permeadas de referências à literatura, filosofia e cultura pop. Sobressaem também comentários sobre cinema.

Fizemos aqui uma seleção de 13 filmes citados por Dunker para falar de sentimentos como solidão e ciúme, bem como sobre a superexposição, a sensação de esvaziamento e a intimidade nos dias de hoje.

 

 

Solidão 🙁 

Medianeras: Buenos Aires da era do amor virtual (Gustavo Taretto, 2011)

“Fico sozinho porque estou seguro e distante daquilo que é conflitivo ou ameaçador. Nesse caso, o sujeito não está dizendo algo como Não preciso de você ou Você me abandonou, por
isso eu te abandono também. Aqui a gramática do sofrimento está baseada em Não consigo estar diante do olhar do Outro que me critica, mas em relação ao qual eu desejo estar incluído. Nesse caso, trata-se simultaneamente de dizer não ao mundo e de dizer não para si mesmo. Aqueles que se retiram traumaticamente do mundo, a exemplo do personagem do filme argentino.”

 

Cena de Medianeras

 

Ciúme

O processo do desejo (Marco Bellocchio, 1991)

“Nada mais propício ao aparecimento do ciúme do que o clássico marido cuja vida se resume a satisfazer as demandas da esposa. No filme O processo do desejo, tal figura aparece exemplarmente descrita: um juiz que dá tudo para a esposa e é exatamente por isso que ela o rejeita. Não falta nada para amar. […] Lógico, não queremos tudo o que queremos, amamos quando surge algo além do que imaginamos.”

 

Superexposição

Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância)  (Alejandro González Iñárritu, 2014)

“Em um mundo que administra cada vez mais a vida privada por meio de rituais de exposição e por reconstruções manipuladas de afetos, gostos e disposições, os pequenos deslizes e os atos falhos assumem um valor cada vez mais decisivo. Se tudo é teatro, a única verdade virá da queda da máscara, da degradação do personagem, da revelação súbita da insustentável aspereza do ser.”

 

Cartaz de Birdman

 

Isolamento

Encontros e desencontros (Sofia Coppola, 2003)

“esta nova forma de isolamento, vamos chamá-la de isolamento oriental, é uma espécie de suspensão da demanda, que não pede nada e que não oferece nada, e se concentra apenas na construção de muros.”

 

Solidão 🙂

Comer, rezar, amar (Ryan Murphy, 2010)

“O temor da solidão é o temor do deserto e o temor do desterro. A maneira mais simples de reencontrar a própria solidão é a viagem solitária: a leitura e a música em primeiro lugar, mas a viagem real também, como em Comer, rezar, amar. A maior parte das pessoas pensa que o amor é uma experiência comunitária. Em grande medida, ele é uma experiência de solidão.”

 

Esvaziamento

Blade runner, o caçador de androides (Ridley Scott, 1982)

“sofrimentos narcísicos em dois conjuntos: experiência de esvaziamento, no qual nos sentimos como um tubo ou como uma imagem transparente, pelo qual as coisas passam, mas nada de relevante fica e é realmente digno de ser vivido. Na literatura é o tema de Frankenstein, o monstro formado por pedaços de outros corpos, que sofre de uma insaciável vontade de encontrar o outro. Como os replicantes do filme Blade Runner, o caçador de androides, sujeitos oprimidos pelo sentimento de inautenticidade. Como zumbis, autômatos ou vampiros, que precisam da presença do outro para se sentirem vivos.”

 

Cena de Blade runner

 

Solidão 🙂

Ninguém pode saber (Hirokazu Koreeda, 2004)

“No filme de Koreeda, inspirado em fatos reais, um grupo de irmãos decide viver sozinho depois que sua mãe os abandona no apartamento em que vivem. Em vez de procurar uma instituição que os separará, eles desenvolvem uma forma de vida relativamente viável. Nesse caso, o sucesso pessoal deve ser pensado como um sucesso grupal. […] Retrair-se e isolar-se é uma maneira de tentar criar uma comunidade alternativa, no interior da qual se pode obter algum sucesso.”

 

Intimidade

Central do Brasil (Walter Salles, 1998)

“no filme podemos acompanhar uma discussão muito interessante sobre a intimidade. Central do Brasil, edifício ferroviário, ícone da desaparição da pessoa num universo violento e individualista, mas também Central do Brasil, interior do país, reduto da tradição originária e regida pelos laços pessoais de sangue, honra e religiosidade. Entre eles, a intimidade.”

 

Cena de Central do Brasil

 

Não dito

Desejo e reparação (Joe Wright, 2007)

“Tese complementar: a criança sempre sabe. Aquele que atendeu famílias corroídas pelo segredo, pessoas atormentadas por suas orientações sexuais, crianças de quem se escondeu uma adoção, destinos humanos cercados por fantasias inadmitidas, sabe o peso que se acumula na verdade que não se diz. E esse peso é ainda maior quando o tempo coagula tal verdade atribuindo a ela valor e potência que não se dilui nem se troca, nem se desloca pela sua entrada no comércio dos assuntos humanos e na sua lei maior que é a lei do reconhecimento compartilhado.”

 

Quase morte

Biutiful (Alejandro Iñárritu, 2010)

Além da vida (Clint Eastwood, 2010)

Amor (Michael Hanecke, 2012)

A janela (Carlos Sorín, 2008)

“A ascensão de filmes sobre a ‘quase morte’ parece tematizar, em nossa cultura, a importância crescente que reconhecemos na estrutura irônica da vida, ou seja, o interesse na falta de sentido. É o que eu gostaria de chamar de fase zero do morrer, fazendo um acréscimo a Klüber-Ross e combinando isso com a noção de ‘segunda morte’ proposta por Lacan.”

 

Cena de Amor

 

 

Imagem de capa: Le voyage dans la lune (Georges Méliès, 1902)

Créditos: imagens de divulgação

 

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Reinvenção da intimidade
Christian Dunker

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